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13 de outubro de 2019, 13h54

Boitatá na Festa do Saci

Em seu blog, Mouzar Benedito divulga as comemorações do Dia do Saci e traz curiosidades sobre outros seres do imaginário brasileiro

Reprodução

Desde 2003, a Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci – comemora o 31 de outubro como “Dia do Saci e seus Amigos”.

Amigos do Saci são a Iara, o Caipora, o Boitatá, o Curupira, o Jurupari, Macunaima e muitos outros seres do imaginário brasileiro, mas também uns que vieram com os portugueses para cá: a Mula sem Cabeça, o Lobisomem e a Cuca. Eles acreditavam nesses seres e os trouxeram no imaginário. Diferente do raloín, enfiado goela abaixo e sem nenhum sentido para nós.

Nada contra o Halloween dos povos celtas do Reino Unido, mas sim contra a invasão cultural imposta de forma imperialista.

E nada contra as bruxas também. Em Santa Catarina, por exemplo, há muitas descendentes das bruxas que escaparam das fogueiras da Inquisição em Portugal. São mulheres sábias, que entendem a natureza, e não são más: executam trabalhos de parteira, curandeiras (conhecem as ervas medicinais) e, claro, fazem algumas “bruxarias”, mas quase sempre boas, embora como em qualquer grupo, há quem faça maldades também. Mas o que as levava à fogueira era o fato de serem consideradas hereges. Tudo a ver com os tempos atuais no Brasil e algumas partes do mundo, não?

Bom… Enquanto em outros países da Europa se queimavam as “hereges” por bruxarias, Portugal, que precisava colonizar as terras que “descobriu”, mandava para essas mulheres para o Açores, degredadas.

Mais tarde, quando quiseram colonizar a ilha de Santa Catarina, antes dominada pelos espanhóis, mandou um monte de mulheres dos Açores para lá. Muitas delas eram bruxas que aprenderam sua arte com mães e avós que por sua vez aprenderam com as ancestrais portuguesas.

As bruxas de Santa Catarina não gostam de ser comparadas com as do raloín, e festejam o 31 de outubro com o Saci. Ótimo. Gostamos delas.

A festa deste ano

Muitos lugares festejam o Dia do Saci. E em muitas cidades, colégios públicos e privados também festejam, em vez do raloín.

Em São Luiz do Paraitinga, a festa inclui sempre muita música, saciata (passeata do Saci), passeio saciclístico, teatro, exposição, brincadeiras e oficinas para crianças e adultos.

Uma das atividades culturais para adultos é um seminário sobre algum tema ligado à cultura caipira, ao meio ambiente ou a personagens de quem gostamos. Este ano, é imperdível um evento com a duração de seis horas, no sábado (9h às 12h e 13h30 às 16h30): A viola que pensa: música caipira e viola matuta, com Jair Marcatti e Levi Ramiro.

Outra atividade cultural que ocorre com uma certa regularidade é o lançamento de livros relacionados ao tema. Este ano serão lançados três livros (O real e o imaginário, de Ditão Virgílio, Minha vó saiu de férias, de Adriana Felíssimo, e Boitatá e os boitatinhas, escrito por mim e ilustrado por Hallina Beltrão, grande artista pernambucana.

Falo aqui do meu livro infantil, Boitatá e os boitatinhas, publicado pela Boitempo, pois ainda não vi os outros dois. Claro que nele tratamos de questões ambientais, de forma lúdica.

O Boitatá existe?

“Coisa de índio”, né? Sim… A mitologia tupi-guarani, como quase todas as deidades indígenas, é muito relacionada ao meio ambiente. Cada deus tem relação com algo da natureza. A Iara, por exemplo, é protetora dos animais que vivem nas águas doces (rios e lagos), e para que esses animais existam e vivam bem, precisam de muita água, e que seja água limpa. O Curupira é protetor da floresta. O Boitatá protege os campos com toda a vida que existe neles.

O venerável Padre Anchieta, segundo o folclorista Câmara Cascudo, já se preocupava com o Boitatá. Em carta escrita em São Vicente em 31 de maio de 1560, que ele mandou para seus superiores na Europa, citou o mbaetatá, termo traduzido como “coisa de fogo, o que é todo fogo”. E falou sobre ele: “Um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os como os curupiras: o que seja isto, ainda não se sabe com certeza”.

O general Couto Magalhães, estudioso da cultura tupi (conviveu durante anos com povos indígenas), no livro O Selvagem (de 1876) dá o nome Mboitatá e traduz como cobra de fogo. E diz que “Às vezes transforma-se em um grosso madeiro em brasa (…) que faz morrer por combustão aquele que incendeia inutilmente os campos”.

Bom… No livro Boitatá e os boitatinhas não tem essas citações. É um livro para crianças, né? Coloquei estas coisas aqui para os adultos que queiram presentear crianças com um livro que não compactua com os defensores dessas queimadas destruidoras do ambiente, seja na Floresta Amazônica, no Cerrado, na Mata Atlântica, nos campos naturais etc.

Logicamente, poucos, muito poucos leitores poderão ir à festa do Saci em São Luiz do Paraitinga, onde será lançado. Mas podem adquirir diretamente na Boitempo Editorial ou nas livrarias de todo o Brasil. Garanto pra vocês: é um livro bonito, e com conteúdo, com a pretensão de ser uma leitura agradável e ilustrativa.

Planeje sua festa

Muita gente de fora comparece à festa do Saci em São Luiz do Paraitinga, levando suas crianças ou não. Para atender a esse público, a festa ocorre em fins de semana. Este ano, começa na noite do dia 25 (sexta-feira), tem atividades sábado todo e parte do domingo. Tem muitas pousadas na cidade, mas elas costumam lotar. Então, quem planejar dormir lá, lembre-se disso.

A gente festeja lá, e no dia 31 de outubro festejamos de novo, onde estivermos.

 

Quem quiser saber mais sobre a Sosaci pode entrar em www.sosaci.org.br – nos próximos dias deverá ser colocada nela toda a programação da 17ª festa do Saci.


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