Blog do Mouzar

08 de setembro de 2019, 13h35

Damares: as mães de Hemingway e Roosevelt tentaram “engayzar” os filhos?

São tantas as trapalhadas, propostas bestas e declarações mais bestas ainda do presidente e de alguns ministros, como o da falta de educação e do sem ambiente, que Damares Alves parece café pequeno. Mas eu me lembrei dela ao ler umas coisas sobre mães que ela consideraria desnaturadas

Damares, Bolsonaro e Michelle (Divulgação/PR)

A ministra da mulher, da família e dos direitos humanos (tudo com minúsculas mesmo, para combinar com sua atuação) anda fora do noticiário, não se fala mais de seus (pre)conceitos, suas propostas e decisões fanáticas. São tantas as trapalhadas, propostas bestas e declarações mais bestas ainda do presidente e de alguns ministros, como o da falta de educação e do sem ambiente, que Damares Alves parece café pequeno. Mas eu me lembrei dela ao ler umas coisas sobre mães que ela consideraria desnaturadas… Bom vejam isso nas notas depois de umas considerações sobre os bolsonaristas.

Algumas frases que podem bem caracterizar a credulidade (ainda que falsa, forçada) deles.

Vejam se não parecem ter sido criadas para referir-se a eles repetindo o que dizem o presidente, seus filhos e ideólogos:

Aceita como evangelho…

Acredita em estórias da carochinha.

Jura na fé dos padrinhos.

Não liga duas ideias.

Não vê um palmo diante do nariz.

Necessita de tutela.

Não quer ver o verso da medalha.

Engole patranhas.

Acredita em contos de velhas.

Compra gato por lebre.

Espera por sapatos de defunto.

Toma como certo tudo o que ouve.

Dá o ser a bagatelas e nonadas.

Deixa-se levar.

Vê as coisas com os olhos da fé.

Crê piamente, sem exame nem reflexão.

Não precisa de provas para crer.

Emprenha-se pelos ouvidos.

Toma a sombra pela substância.

Toma a nuvem por Juno.

Assim, batem no peito repetindo: as ONGs é que estão queimando a Amazônia. O nazismo era de esquerda. Se Haddad tivesse ganhado a eleição, ia distribuir às crianças mamadeiras com chupeta em forma de piroca. Flávio Bolsonaro não tem nada a ver com o que fez o seu assessor Queiroz. A esquerda é que queria acabar com a Lava Jato. Não há aparelhamento nos órgãos do governo. Não há censura nas atividades culturais. Com Bolsonaro presidente, acabou o toma-lá dá-cá para conseguir votos do Congresso. Sem contar que a Terra é plana e está no centro do Universo, com todas os astros girando em torno dela.

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Bom, vamos às coisas que se referem ao título que coloquei lá no alto.

Quando o escritor Ernest Hemingway nasceu, sua mãe esperava uma menina para fazer companhia à filha mais velha, Marceline. Ela não se conformou: vestia roupas femininas no escritor e o tratava às vezes como filha, chamava-o de Ernestine. O que diria sobre isso a ministra Damares, autora da determinação “menina veste rosa e menino veste azul?”. Talvez se preocupasse se os vestidinhos dele eram rosa ou azuis.

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Mas o “mau exemplo” não se restringe à mãe de Hemingway. Numa foto de 1884, o menino de dois anos e meio, Franklin Delano Roosevelt, que se tornaria presidente dos Estados Unidos de 1933 a 1945 (teve mais de dois mandatos por causa da guerra), aparece de vestidinho branco e cabelos compridos, todo frufru, com um chapéu de plumas na mão.

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Afora esse negócio de menino usar vestidinho, a história de menino veste azul e menina veste rosa só começou a virar moda nos anos 1940, por determinação da indústria têxtil. Aliás, “antigamente” as roupinhas de crianças não eram coloridas, pois as tinturas custavam caro, então roupa de criança era branca. No início do século XX, havia dúvida sobre a que gênero (epa! palavra amaldiçoada, né?) se destinava cada cor. Em 1918, a revista gringa Earnshaw Infant’s, recomendava aos meninos roupas rosa (cor “mais forte e decidida”) e azul para meninas (cor “mais delicada e amável”). Em 1927, a revista Time fez uma matéria sobre o assunto e constatou que em três redes de lojas de roupas infantis recomendavam rosa para os meninos e azul para meninas; outras três recomendavam azul para meninos e rosa para meninas, e uma recomendava rosa para todas as crianças, sem distinção de sexo.

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Dona Damares deve achar também que quem está de luto e não veste roupa preta é mancomunado com o demônio. Mas o preto, como luto, só vale em países de religião cristã, coisa herdada dos romanos, que por sua vez herdaram dos egípcios. Na China e no Japão, branca é a cor do luto; na África do Sul, o luto é vermelho; na Tailândia, é o roxo; e no Irã, o azul.

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Chega de damarismos. Vamos variar um pouco…

O ministro do sem ambiente do governo Bolsonaro deve ficar cheio de raiva quando se lembra disso: o Brasil abriga a maior biodiversidade do mundo. Em dois dos seus nove biomas, abriga cerca de 55 mil espécies vegetais (22% do encontrado no mundo). Tem também a maior fauna: 524 espécies de mamíferos, mais de três mil de peixes de água doce, 1.600 de aves e milhões de insetos. Esses números não são exatos, pois regularmente cientistas descobrem novos exemplares. Os biomas brasileiros com maior número de espécies animais e vegetais são a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, mas o Cerrado não fica muito atrás. Vamos ver quantas espécies sobreviverão… E cientistas também.

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Na contramão do bolsonarismo: Viriato Soromenha Marques, no Dia Mundial do Meio Ambiente, em matéria publicada no Jornal de Lisboa, há quase 30 anos: “Quando se pensa no futuro não restam grandes alternativas. As duas grandes questões passam forçosamente pela defesa do ambiente e pela reconstrução da paz a um nível planetário (…). A grande política do futuro já não passa pelos cálculos dos egoísmos estratégicos, mas pela sábia e solidária habitação da terra”. Sábia e solidária…

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“Dia Nacional do Aposentado e da Previdência Social”… Acreditem, existe, é comemorado em 24 de janeiro. Mas com a reforma da Previdência de Guedes-Bolsonaro-Patrões, provavelmente vai passar a ser o dia da fantasia, dia de coisas que não existem mais. A escolha de 24 de janeiro foi porque nessa data, em 1923, o presidente Artur Bernardes sancionou projeto de lei do deputado Elói Chaves que criava uma caixa de aposentadoria e pensões para empregados das estradas de ferro, considerada a primeira lei brasileira de previdência social.

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Falei da credulidade de certas pessoas. Credulidade pode aparecer como sinônimo de ingenuidade, e ser ingênuo não é necessariamente um “defeito”. Em alguns casos, vale até como elogio. Vejo com muito carinho alguns sinônimos de ingênuo: cândido, puro, singelo, pueril, simples, lhano…

Mas há outro tipo de ingênuo (“ingênuo”, eu diria, pois só são ingênuos quando lhes convém), para quem os adjetivos são bem diferentes: crendeiro, trouxa, tolo, bonacheirão papalvo, pacóvio, papalvo, simplacheirão, bobo alegre, babaquara, patureba, tacanho, estulto, pomboca, iludido, tonto, otário, chapetão, curto, pateta, desinformado, desalumiado, curto, parvalhão, abobalhado, basbaque, ignaro, soronga, obstúpido…

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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