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28 de agosto de 2015, 00h56

Brasília: “praia” para o povo!

Brasília, urgente! Notícia boa.

É piada? Não, não é! Na situação atual, em que as notícias são sempre negativas, e quando se fala em Brasília, então, todo mundo já fica esperando desgraças, se aparece uma boa notícia, ela se perde no meio do carrascal de ruindades e cai logo no esquecimento.

Antes de comentar a notícia, que para muita gente passou despercebida, quero dizer que morei em Brasília, e gostei! Outra coisa que podem achar que não estou falando a verdade.

Fui para lá em 1995, por absoluta falta de perspectivas em São Paulo. Estava desempregado aqui e me apareceu um emprego lá. Eu achava a cidade muito ruim, não queria ir, mas precisava. Resolvi arquivar meus preconceitos contra a cidade numa gaveta do cérebro e ir de espírito aberto. O amigo que me ofereceu emprego, Luiz Mineiro, dizia que era bom viver lá.

Acontece que conheci Brasília numa fase ruim: tinha pouca vegetação, era árida, e estávamos em plena ditadura. Fui várias vezes para lá a trabalho e ficava hospedado na zona hoteleira. Era (e é) esquisito ficar ali, parecia que estava na lua, longe de tudo. E meus trabalhos eram geralmente no Congresso ou em algum Ministério (principalmente o da Educação e Cultura). Na Esplanada dos Ministérios não há bares nem restaurantes, é um ambiente besta, também.

Sem contar que não é um lugar para se andar a pé. Para ir dos hotéis até ali, não é muito longe, dá bem para ir a pé… Ou daria, pois não há calçadas, e em alguns lugares é ruim para atravessar as ruas sem semáforos.
À noite, para ir a um bar ou restaurante, se pedisse indicação a alguém do hotel ou a um taxista, acabava sendo levado a um daqueles lugares chatos e caros, frequentados por políticos e politiqueiros.

Eu dizia que Brasília era pura aridez, de vegetação e de ideias.

Novos tempos

Pois bem. Quando cheguei lá para morar, as coisas tinham mudado muito. Não havia mais tanta aridez. Nem de vegetação nem de ideias.

Com o fim da ditadura, era já um lugar com muita gente interessante, mentalmente arejada, culta, democrática. E as árvores que no tempo da sua fundação eram mudinhas, agora eram altas, grandes, bonitas. Andando de carro pelo “Eixão”, uma baita e larga avenida que cruza a cidade de leste a oeste, a sensação, às vezes, era de que estava cruzando um grande bosque, dada a quantidade de árvores nas suas margens.

E melhor: eram árvores frutíferas. Sempre sonhei com um tempo em que as ruas das cidades fossem arborizadas com frutíferas, e lá era assim: de cada lado da avenida havia três “faixas” de árvores, todas frutíferas. Abacate, manga e muitas outras frutas que os pedestres podiam apanhar.

Fiquei hospedado na casa do Luiz Mineiro e na primeira manhã ali, contei a ele que sonhei que estava comendo jambo. Que coisa estranha! Havia tanto tempo que não comia jambo que nem me lembrava da existência dessa fruta, e sonhei… Bom, ele me chamou para ir a um supermercado, a pé, e lá ele me mostrou o que havia em volta do estacionamento: entre goiabeiras e outras fruteiras, três pés de jambo, carregados e maduros. Comi alguns, com gosto.

Depois fui morar numa quadra da Asa Sul. A quadra toda era arborizada com abacateiros e mangueiras. Qualquer pessoa podia colher essas frutas. A quadra em frente era toda arborizada com Jamelão, frutinha que tem aparência de azeitona preta, e no Nordeste é chamada de azeitona. Era tanto jamelão maduro caído no chão que se tornava impossível não pisar nas frutas, e a sola dos sapatos ficava suja, manchando o lugar em que pisava. Antes de entrar em casa tinha que limpar os sapatos na grama.

Mais tarde, mudei para uma quadra na Asa Norte, em frente à Universidade de Brasília. Era mais “popular”, mais pobre, de apartamentos menores, mas com a vantagem de ter mais gente circulando a pé, e era gente mais variada: da Universidade, vinham estudantes oriundos de todas as partes do Brasil, africanos, asiáticos, latino-americanos. Era uma quadra divertida.

Mas o que mais me surpreendeu foi, ao começar a frequentar um armazém para beber ou para fazer compras, o dono, um libanês xiita, com uma generosidade de desmoronar qualquer preconceito contra os xiitas, queria que eu abrisse uma conta lá para pagar no fim do mês. Eu era um recém-chegado, desconhecido, e ele me oferecia isso!

Comentei isso com uns amigos e eles me disseram que não era uma coisa incomum em Brasília. Uma surpresa. “Numa cidade cheia de políticos corruptos…”, pensei. Ah, isso é outra coisa. Brasilienses legítimos, nascidos lá, ficavam indignados quando alguém pensava que brasilienses eram corruptos. Diziam, com razão: “São vocês que mandam os corruptos para cá. Vejam no Congresso, quantos deputados são de Brasília? E nos ministérios, quantos corruptos vieram da sua terra para cá?”.

Coisas boas e coisas ruins

Uma amiga geógrafa, que já morava lá quando cheguei, me disse uma vez que Brasília é como o Cerrado: de longe, parece tudo igual, mas de perto é cheia de detalhes, diferenças.
Cada superquadra tem uma área de comércio local com bares, restaurantes, lojas e serviços que se diferenciam sempre de uma para outra.

Eu gostava muito de ir à feira do Guará, que tem centenas de barracas numa área coberta maior do que um campo de futebol. Além das coisas normais vendidas em feiras, tinha uns botecos populares e barracas que vendiam camisas de cambraia trazidas do Nordeste, muito agradáveis de se usar em lugares quentes. E eram baratas.

Outra feira que eu gostava era a do Paranoá. Quando construíram a cidade, surgiu uma favela ao lado da barragem que barra as águas do rio Paranoá e forma a represa. Para acabar com a favela, construíram uma cidade satélite no alto de uma colina em frente a ela e transferiram toda a população para lá. Ficou sendo um lugar interessante, cheia de gente andando a pé, parecia uma cidade do interior do Nordeste. E a feira do Paranoá fica num lugar com uma vista panorâmica maravilhosa, dá para ver todo o Plano Piloto do outro lado da represa.

Num boteco que eu frequentava, nessa feira, eu pedia uma cachaça ou uma vodka para “abrir os trabalhos” e a dona já trazia, de graça, meio copo de caldo de mocotó, tira-gosto que ela servia brincando que era para “levantar a moral”. Muitos botecos da periferia de Brasília têm esse costume.

Poderia continuar aqui relatando coisas boas da cidade, mas chega! Tinha problemas, sim. Um era essa coisa da cidade ter sido feita para carros, não para se andar a pé, a não ser dentro das superquadras.
Outro era que certas áreas já começavam a entrar em decadência. A avenida W-3, por exemplo, planejada como um corredor comercial, com lojas, restaurantes e serviços em geral, perdia suas características iniciais por causa dos shoppings que começaram a tomar sua clientela. Já parecia em algumas partes com avenidas da periferia de São Paulo.

Uma coisa que eu achava muito chata era aquilo de existir “clube dos jornalistas”, clube disso ou daquilo, um estímulo à convivência só com pessoas da mesma área de trabalho. Nunca topei isso. E achava esquisito a setorização de certas coisas, havia uma avenida “só” de igrejas, uma área das embaixadas, um setor dos meios de comunicação… Costumava brincar com amigos: “Vamos tomar umas no setor de Antarctica Norte ou no Brahma Sul?”.

E a violência já era ameaçadora em algumas cidades satélites. Depois que saí de lá, piorou, eu soube que tornou-se perigoso até atravessar de uma superquadra para outra. A causa: Joaquim Roriz ganhou a eleição para governador prometendo terreno de graça para quem quisesse se mudar para lá. E cumpriu: milhares e milhares de famílias se mudaram para favelas que surgiram na periferia. Ganharam lugar para construir um barraco, mas não empregos. Com isso aumentou a violência, os assaltos. E como é no Plano Piloto que mora a maior parte de quem tem grana, os assaltos violentos chegaram até ali.

Afinal, a notícia boa!

Uma coisa que parece estar no fim é o costume de fechar os olhos para as bandalheiras dos ricos. Por exemplo: eles sempre se apropriaram de terras públicas, impunemente.

Nada demais, podem dizer: pobres também constroem favelas em terras públicas e, portanto, se apropriam delas. Mas nesses casos são malvistos, maltratados, considerados invasores. Já os ricos tomam posse de lugares que não podem e todos tratam como se isso fosse normal, correto.

E agora veio essa notícia. O lago Paranoá foi construído para levar um pouco de umidade ao ar muito seco da região, mas não só isso: seus 80 quilômetros de entorno seriam como praias para toda a população. Uma faixa de trinta metros em torno do lago seria de acesso público, todas as pessoas deveriam ter acesso a suas margens.

Mas o que aconteceu foi que os donos das mansões com fundo para o lago fizeram cercas e se apropriaram dessa faixa toda. Pois agora o Governo do Distrito Federal começou a derrubar as cercas e abrir a orla do lago para o povo. E começou por uma área riquíssima, de mansões usadas por autoridades como ministros e presidentes do Senado e da Câmara. Já de cara, mais de 400 desses privilegiados estão vendo suas cercas caírem e a orla ser aberta ao povo.

Fico torcendo para que nessa “onda” de mudanças que faz parecer que o ano de 2015 está virando tudo de pernas para o ar, com a justiça ameaçando funcionar para (ou contra) todos, essa iniciativa do governo de Brasília se espalhe pelo Brasil todo, principalmente para as praias e cidades litorâneas.

Por lei, uma faixa de 33 metros de terra da orla, a partir da preamar, é chamada de terra da Marinha, pertence ao governo, para que todas as pessoas possam ter acesso ao mar e seu entorno.

Mas isso acontece? Tem lugar em que constroem até condomínios de luxo nessas áreas, e em outras fecham qualquer acesso a elas. Privatizam as praias.

Eu me lembro que durante muito tempo ia a Salvador todos os anos e gostava de ir desde a Barra até Itapuã pela praia, admirando a beleza da cidade. Mas passei quase quinze anos sem voltar lá. Só voltei no ano 2000. Foi um baque!

Toda a orla estava ocupada por construções ilegais, como clubes, restaurantes e moradias. Passando pelo Jardim de Alá, que eu gostava muito, vi que ele tinha sido muito encolhido.

Mas o baque maior foi quando cheguei ao farol de Itapuã. Ele fica numa pequena colina à beira mar, e nessa viagem vi uma casa burguesa, uma mansão, com seus muros a um metro do farol. Um crime.

Claro, que tudo isso é ou foi feito com a complacência das autoridades, ou de acordo com elas.
Por onde a gente vá, Brasil afora, é comum ver coisas desse tipo. Então, repito: torço para que o exemplo de Brasília pegue.
Foto de capa: http://www.flickr.com/photos/agentlebossanova/188334037/


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