Juca Kfouri merece respeito e reverência, não o cancelamento da miopia do identitarismo
O Tribunal da Internet desrespeita uma pessoa com passado e presente impecáveis na luta por uma sociedade mais fraterna e justa
O caso envolvendo Juca Kfouri e Domitila Becker está tendo desdobramentos irracionais, com muito preconceito e aquela tristeza de ver que muitos jornalistas jovens desconhecem a História. Ou não dão a mínima para ela. Pior, não percebem que os inimigos na luta por uma sociedade justa são outros, nunca o Juca. É a miopia do identitarismo.
Recapitulando um pouco: No programa "Fim de Papo", Juca avisou que faria uma piada e disse que mulheres são mais indicadas que homens para tocar pautas com celebridades ligadas ao esporte. Falava-se de mulheres de jogadores em Copas do Mundo.
Domitila Becker respondeu de maneira dura, correta e, a meu ver, exagerada. A piada tipo "tio do pavê" não pode ser considerada um provável gatilho para mais feminicídio no Brasil.
Podia parar por aí, mas o Tribunal da Internet se manifestou. "Hoje, nós vencemos", disse uma. Nós, quem? Juca é um batalhador do futebol feminino, sempre escreve sobre. E é um combatente do bom jornalismo, independentemente de gênero. Não há uma queixa a respeito, sua postura é irretocável. Estar ao lado dele é privilégio.
Um rapaz e uma menina concordaram: "é um ultrapassado".
Ultrapassado?
Outro dia, Juca esteve na Catedral da Sé, relembrando os 50 anos da morte de Vladimir Herzog. Exatamente no mesmo local onde esteve quando foi celebrado o ato ecumênico comandado por D. Paulo Evaristo Arns, denunciando ao mundo a prática de tortura no Brasil. São 50 anos de luta pela Democracia. Isso é ser ultrapassado? Esse trajeto pode ser esquecido por um ato errado?
Isso é identitarismo. A minha causa é o que vale, não a luta geral. Quem pensa assim, no limite, acaba colocando no mesmo balaio Érika Hilton e Tammy Gretchen. Jean Wyllys e Clodovil.
Muitas vezes discordei das escolhas eleitorais de Juca. Nas eleições presidenciais de 1994, 1998 e, principalmente para prefeito de São Paulo em 1992, entre Maluf e Suplicy.
Nunca deixei de ver nele uma pessoa imprescindível nas lutas da esquerda. Em todas, não apenas naquelas restritas a um nicho da sociedade.
Tenho certeza que estará sempre travando o bom combate. Dos seus detratores anônimos - não falo de Domitila, claro - não sei nada. Nem quero saber.