Blog do Mouzar

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24 de junho de 2016, 11h50

Faíscas verbais

Acabei de ler o livro “Faíscas verbais: a genialidade na ponta da língua”, do Márcio Bueno, um jornalista apaixonado pelas palavras, que por sinal já publicou um outro livro muito interessante, “A origem curiosa das palavras”. Ah, além disso ele é meu amigo e quase conterrâneo. Nasceu em Muzambinho, cidade mineira vizinha a Nova Resende. E uns tios dele, de outra cidade próxima, Juruaia, têm uma qualidade que gosto: fabricam pinga.

Em “Faíscas verbais”, ele fala de grandes sacadas de um bando de gente, ao dar repostas a alguma pergunta besta ou simplesmente ao comentar alguma situação.

Segundo o Márcio, “muitos são capazes de dar laço no vento, nó em pingo d’água e, se cair um raio, antes de escaparem ilesos, ainda aproveitam a oportunidade para acender o cigarro”.

São políticos, artistas, boêmios, cientistas, intelectuais, comunicadores, esportistas, militares, economistas e outros grandes sacadores, brasileiros e estrangeiros. Vou dar uma amostra dessas tiradas aqui. Só uma amostra, do que contém nas quase 200 páginas. E vou me restringir aos brasileiros.

Começo com Roberto Requião, senador pelo PMDB do Paraná. Perto do ano 2000, transitava no Congresso um projeto que previa a extinção dos manicômios no Brasil, e um repórter perguntou se ele apoiaria esse projeto.

Requião deu uma resposta surpreendente: “Sou favorável aos hospícios abertos. Vejam só o Senado: eu melhorei, o Pedro Simon está mais calmo e Cunha Lima já não atira em mais ninguém”. Para quem não sabe, Cunha Lima, quando governador da Paraíba, viu um desafeto dele num restaurante, foi lá e encheu o cara de balas.

Na Constituinte de 1946, o deputado Tenório Cavalcanti fazia um longo discurso para um plenário vazio e disse: “Neste momento em que falo, a cada minuto morre uma criança de fome no Brasil”. O deputado Dirceu Cardoso, do Espírito Santo, pegou o microfone de apartes e gritou: “Então, pelo amor de Deus, deputado, pare de falar”.

Eu fico admirado ao ver políticos nem ligarem para o que falam de mal deles, e no livro do Márcio vi como isso funciona: Eurico Dutra, candidato a presidente em 1946 e disse ao deputado Israel Pinheiro que estava muito aborrecido com os ataques que sofria da imprensa. Israel Pinheiros pediu calma e falou: “General, não se perturbe. Ataque da imprensa é como sol de praia nas férias. A pele arde nos primeiros dias, mas depois se acostuma”.

Jânio Quadros era um político com atitudes que pareciam malucas. Sobre ele, disse Carlos Lacerda: “Jânio é um louco que se julga Jânio Quadros”. Já o Barão de Itararé, humorista, disse sobre ele: “Cada Jânio com sua mania”.

Quando assumiu a presidência da República, Jânio surpreendeu escolhendo para seu ministério alguns dos seus inimigos. Perguntaram a ele porque fez isso, e ele respondeu: “Porque pra uma boa horta ou um belo jardim é fundamental bom esterco”.

Uma vez correu um boato de que Getúlio Vargas, então ditador, tinha um romance com Adalgisa Nery, que era casada com Lourival Pontes, chefe da censura federal, e estava apaixonado por ela. Um irmão do Getúlio disse para ele tomar cuidado, que isso era muito perigoso. O ditador falou calmamente: “Bobagem, isso é fanfarronice do Lourival. Ele é que espalha para se gabar”.

Num debate de candidatos à Presidência da República, Paulo Maluf martelava para o eleitorado, dizendo que era muito competente. Na vez de Lula falar, ele sapecou: “Concordo plenamente com o Maluf quando ele diz que é competente… Ele compete, compete, compete, e nunca ganha”.

Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais, viajava de avião, o voo ficou muito turbulento, a aeromoça perguntou a Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais: “Está sentindo falta de ar?”. Ele respondeu: “Não, estou sentindo falta de terra”.

Quando eleito governador de Minas, Tancredo Neves era assediado por um monte de políticos que queriam se tornar secretário de qualquer coisa no seu governo. Muitos plantavam notas nos jornais, dizendo que tinham sido sondados. Um deles disse a Tancredo que corria um boato insistente de que ele seria secretário, e era parado a todo momento na rua por amigos, parentes e jornalistas que perguntavam se era verdade. Tancredo respondeu: “Da próxima vez que te perguntarem, pode confirmar. Diga que eu o convidei”… O deputado foi ficando todo feliz, mas ele acrescentou: “Mas não se esqueça de informar também que você não aceitou”.

Duas socialites se aproximaram do paisagista Roberto Burle Marx, numa reunião social, e começaram a falar dos gostos musicais das suas plantas. Uma dizia, de modo afetado, que suas plantas adoram ópera, desde que não sejam italianas. A outra disse que as suas tinham preferiam Brahms. E perguntou em seguida: “E as suas, Robertos, o que preferem?”. A resposta dele foi: “Preferem bosta, madame. Muita bosta”.

Numa cena do filme Vento Forte, sobre a vida de Edu Lobo, com a participação de Chico Buarque, alguém comentou: “Dizem que vocês dois são a dupla Pelé-Coutinho, da Música Popular Brasileira. Chico Buarque virou-se para Edu Lobo e perguntou: “Você acha, Coutinho?”.

Um amigo de Ary Barroso insistia que ele devia parar de beber. Um dia, disse que o único indivíduo que se beneficia do álcool é o dono do bar, que enche as burras de dinheiro. Ary deu uma talagada e respondeu: “Vou aceitar o seu conselho”. “Vai largar de beber?”. “Não. Vou ser dono de um bar”.

No final de uma entrevista, perguntaram a Tim Maia que planos ele tinha para o futuro. Ele respondeu e gargalhou em seguida: “Comprar uma bunda nova, porque a que eu tenho está rachada”.

Vinícius de Moraes gostava de uísque e defendeu o hábito de beber: “Nunca fiz amizade tomando leite”.

Um dia, num bonde, duas mulheres gordas entraram, sentaram num banco, que começa a ranger com o peso delas. O escritor Emílio de Meneses estava no bonde, deu uma gargalhada e disse a um amigo: “Pelo jeito, vai ser a primeira vez que um banco quebra por excesso de fundos”.

Um dia, uma mulher abordou o jornalista e compositor Antônio Maria, dizendo: “Moço, preciso muito da sua ajuda. Sou da Campanha contra o Câncer”. Ele se livrou dela dizendo: “Pois eu sou a favor”.

O jornalista José Hamilton Ribeiro perdeu parte de uma perna quando cobria a Guerra do Vietnã. Uma jornalista inconveniente numa entrevista na TV, perguntou se não era muito difícil ser repórter com uma perna só. Resposta: “Ser repórter com uma perna só é mais difícil do que com duas. Mas é mais fácil do que com quatro”.

Uma vez perguntaram ao jornalista João Saldanha porque ele saiu do PCB. A resposta: “Por que eu saí é muito fácil de entender. O que eu tenho dificuldade de explicar é por que eu entrei”.

Na década de 1960 foram dados muitos golpes de Estado e implantação de ditaduras, na América Latina, com apoio das embaixadas dos Estados Unidos. Num debate com estudantes, perguntaram ao jornalista Joel Silveira porque não havia golpe de Estado nos Estados Unidos. E disse Joel: “É porque lá não existe embaixada americana”.

Contam que uma vez fez-se uma fila diante de Romário, de fãs querendo seu autógrafo. Chegou a vez de um jovem todo fortão, Romário começou a escrever a dedicatória e perguntou o nome dele. “Washington”, respondeu o fã. O jogador ficou com a caneta no ar, pensando como se escrevia o nome do rapaz. “Tem apelido, amigo?”, perguntou. O cara respondeu. “Tenho. É Schwarzenegger”.

Bom, aí foi uma amostra da obra do Márcio. Há grandes sacadas de um montão de gente. Por exemplo: Churchill, Einstein,  Hemingway, Gore Vidal, Nelson Rodrigues, Rui Barbosa, Tinhorão, Garrincha, Caymmi, Capanema, José Mujica, Rubem Braga, Truman Capote, Joel Silveira… Vale conferir. Quem quiser comprvar, que o compre, né? A editora é a Gutenberg.

 


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