Blog do Mouzar

11 de novembro de 2010, 03h41

Aparições: eu quero é mais!

Vira e mexe a gente ouve falar que o brasileiro é um herdeiro de Macunaíma, herói sem nenhum caráter. Nem caráter bom nem mau, pois é a isso que remete o livro de Mário de Andrade. Acostumados aqui no Sul e Sudeste com a mitologia de origem tupi, nós nos esquecemos de que muitos povos não tupis também tinham e têm seus próprios mitos.

Macunáima – a pronúncia é assim e não Macunaíma – é um dos principais mitos de vários povos indígenas de Roráima – a pronúncia é essa e não Rorãima como muitos falam aqui. Lá a gente vê muitas coisas com a terminação aima – inclusive a cidade de Pacaraima, divisa com a Venezuela, onde deu toda aquela encrenca dos arrozeiros que não nasceram na região, ocuparam terras indígenas e se dizem injustiçados por serem retirados delas.

Bom, voltando ao Macunaíma, entidade divina para os povos makuxi, wuai-wai, acavai e muitos outros, ele é o grande criador da terra e das plantas. Depois criou os homens e caiu num sono profundo. Enquanto ele dormia, um espírito mau tomou conta da terra. Quando acordou, ele fez chover bastante para espantar esse mau espírito.

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Sua história foi ganhando força entre os povos da região, e ele – casado com Cy e com dois filhos brincalhões e um tanto safados – tornou-se um mito essencial, inventivo, brincalhão, aventureiro, astucioso e também com algumas maldades, como a de transformar os inimigos em pedra.

Enfim, é um herói regional das histórias populares indígenas, fazendo rir e pensar, sem a pose de poderosos e carrancudos dos deuses olímpicos. É mais um mito brasileiro que vale a pena ser conhecido e estudado.

Neste “Mês do Saci” – já tem gente considerando outubro inteiro, e não apenas o dia 31 como data de comemoração do Dia do Saci e seus amigos – muitas cidades vão festejar nossos mitos tradicionais e me lembrei de que acabamos nos concentrando nos mitos de origem tupi e praticamente esquecemos os de outros povos indígenas. Jurupari, que aparece nos dicionários de português como o diabo dos índios, é o grande legislador e civilizador de muitos desses povos, e é um dos quase esquecidos.

Se temos ainda por volta de 180 línguas indígenas no Brasil, e imaginando que esses povos não tupis devem ter crenças maravilhosas, penso no que estamos perdendo por não conhecê-las. O que sabemos de Kamé e Kairu, que segundo o povo kaigang criaram os seres da natureza e as regras de conduta dos seres humanos? Já os xavante dizem que quem criou o mundo foi A’uwe. Qual é a história dele? E o povo tucano (epa!, nada a ver com esses da política) que nos ensina que a humanidade nasceu do ventre de uma grande cobra? E o que sabemos de mitos como Mavutsinin, o primeiro homem segundo alguns povos?

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Enfim, não sabemos nada da cultura baniwa, juruna, pareci, carajá, krenak, bororo e de tantos outros povos. Que pena. Gostaria de aprender um pouco de tudo isso.

Para terminar vou falar de uma assombração que não tem nada de indígena: o Bicho da Carneira é de Pedra Azul, no nordeste de Minas. No começo do século XX, um rapaz de família rica, mas meio esquisito, morreu e foi devidamente enterrado. Anos mais tarde, o cemitério seria transferido para outro lugar e todos os restos mortais foram transferidos para o cemitério novo. Quando abriram a carneira, quer dizer, a cova do tal rapaz, ele estava inteirinho, como se tivesse sido enterrado naquele dia.

Puseram o corpo num túmulo do novo cemitério, e tempos depois o túmulo apareceu rachado e pelo buraco saía cabelo do defunto, que continuava crescendo. Fizeram novas reformas, e não adiantava…

Contam em Pedra Azul que, até hoje, de vez em quando esse defunto, que ficou conhecido como Bicho da Carneira, sai do túmulo e vai assombrar gente por aquelas bandas. Mas dizem também que o defunto, além de teimar em não se decompor, tem bom gosto: vai aos melhores restaurantes, bebe e come à farta… e manda a conta pros parentes pagarem. Esse branquelo tem algo de Macunaíma, não? Um morto-vivo muito esperto. Ou um vivo mais esperto ainda, passando por morto.

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Essa crônica é parte integrante da edição impressa da Fórum 91.


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