Blog do Mouzar

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15 de janeiro de 2020, 22h50

Democracia em Vertigem: uma história de longa data

Mouzar Benedito: "Para mim, o sucesso do filme tem um significado mais especial ainda: é que eu conheço a Petra desde quando ela tinha uns cinco anos de idade e brincava de ser jornalista na redação da Gazeta de Pinheiros, um dos jornais em que eu mais gostei de trabalhar"

Petra Costa (Foto: Diego Bresani)

Tenho acompanhado com muito interesse a repercussão da lista de finalistas do prêmio Oscar de cinema deste ano, por causa da inclusão do filme “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, na categoria documentários.

Apesar de a gente torcer o nariz para o Oscar, na hora H a gostamos de ver um filme brasileiro com chance de ganhar a estatueta.

E neste caso, tem alguma coisa a mais: “Democracia em Vertigem” tem o mérito de mostrar ao mundo inteiro como a direita, aliada a falsos democratas, deu um golpe no Brasil.

É interessante ver como esse pessoal, que promoveu o impeachment de Dilma Rousseff, se refere ao filme e à própria Academia de Cinema de Hollywood. Babam de raiva. Para eles, agora, aqueles gringos são um bando de comunistas.

Para mim, o sucesso do filme, tem um significado mais especial ainda: é que eu conheço a Petra desde quando ela tinha uns cinco anos de idade e brincava de ser jornalista na redação da Gazeta de Pinheiros, um dos jornais em que eu mais gostei de trabalhar.

Criada na década de 1950, a Gazeta de Pinheiros era um típico jornal de bairro, e no final dos anos 1980 foi comprado pela Marília Andrade, mãe da Petra, e o irmão dela, Flávio.

Muitos bons jornalistas e colunistas foram contratados e ela começou a crescer em qualidade e quantidade.

Praticamente toda a esquerda de São Paulo lia a Gazeta de Pinheiros. E a Petra brincava no meio daquela turma toda.

Quando comecei a trabalhar lá, em 1988, tratávamos até de política internacional, com uma visão crítica que não havia nos grandes jornais diários.

A Perestroika e a Glasnost na União Soviética; as eleições presidenciais na França, em que os avanços da era do socialista Miterrand eram ameaçados pela direita, e isso poderia causar grandes estragos não só lá; as manifestações na Praça da Paz Celestial na China…

E fazíamos também matérias sobre a cidade de São Paulo com tanta qualidade que regularmente essas matérias eram discutidas na Câmara de Vereadores.

Costumo dizer que, se algum historiador do futuro pegar os anais da Câmara de Vereadores paulistana entre 1988 e 91 ou 92 vai achar que a Gazeta de Pinheiros era o principal jornal de São Paulo na época.

Em 1988 foi o único jornal importante de São Paulo a apoiar Erundina para prefeita, abertamente, sem fingir imparcialidade. E nas eleições presidenciais de 1989, foi o único a apoiar o Lula contra o Collor.

Eu me lembro que fui cobrir um debate entre os candidatos a presidente, no primeiro turno, no SBT, um jornalista – não me lembro se do Estadão ou da Folha – me falou: “O que vocês estão fazendo na Gazeta não é jornalismo, apoiam o Lula abertamente”.

Ele era encarregado de cobrir tudo o que o Collor fazia, e suas matérias eram sempre favoráveis a candidato, mas num tom que fingia imparcialidade, como faziam os grandes jornais. Perguntei se ele era eleitor do Collor, reagiu quase bravo: “Não, de jeito nenhum”, disse que votaria na esquerda.

Aí falei: “Então, eu sou a favor do Lula, faço matéria a favor dele, deixando clara a minha posição e a do jornal, e você diz que é contra o Collor mas finge imparcialidade e faz matérias a favor dele, e vem me dizer que ‘nós’ da Gazeta é que não estamos fazendo jornalismo?”… Não xinguei. Nem precisava.

Uma vez pensei que os leitores antigos, acostumados a ler amenidades na Gazeta, uma condescendência com os políticos do poder e nada de crítica, deveriam estar odiando o jornal que se tornou de esquerda e com uma cobertura ampla de assuntos nacionais, internacionais e sem puxar o saco de governantes.

E me propus a fazer uma matéria grande, provavelmente de capa, com esses leitores (que deveriam ser “ex”) falando mal do jornal. O Flávio topou: “Pode fazer”.

Peguei com os entregadores uma lista dos leitores mais antigos e fui às casas deles, de uma em uma, perguntando o que estavam achando do jornal.

E me surpreendi. Diziam coisas mais ou menos assim: “A gente vê notícia da Perestroika na Rússia, da eleição na França, e não entende nada. Aí lê a Gazeta e entende tudo”. Minha matéria furou.

Entre os colunistas havia Carlito Maia (também frasista em uma seção de notas), Marcelo Rubens Paiva também foi uma época, Fernando Perrone… E eu fui incluído nessa turma, sem tanto merecimento.

Bom, gostaria de contar um monte de coisas, mas me limito a algumas poucas.

Uma marca do jornal era que, apesar de tratar de assuntos sérios, não era careta. As frases de Carlito Maia, por exemplo, eram sempre bem-humoradas e provocadoras. Lembro que uma época o político Newton Cardoso (que era do PMDB mas não era melhor do que os do PDS, ex-Arena), governador de Minas que tinha fama de ser meio burro, virou assunto, só não me lembro porquê. Carlito Maia fez uma frase para ele: “Newton Cardoso? Ele foi à Bolívia buscar coca e voltou com Pepsi”. Num Dia das Mães, sapecou: “Quem tem mãe não sabe o que está perdendo”.

Grande parte dos editores de jornais e revistas de São Paulo lia a Gazeta, e eu brincava de “pautar” esses jornais e revistas. Pensava num assunto e fazia uma matéria, e logo em seguida jornais e revistas faziam matérias semelhantes. Quando Collor aparecia como “caçador de marajás” em Alagoas, conversei com um jornalista de lá, dirigente sindical, ele estava indignado por acreditarem nisso, aqui e no Rio. Propus fazermos uma matéria contando a verdade e disse que depois disso jornais daqui mandariam repórteres para lá, pra fazer matérias mais verdadeiras. Publicamos uma página, assinada por ele e por mim, num sábado, e na segunda-feira ele me ligou: “Você tinha razão, chegaram hoje aqui um repórter do Estadão e um da Folha, os dois com a Gazeta de baixo do braço”. Um desses dois era o José Roberto Alencar, repórter dos bons, correto e competente.

Nas eleições municipais de 1988, apoiávamos Erundina desde o começo (ela foi escolhida candidata contra a vontade de Lula e Zé Dirceu, que preferiam o Plínio Sampaio, e não fizeram campanha para ela). Faltando um mês para a eleição (que era em um turno só), Maluf estava com 24% das intenções de voto, João Leiva com 14% e Erundina com 6%. Parecia que ela não tinha chances. Mas continuamos firmes, fiz uma entrevista longa com ela e sugeri: “Quando você for eleita, volta aqui antes de tomar posse?”. Eu não acreditava que ela ganharia, e acho que ela também não, mas ganhou, e no dia 30 de dezembro entrou na redação gritando: “Oi, Mouzar, ói eu aqui. Prometi que vinha e vim mesmo”.

Erundina, Mouzar e Flavio na Gazeta de Pinheiros (Arquivo Pessoal)

Só que teve um problema no governo dela: os responsáveis pela área de comunicação do seu governo anunciavam na Folha e no Estadão, que faziam uma campanha bem tendenciosa contra a prefeita, distorcendo tudo o que ela falava e fazia, e não punham nenhum anúncio na Gazeta, para mostrar que não eram tendenciosos. As empresas, dirigidas por direitistas, cortaram todos os anúncios na Gazeta, e assim ela foi sendo estrangulada economicamente, aos poucos, até ser vendida para um grupo ao qual ela pertence hoje e voltou a ser inexpressiva. De duas edições semanais com tiragem de 75 mil exemplares, baixou para uma com tiragem de 3 mil.

Termino com uma historinha gozadora que rolava na redação e que divertia o próprio Flávio.

Segundo diziam, o pai dele, muito rico, veio visitar o filho que morava no Alto dos Pinheiros e uma manhã falou pro filho: “Vou à padaria. Quer alguma coisa da rua?”.

O Flávio teria dito: “Compra um jornal pra mim”.

Umas horas depois o velho chegou de volta e falou pro filho: “Comprei a Gazeta de Pinheiros, tá bom?”.

Bem… Essas lembranças todas têm como causa o sucesso do filme da Petra, a menininha que brincava de ser jornalista. Acabou não sendo, mas virou uma grande cineasta. Parabéns.

 

 

 

 


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