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24 de julho de 2017, 13h42

Aeroportos e postes ilustres

Vi um dia desses que pretendem mudar o nome do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Quer dizer, mudar não. Dar um nome de gente a ele, mas só para constar. Deve continuar sendo chamado de Aeroporto de Congonhas mesmo, assim como tem o Aeroporto Governador Franco Montoro… Quem sabe onde fica ele? Bom, todo mundo continua chamando de Aeroporto de Cumbica, ou de Guarulhos.

O homenageado, no caso de Congonhas, será Freitas Nobre, jornalista e político. Não tenho grandes informações sobre ele, parece ter sido correto. Mas acho uma grande falta do que fazer essa história de ficar mudando nomes de gente.

Na maior parte das vezes é puro puxa-saquismo, como no caso do Aeroporto 2 de Julho, de Salvador, que passou a se chamar Luiz Eduardo Magalhães! Ora! 2 de julho é uma data histórica, dia da “Independência da Bahia”, porque foi nessa data, em 1823, que os baianos expulsaram os portugueses de lá, que não reconheciam a independência.

O puxa-saquismo para agradar Antônio Carlos Magalhães, o ACM, pelos seus métodos também conhecido como Toninho Malvadeza, foi tão grande que não se contentaram em dar o nome do filho que tinha morrido pouco antes ao principal aeroporto da Bahia. Mudaram até o nome de uma cidade, que antes se chamava Mimoso do Oeste e passou a se chamar Luiz Eduardo Magalhães.

Que coisa! Se encontrar alguém de lá, vou gozar: “Então você é luizeduardomagalhãesense?”.

Mas mesmo que fosse um político que eu gostasse, seria contra a mudança do nome do aeroporto. É uma bobagem. Tanto que gosto muito do Tom Jobim, mas chamo o aeroporto a que deram o nome dele pelo nome que teve originalmente, e que é o que todo mundo conhece: Aeroporto do Galeão. E isso vale também para cidades que adotam nomes de gente, para ruas, praças, parques…

Não sei porque umas pessoas sentem ojeriza por nomes bonitos e/ou simbólicos e nem procuram saber quem deu o nome a sua rua ou cidade. Na Vila Madalena há alguns anos, um homem que acho que deve ser muito bobo não gostava do nome da rua dele, Purpurina, e queria que mudassem o nome. Se tivesse conseguido seu intento, talvez a rua Purpurina tivesse o nome de algum político indigesto ou de pai ou mãe de um deles.

Pois essa possível mudança do nome do Aeroporto de Congonhas, me remete a uma crônica que publiquei há muitos anos na Revista do Brasil, e acho que vale repetir. Aí vai ela, com algumas pequeníssimas modificações.

Postes personalizados

Viajando pelo interior do estado de São Paulo, umas passarelas de pedestres sobre as estradas me fizeram lembrar, ao mesmo tempo, do bairro da Vila Madalena, em São Paulo, e de viagens de estudantes à Bolívia nos anos 70.

É que hoje em dia até as passarelas de pedestres levam nomes que homenageiam autoridades locais. Parece que quando morre alguém que tenha sido prefeito ou vereador, ou tenha sido “importante” na cidade, é preciso dar o nome do dito cujo a alguma coisa. Nem sempre há ruas, escolas ou rodovias disponíveis, então passam a procurar qualquer coisa. Até passarela.

E o curioso é que fazem questão de colocar os títulos do homenageado e seu nome completo. Então, fica algo como Passarela Vereador Frederico Paulino Vieira Gomes de Almeida. Ufa!

Começamos a brincar, prevendo que logo será preciso procurar algo mais para dar nome de cidadãos ilustres, e assim teremos pinguelas, rampas de acesso a viadutos, curvas da estrada, porteiras, ladeiras, pontos de ônibus e muitas outras coisas devidamente nomeadas. E não nos limitamos a autoridades municipais. Previmos, por exemplo Desvio Governador Paulo Salim Maluf, Porteira Ministro da Agricultura Fulano de Tal, Mata-burro Presidente Beltrano, Praça de Pedágio Governador Mário Covas…

Bom… O que tem isso a ver com a Vila Madalena?

Os primeiros moradores do bairro foram na maioria operários espanhóis, italianos e portugueses que trabalhavam na construção do luxuoso cemitério São Paulo, em Pinheiros. E entre eles havia muitos anarquistas, que – acho ótimo – não quiseram dar nome de gente às ruas. E elas ganharam nomes belíssimos, como Original, Laboriosa, Purpurina, Girassol, Simpatia, Harmonia e Fidalga. Esta última, com certeza, não se referia a nenhuma mulher com título de nobreza ou casada com algum fidalgo, mas ao adjetivo que “denota generosidade”, como dizem os dicionários.

De vez em quando fico imaginando uma cidade em que todos os nomes de ruas e praças seriam assim, de adjetivos, flores, substantivos bons, ritmos, aves ou simplesmente palavras bonitas. Nada que signifique diferenças entre as pessoas, superioridade. Não haveria, por exemplo, ruas com o nome de poder, potência, supremacia, propriedade…

Alguns nomes de ruas nessa cidade imaginária: Paz, Amor, Concórdia, Liberdade, Fraternidade, Melodia, Valsa, Samba, Beijo, Abraço, Namoro, Primavera, Gardênia, Azul, Sabiá, Tico-Tico, Viola, Jabuticaba, Pitanga, Infância, Juventude, Ipê, Poesia, Encanto…

E por que as viagens à Bolívia?

Houve um tempo que estudantes universitários de São Paulo, Rio e outras cidades se sentiam na obrigação de viajar até o Peru, para conhecer Macchu Picchu. Mas não podia ser de avião. Tinha que ser de trem até Corumbá, de lá atravessar a fronteira e continuar de trem até Santa Cruz La Sierra, em seguida parar em La Paz, depois no Lago Titicaca, para finalmente entrar no Peru. E muitos voltavam comentando que em La Paz havia rua em que cada quarteirão tinha um nome. Em um século e meio houve cerca de 180 revoluções e golpes de estado no país, e cada um deles produzia mártires “merecedores” de ser nomes de ruas, mas não havia tantas ruas assim na cidade relativamente pequena. A solução foi essa.

Pois é, e nossas cidades estão mais para a La Paz da era pré-Evo Morales do que para a Vila Madalena. Há “ilustres” demais. Prevejo que logo faltarão até pontos de ônibus para colocar os nomes deles. Então, a solução será nomear os postes. Para que familiares dos homenageados não reclamem do desprestígio de ter seu parente emérito como nome de uma coisa menor, o jeito é homenagear também nos postes ilustres de maior coturno. Por exemplo: poderíamos ter o Poste Prefeito Gilberto Kassab, Poste Ministro Edson Lobão, Poste Fulano da Fiesp, Poste Secretário de Estado Aloísio Nunes, Poste Presidente Sarney… Bem, pulo para os dias de hoje, em que muitas figuras se revelaram merecedores para dar nomes a postes. Uns postes em que eu faria uma cachorrada: mijaria neles. É isso aí.


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