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31 de março de 2018, 12h19

Desmanchando o prazer dos spoilers

Gringófilo sempre acha uma desculpa para preferir uma palavra em inglês

Spoiler!

Li essa palavra numa matéria de jornal e nem liguei, passei por cima sem nem querer saber o que significava. Pensei: é coisa de algum desses gringófilos bestas, que não perdem a chance de falar uma palavra em inglês, mesmo tendo equivalentes em português.

Sim, é do tipo que não apaga, deleta. Não atualiza, faz um up-grade. Não tem bicicleta, tem bike. Faz bullying ou reclama que os outros fazem, e não tem animal de estimação, tem pet. Não vai a loja que oferece 50% de desconto, vai na que tem placa “50% off”.

Bem… Ia deixar por isso mesmo, mas mais uma vez aparece o tal spoiler. E outra, e outra… Convenço-me a procurar saber que diabo é isso. Nada mais do que um desmancha-prazeres, alguém que estraga a surpresa, como quem conta o final do filme a alguém que está entrando no cinema, a pessoa que te conta como termina o romance que você está lendo, ou jornalista que faz matéria revelando o fim de uma novela antes que ela acabe…

Gringófilo sempre acha uma desculpa para preferir uma palavra em inglês. Hoje em dia tem demais gente assim, mas isso não é de hoje. Eram poucos, mas existiam. Até gente próxima. Só que agora é uma avalanche.

Uma das primeiras vezes que me irritei com uma pessoa por exagerar nisso de usar palavras em inglês sem necessidade já faz uns trinta anos ou mais. Uma moça usava a palavra insight direto. “Eu tive um insight”, o fulano “teve um insight”. Até um ponto em que não aguentei: “Olha, sempre que nós temos uma luz repentina numa questão, uma solução que pinta de repente na cabeça da gente, dizemos ‘me deu um estalo’, essa palavra insight é totalmente desnecessária”.

Ela não se convenceu, disse que era diferente. Insight tinha um “algo mais”. Não tinha. Era a mesma coisa. Mas ela venceu: hoje em dia insight consta até nos dicionários de português.

Outras palavras desnecessárias vão entrando no linguajar dos brasileiros. Uma delas é sniper. Antes, falava-se atirador de elite. Por que falar isso se o sujeito pode exibir seu inglês? Então é sniper.

Outra palavra que me irrita é hipster. Bairro hipster, gente hipster… Tem gente que não perde a oportunidade de falar essa palavra besta. Vejo muito em textos, mas se alguém pronunciar isso perto de mim, traduzo: “Ah, você está falando de gente fresca e de bairro fresco?”.

E os canais de televisão por assinatura? HBO, eu pronuncio agá-bê-ó, mas quase todo mundo fala como se estive na gringolândia: eige-bi-ôu. Não é de estranhar: o programa CSI não é ce-esse-i: é ci-és-ai. CIA, a famigerada CIA, para eles é ci-ai-ei, assim como FBI é ef-bi-ai.

Essa trolha atinge até morador de periferia. Uma vez, em um bairro paulistano perto de Osasco, eu estava num bar e um rapazinho com aparência de pobre pediu ao balconista um “pão com egg”. O balconista não entendia, ele repetia, o balconista continuava não entendendo, até que por fim explodiu: “Egg, seu bobo. Não sabe o que é? É ovo. Quero um pão com ovo”.

As mais novas bobagens que ouvi foi de donos de cachorros… epa! Pets!

Eu já achava esquisito alguém contratar um “passeador de cachorro” e recentemente vi uma matéria de televisão em que disseram que não se pode mais falar assim. O sujeito contratado é um “dog walker”. Ah, e uma proprietária de um cachorro um tanto comum não admitia que seu “pet” fosse chamado de vira-lata. Disse brava: “É SRD”. E depois de alguém pedir insistentemente que o significado dessa sigla, falou: “Sem Raça Definida”.

Aí eu me lembrei de um amigo que mora na Vila Mariana, em São Paulo. Quando se mudou para lá, ele me dizia que as vizinhas não o cumprimentavam. Quando esperava elevador e aparecia uma delas, ele falava o tradicional “bom-dia” e elas não respondiam, muitas vezes olhavam feio, como se estivessem sendo ofendidas por ele.

Depois de uns anos vivendo como um transparente, ele ganhou um filhote de vira-lata, criou e agora, quando sai para passear com ele as mesmas vizinhas o olham com simpatia, cumprimentam, se enchem de sorrisos e assuntos.

Algumas perguntam de que raça é o seu cachorro, e ele responde: “PSVL”. Elas acham que deve ser uma raça europeia. Só uma perguntou o que significa isso, e ele respondeu: “PSVL é puro-sangue vira-lata”.

 


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