Blog do Mouzar

27 de fevereiro de 2014, 17h17

Cantando nos blocos: sucessos do carnaval

A Vila Madalena, onde moro, passou por várias mudanças. Foi bairro dormitório de trabalhadores da construção civil, que moravam em casinhas de fundo que depois foram ocupadas por estudantes universitários, e em seguida virou bairro de intelectuais, que por sua vez foram substituídos por yuppies, jovens executivos moderninhos, até que chegaram os muitos bares e restaurantes.

Agora, é bairro do carnaval de rua animado, com blocos por todos os lados. Que músicas tocam e cantam nesses blocos? Claro, cada bloco tem suas próprias composições. Mas se forem cantados sucessos “nacionais”, o saudosismo vai tomar conta, porque há muito tempo não há músicas de carnaval que fazem sucesso.

Uma das últimas foi Chuva, suor e cerveja, de Caetano Veloso, em 1972. Em 1973 e 74 ainda apareceram algumas, vejam no final.

Máscara Negra, de Zé Kéti, e Note dos Mascarados, de Chico Buarque, ambas de 1967, estão entre as últimas que gostei. Era tempo em que existia ainda o “carnaval de salão”, em clubes. Lembro-me de todo mundo cantando animado alguns versos de Máscara Negra ― “Vou beijar-te agora / não me leve a mal / hoje é carnaval” ― e aproveitar para tascar uns beijos nas parceiras recém-conhecidas.

Bom, pensando nisso, resolvi fazer um “levantamento” dos grandes sucessos de carnavais passados, cantados até hoje.

Tudo começa com a gloriosa Chiquinha Gonzaga, mulher da pá virada, compondo em 1899 a música Ô-abre-alas, para o cordão Rosa de Ouro. Esta é considerada a primeira marchinha composta especialmente para o carnaval.

Demorou anos para aparecer músicas de sucesso contínuo, sejam marchinhas, sambas ou músicas de qualquer outro ritmo. Acho que foi só em 1916 que a coisa começou, com Pierrot e Colombina. de Eduardo das Neves e Oscar de Almeida

Em 1917, foi gravado Pelo telefone, composto em rodas de samba na casa da baiana, Tia Ciata, no Rio, onde o samba tomou forma tomou forma, e gravado por Donga, que se intitulou seu compositor, sob protestos de colegas. Ele respondeu que “samba é como passarinho: é de quempegar”.

Nesse mesmo ano, fez sucesso a música A baratinha (“a baratinha ia-iá / a baratinha iô-iô / a baratinha bateu asas e voou”), de Mário São João Rabelo

Vamos ver ano por ano, só as músicas que permaneceram no nosso repertório:

 

1929 – Dorinha, meu amor – José Francisco de Freitas

Gosto que me enrosco – Sinhô

Jura – Sinhô

 

1931 – Com que roupa – Noel Rosa

Se você jurar – Francisco Alves

1932 – Teu cabelo não nega – Irmãos Valença e Lamartine Babo

A-E-I-O-U – Lamartine Babo e Noel Rosa – para quem não se lembra desta, aí vai um pedaço da letra: “A.E.I.O.U / Dabliú, dabliú / na cartilha da Juju, Juju…”

 

1933 foi um ano pródigo, teve pelo menos quatro músicas de grande sucesso:

Linda morena – Lamartine Babo

Até amanhã – Noel Rosa

Fita amarela – Noel Rosa – lembram-se da letra? Aí vai um pedaço dela: “Quando eu morrer, não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela gravada como nome dela”

Formosa – Nássara e J. Rui – como existe outra música com o nome Formosa, aí vai um pedaço da letra desta: “Foi Deus quem te fez formosa / formosa, formosa / porém este mundo te tornou / presunçosa, presunçosa”.

 

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1934 – Agora é cinza – Bidê e Marçal

O orvalho vem caindo – Noel Rosa e Kid Pepe

Linda lourinha – João de Barro (Braguinha) – “Lourinha, lourinha / Dos olhos claros de cristal /Desta vez em vez da moreninha / Serás a rainha do meu carnaval”

 

1935 – Cidade Maravilhosa – André Filho

Rasguei a minha fantasia – Lamartine Babo

Implorar – Kid Pepe, Germano Augusto e J.S.Gaspar – “Implorar, só a Deus / mesmo assim às vezes não sou atendido”

 

1936 – Palpite infeliz – Noel Rosa

Pierrô apaixonado – Noel Rosa e Heitor dos Prazeres

 

1937 – Mamãe eu quero – Vicente Paiva e Jararaca

Como vais você? – Ari Barroso

 

1938 foi de arrebentar:

Yes, nós temos bananas – João de Barro e Alberto Ribeiro

Touradas de Madri – João de Barro e Alberto Ribeiro

Pastorinhas – Noel Rosa e João de Barro

Camisa listada – Assis Valente

Não tenho lágrimas – Max Bulhões e Milton de Oliveira – “Quero chorar, não tenho lágrimas/ Que me rolem na face / Pra me socorrer”

 

1939 – A jardineira – Humberto Porto e Benedito Lacerda

Sei que é covardia – Ataulfo Alves e Claudionor Cruz – Sei que é covardia um homem chorar / por quem não lhe quer…”

1940 – Ó, seu Oscar – Ataulfo Alves e Wilson Batista

Cai, cai – Roberto Martins – quem não se lembra?: “Cai, cai, cai, cai / eu não vou te levantar/ Cai, cai, cai, cai / quem mandou escorregar…”

Mal-me-quer – Newton Teixeira e Cristóvão de AlencarEu perguntei aomalmequer / Se meu bem ainda me quer / E ele então me respondeu que não”…

 

1941 – Aurora – Roberto Roberti e Mário Lago

Alá-lá-ô – Nássara e Haroldo Lobo

O trem atrasou – Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho – “Patrão, o trem atrasou/ Por isso estou chegando agora / Trago aqui um memorando da Central / O trem atrasou, meia hora / O senhor não tem razão / Pra me mandar embora…”

 

1942 foi outro ano pra lá de bom:

Nega do cabelo duro – Rubens Soares e Davi Nasser

Ai, que saudades da Amélia – Ataulfo Alves e Mário Lago

Emília – Wilson Batista e Haroldo Lobo

Praça Onze – Erivelto Martins e Grande Otelo

Está chegando a hora (adaptação de Cielito lindo) – Henricão e Rubens Campos

 

1943 – Laurindo – Erivelto Martins

 

1944 – Atire a primeira pedra – Ataulfo Alves e Mário Lago

 

1945 – Isaura – Herivelto Martins e Roberto Roberti – “Ai, ai, ai, Izaura Hoje eu não posso ficar. Se eu cair nos seus braços. Não há despertador. Que me faça acordar. Eu vou trabalhar”…

 

1946 – Trabalhar, eu não – Almeidinha

 

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1947 – Pirata da perna de pau – João de Barro e Alberto Ribeiro

Palhaço – Benedito Lacerda e Herivelto Martins

Eu quero é rosetar – Haroldo Lobo e Milton de Oliveira – “Que me importa que a mula manque / Eu quero é rosetar”…

 

1948 – Não me diga adeus – Paquito, Luís Soberano e João Correia da Silva – “Não… não me diga adeus / Pense nos sofrimentos meus / Se alguém lhe dá conselhos / Pra você me abandonar… / Não devemos nos separar”…

 

1949 – Chiquita Bacana – João de Barro

Pedreiro Valdemar – Roberto Martins e Wilson Batista

Que samba bom – Geraldo Pereira e Arnaldo Passos – “Ô, que samba bom / Ô, que coisa louca / Eu também tô aí / Tô aí, que é que há / Também tô nessa boca”…

 

1950 – General da banda – Sátiro de Melo e José Alcides

A Lapa – Benedito Lacerda e Herivelto Martins

Nega maluca – Fernando Lobo e Evaldo Rui – “Tava jogando sinuca / Uma nega maluca / Me apareceu / Vinha com um filho no colo / E dizia pro povo
Que o filho era meu, não senhor / Tome que o filho é seu, não senhor”…

1951 – Tomara que chova – Paquito e Romeu Gentil – “Tomara que chova / três dias sem parar / A minha grande mágoa / é que lá em casa não tem água / nem pra eu me lavar”.

Zum-zum – Paulo Soledade e Fernando Lobo

Sereia de Copacabana – Nássara e Wiilson Batista

 

1952 – Que ano! Um baita carnaval:

Me deixa em paz – Monsueto e Airton Amorim

Sassaricando – Luís Antônio, Zé Mário e Oldemar Magalhães

Lata d’água – Luís Antônio e Jota Junior

Maria Candelária – Armando Cavalcanti e Clécius Caldas

Confete – Jota Júnior e Davi Nasser – “Confete / pedacinho colorido de saudade…”

 

1953 – Zé Marmita – Luís Antônio e Brasinha

Cachaça – Mirabeau, Lúcio de Castro e Heber Lobato – “Você pensa que cachaça é água?”…

 

1954 – Piada de salão – Klécius Caldas e Armando Cavalcanti

A fonte secou – Monsueto, Marcelino Ramos e Adolfo Macedo

Saca-rolha – Zé da Zilda, Zilda do Zé e Valdir Machado – “As águas vão rolar / Garrafa cheia eu não quero ver sobrar / Eu passo mão na saca saca saca rolha / E bebo até me afogar / Deixa as águas rolar”…

 

1955 – Mora na filosofia – Monsueto e Arnaldo Passos

Recordar – Aluísio Martins, Adolfo Macedo e Aldacir Louro – “Recordaré viver Eu ontem sonhei com você”…

Neste ano fez sucesso também uma música de que não me lembro o nome. É de Miguel Gustavo. Mas lembro-me de um pedaço da letra: Rio de Janeiro / cidade que me seduz / de dia falta água / de noite falta luz”…

 

1956 – Quem sabe, sabe – Joel de Almeida e Carvalhinho – “Quem sabe, sabe / conhece bem / como é gostoso / gostar de alguém”…

 

1957 – Evocação (frevo) – Nelson Ferreira

Vai, com jeito – João de Barros – “Vai, com jeito vai / senão um dia / a casa cai”…

 

Veja também:  Não basta ser obscuro, tem que louvar o obscurantismo

1958 – Madureira chorou – Carvalhinho e Júlio Monteiro

Eu chorarei amanhã – Raul Sampaio e Ivo Santos

 

1959 – Vai ver que é – Paulo Gracindo e Carvalhinho – “Se veste de baiana / pra fingir que é mulher / vai ver que é / vai ver que é”…

 

1960 – Me dá um dinheiro aí – Homero Ferreira, Ivan Ferreira e Glauco Ferreira

 

1961 – Índio quer apito – Haroldo Lobo e Milton de Oliveira

A lua é dos namorados – Armando Cavalcanti, Klécius Caldas e Brasinha

Quero morrer no carnaval – Luís Antônio e Eurico Campos

De lanterna na mão – José Sarcomani, Elzo Augusto e Jorge Martins

 

1962 – Se eu morrer amanhã – Garcia Júnior e Jorge Martins

Vou ter um troço – Arnô Provenzano, Otolindo Lopes e Jackon do Pandeiro – “Me segura que eu vou ter um troço…”

 

1963 – Eu agora sou feliz – Gato, Policarpo Costa e Jamelão

Pó de mico – Dora Lopes, Renato Augusto e Arildo se Souza

 

1964 – A cabeleira do Zezé – João Roberto Kelly e Roberto Faissal

Bigorrilho – Sebastião Gomes, Paquito e Romeu Gentil – “Lá em casa tinha um bigorrilho / bigorrilho fazia mingau / bigorrilho foi quem me ensinou / a tirar o cavaco do pau”…

 

1965 – Mulata iê-iê-iê – João Roberto Kelly

Trem das Onze – Adoniran Barbosa – Um marco: pela primeira (e única?) vez uma música paulista é campeã do carnaval carioca.

 

1966 – Tristeza – Haroldo Lobo e Niltinho

Roubaram a mulher do Rui – José Messias – “Ui, ui, ui / roubaram a mulher do Rui / disseram que fui eu / mas eu juro que não fui”.

 

1967 – Máscara Negra – Zé Kéti

Noite dos mascarados – Chico Buarque

Vem chegando a madrugada – Noel Rosa de Oliveira e Zuzuca –

 

Em 1968 e 69 nenhuma novidade no pedaço.

 

1970 – Bandeira branca – Max Nunes e Lércio Alves

Foi um rio que passou em minha vida – Paulinho da Viola

 

1971 – Pra frente, Brasil – Miguel Gustavo – Resquício da Copa de 1970.

 

1972 – Festa para um rei negro (pega no ganzê) – Zuzuca

Ê, baiana – Baianinho, Ênio Santos Ribeiro, Fabrício da Silva e Miguel Pancrácio

Chuva, suor e cerveja – Caetano Veloso

 

1973 – Ninguém tasca – Marinho da Muda e João Quadrado

 

1974 – O mundo melhor de Pixinguinha – Evaldo Gouveia, Jair Amorim e Velha (s.enredo)

Boi da cara preta – Zuzuca – Acredite! É essa mesmo: “Boi, boi, boi / boi da cara preta / pega essa criança / que tem medo de careta”…

 

Ah, tem uma que não me lembro o ano: Maria Sapatão. Só sei que não me lembro, nem descobri “fuçando” em livros e na internet, nenhum grande sucesso de carnaval, a não ser alguns sambas enredos. Pode ser que tenha outras que injustamente esqueci ou não descobri. Quem quiser, que pesquise mais, não é?


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