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Michelle Bolsonaro e a língua dos anjos – Por Mouzar Benedito

Ao ver a cena protagonizada pela primeira-dama, Mouzar Benedito relembrou de trecho de um romance seu intitulado "Pobres, porém perversos", que trata sobre a "língua dos anjos"; confira

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Comemorando a aprovação do “terrivelmente evangélico” André Mendonça para o STF, Michelle Bolsonaro, deu pulinhos ao som de “glória a Deus” e “Aleluia”, e falou umas palavras ininteligíveis.

Segundo os evangélicos pentecostais, quando uma pessoa está tomada de emoção muito forte e sente a presença do Espírito Santo, tem o dom de falar línguas estranhas, desconhecidas. Tem uma palavra que eu não conhecia para identificar situações como essa: glossofalia. Fiquei sabendo depois do episódio da primeira-dama.

Acredito em muitos fenômenos psíquicos inexplicáveis. E sobre isso de falar línguas diferentes da sua, sem estudá-la nem ter contato com ela, lembro-me de um amigo cuja avó, com Alzheimer, destampou a falar em espanhol. Não tinha origem espanhola, morava no interior paulista num lugar em que nunca apareceu ninguém falando espanhol… Estranho, né?

Então, repito, não duvido de fenômenos que classifico como psíquicos mesmo, mas não duvido também de que possam aproveitar a crença nisso para outros fins.  E me lembrei de um trecho do meu romance “Pobres, porém perversos”, escrito em 1991 e publicado um pouco depois, em que conto um episódio real que me foi passado por um amigo morador da Zona Leste paulistana.

Aí vai ele:   

Comentávamos a onda de misticismo que invadiu a USP depois do Ato Institucional nº 5. Muita gente fazia questão de se mostrar despolitizada, houve uma onda de adesões a religiões orientais e africanas. Maurinho disse que tinha sido muito religioso, sua família era toda evangélica. Já tinha passado por várias seitas fanáticas.

— Quando eu era criança, meu apelido era pastorzinho — lembrou. — Usava roupas sóbrias e sempre andava com o Novo Testamento debaixo do braço.

Segundo disse, passava a semana toda torcendo para ter uma dor de cabeça. Tomaria um comprimido e depois ficaria lendo passagens da Bíblia. Assim teria o que falar na igreja domingo, quando o pastor deixasse que cada um contasse uma graça alcançada. “Estava com dor de cabeça…”, contaria ele omitindo que tomou o comprimido. A cura seria uma graça recebida ao ler a Bíblia.

Mas começou a desconfiar que alguma coisa não estava certa quando pensou sobre os espetáculos que um pastor e um ajudante promoviam às vezes, durante o culto, conversando “na língua dos anjos”. O pastor tinha uma rede de informantes que o deixava sabendo de tudo que se passava entre os seus fiéis. Quando ficava sabendo que alguma “irmã” trepava com alguém que não fosse seu marido, por exemplo, expunha publicamente o acontecimento, durante o culto, para demonstrar poder. Os “anjos” lhe contavam tudo.

A encenação começava com o ajudante de pastor subindo ao púlpito, ao lado dele. Aí o pastor se concentrava, de repente esbugalhava os olhos, parecendo tomado por algum espírito, e gritava:

— Silibian balabalai.

Pronto! Era um anjo que o tinha “tomado”, e ele começava a falar na tal língua dos anjos. O início era sempre com essas palavras, silibian balabalai.

O pastor seguia falando palavras desconhecidas, sem significado nenhum — era a língua dos anjos — e o ajudante ia traduzindo:

— Irmãos, o anjo que tomou o corpo do pastor está dizendo que a irmã Margarida prevaricou com o irmão Sebastião.

Em seguida, sempre, a mulher tomada de surpresa caía em prantos, denunciada pelo “anjo”. Ficava aquele clima de que quem fizesse qualquer coisa errada os anjos denunciariam, e crescia o poder (e os dízimos) do pastor.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Este post foi modificado pela última vez em 6 dez 2021 - 23:02 23:02

Mouzar Benedito

Mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

Por
Mouzar Benedito

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