Blog do Mouzar

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16 de abril de 2020, 22h54

Como peixe no aquário

O Blog do Mouzar faz uma reflexão sobre isolamento: “Até mesmo eu me sinto privilegiado quando penso em favelas com um monte de gente apertada em barracos minúsculos”

Foto: Reprodução

Sabem aqueles aquários que parecem pequenos lustres em forma de globo? Nos desenhos animados havia muitos deles, com um peixinho dando voltas, sem opção, enquanto um gato espera a dona deles sair da sala para ter chance de mandá-lo para o papo.

Há muitos anos li uma matéria de uma especialista em psicologia animal, se não me engano, que dizia que peixe num aquariozinho desses fica neurótico. Achei estranho existir gente estudando isso. Não sei se peixe tem neurose, mas concordei que era mesmo uma coisa muito cruel, enlouquecedora. O bichinho fica circulando ali, no espaço minúsculo, sem alternativa.

Hoje me senti um peixinho desses e, enquanto girava neuroticamente num espaço minúsculo, fui me lembrando de várias coisas.

Comecei a lembrança por um juiz do Ceará que cometeu um crime e foi condenado à prisão domiciliar. Aí vi o que era essa prisão: uma casa enorme, dentro de um terreno com meio quarteirão, com quadra de esportes, piscina grande, churrasqueira e muito mais.

Mais recentemente, alguns outros muito ricos foram condenados à prisão em condições semelhantes. Que tamanho tem a casa de Paulo Maluf e o terreno no entorno dela, por exemplo? E o que tem para ele fazer em casa e no terreno? Falo dele, mas há vários outros presos em condições semelhantes ou até melhores, alguns em fazendas, com uma porrada de hectares para circular nessa prisão.

Um dia falei pra Célia, minha mulher: se algum dia for condenado à prisão domiciliar vou reivindicar ao juiz que a pracinha em frente ao prédio em que moramos faça parte do nosso domicílio também.

Moro num apartamento do BNH, com 43 metros quadrados. Ficar preso dentro dele é tão justo como num casarão com jardins, hortas e outras mordomias, ou numa fazenda?

Pois é. Sempre usei a praça como lugar de me exercitar e tomar sol. Ela tem uma quadra de esportes, gramado, um parquinho infantil e uma parte cheia de árvores. E uma trilha para caminhar.

Agora, na prisão domiciliar (necessária – não questiono), representada pela quarentena, do portão do prédio vejo a praça praticamente vazia. Uma ou outra pessoa se exercita na quadra, uns passeiam com cachorros, mas quase nunca simultaneamente.

Eu poderia continuar fazendo minhas caminhadas nela, tomando todos os cuidados. Mas se fizer isso, tenho que ficar brigando com os caras que passam de carro e gritam “vai pra casa, tio”. Aí, posso até fazer algumas atividades físicas, mas perco o humor. Ou, quem sabe, pode parar um carro de polícia e querer me forçar entrar no prédio ou, ainda, me prender.

Então… no prédio, tem um pequeno espaço entre a porta e a calçada e, ao seu lado, uma área cimentada que dá acesso às garagens. Nesses dois espaços, bate sol.

Hoje, levei um banquinho para baixo, li um trecho de um livro e depois fiquei caminhando e tomando sol como um peixinho desses.

Outra coisa que me lembrei foi do tempo em que visitava presos políticos no Rio e em São Paulo, em 1978 e 79, quando passaram a permitir que amigos dos presos os visitassem – mas visitar presos políticos rendia suspeitas nos órgãos de investigação, inclusive no hoje chamado Ministério da Defesa. Quando se instituiu o habeas data, que é o direito de sabermos o que há de registro sobre nós (a nossa “ficha” policial) nos órgãos policiais e de “inteligência”, pedi, por curiosidade, o meu no arquivo público estadual de São Paulo (que contém os registros do antigo Dops) e no Ministério. Neste último, uma das coisas que constavam na minha ficha policial era “visitava presos políticos”, como algo muito grave.

E o peixinho no aquário me voltou à cabeça por causa do presídio localizado na rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. No Barro Branco, em São Paulo, tinha um pátio razoável para os presos tomarem sol, mas no Frei Caneca os presos políticos só tinham para tomar sol um pátio muito pequeno, com uns 12 ou 13 metros de comprimento por sete ou oito de largura.

Para manter a saúde física e mental, os presos caminhavam nesse pequeno espaço como peixinhos no aquário. Mas, como seres racionais, aproveitavam essa possibilidade como podiam: andavam em duplas, conversando, discutindo seja lá o que fosse. Exercitavam o cérebro com isso.

No meu aquário, não converso com ninguém. Mesmo que tivesse outro “peixinho” caminhando, teríamos que manter distância.

Da minha janela, no apartamento de fundos, vejo prédios de milionários, com apartamentos de mais de duzentos metros quadrados, às vezes bem mais, em prédios de luxo na rua que faz divisa com o conjunto do BNH e à noite reparo que quase nenhum tem luz acesa. Sinal que, além desses apartamentos, muitos estão em prisão domiciliar, digo, quarentena, em sítios chácaras, fazendas ou casas de praia. Se eu tivesse um sítio, logicamente gostaria de ir para ele em vez de me manter nos 43 metros quadrados do apartamento.

O que me angustia não é que façam isso, é a diferença entre eles e uma grande maioria que vive em condições precárias. Até mesmo eu me sinto privilegiado quando penso em favelas com um monte de gente apertada em barracos minúsculos. Esses, sim, sem ter para onde ir. E muitos sem ter acesso, sequer, à comida e remédios. Têm uma “prisão domiciliar” bem pior e correm riscos bem maiores.

Precisava ser assim?

Eu, peixinho no aquário tipo lustre em forma de globo, fico ruminando isso – e olha que peixe não é ruminante. 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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