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14 de maio de 2019, 22h49

Olavo de Carvalho, o bode

No Blog do Mouzar: “Não é possível que um guru do governo arrume tanta encrenca para seus próprios seguidores. Fiquei com a impressão de que é uma coisa combinada”

Foto: Reprodução/Youtube

Tenho ouvido muita gente que se diz indignada com as declarações do pretenso guru de Bolsonaro. Muita gente tem saído em defesa dos militares, contra a ala “mais ideológica” dos Bolsonaros, e especialmente sobre seu líder.

Um dia desses, dei uma olhada na seção de cartas d’O Estado de S.Paulo e em quase todas elas os leitores se posicionavam em defesa do general Mourão, do general Villas Bôas e de todo o núcleo militar do governo. “Gente que merece respeito”, “equilibrada”, por aí. E tinham um tom de condenação do astrólogo Olavo de Carvalho.

Enfim, os leitores não estavam se manifestando contra os descaminhos do governo, mas só contra o guru maluco dele, recomendando distanciamento dele e defendendo os militares.

Pensei: do jeito que a coisa anda, se Bolsonaro simplesmente der um chega pra lá no Olavo de Carvalho, esse pessoal todo vai considerar resolvido o problema da ruindade do governo.

E aí foi inevitável lembrar da história de “tirar o bode da sala”, expressão muito usada ultimamente para falar de quando uma situação está ruim, ameaça-se com uma piora e, quando se desiste dessa piora as pessoas acham bom.

Muita gente que usa a expressão “tirar o bode da sala” não sabe de sua origem.

A primeira vez que ouvi, há décadas, foi dita por um judeu que contou a história de um lugar em que o rabino era autoridade para tudo numa comunidade judaica, que incluía a zona rural.

Um roceiro foi ao rabino reclamar que a vida estava muito ruim, tinha um monte de filhos e a família morava numa casa pequena, todo mundo amontoado. Perguntou o que fazer e o rabino respondeu: “Você cria cabras, não?”. O sujeito disse que sim o rabino recomendou que ele pegasse um bode e colocasse para viver com a família, dentro de casa.

O homem não achava que aquilo seria uma solução, mas já que pediu conselho ao rabino tinha que obedecer. Colocou um bode para viver na sala, dia e noite. A coisa só piorou.

Dali uns dias foi de novo reclamar ao rabino, e a resposta foi: “Coloque mais um bode para ficar junto com ele”. E a família, que já vivia num espaço reduzido, teve que conviver com dois bodes dentro de casa.

Mais uns dias, o homem voltou ao rabino para dizer que as coisas só tinham piorado com a solução apresentada por ele.

O rabino, então, disse: “Tire os bodes”. E o homem colocou os dois bodes junto com os restantes caprinos, num mangueiro.

Aí, depois de uns dias, o rabino é quem foi à casa dele. Perguntou como estavam as coisas, se a família ainda se sentia morando mal, apertada em pouco espaço.

“Depois que tirei os bodes da sala, melhorou muito. Agora estamos bem, temos bastante espaço”, respondeu o sujeito.

Então essa fábula pegou, e hoje usa-se a expressão “tirar o bode da sala” com frequência, como já disse.

E chego ao Olavo de Carvalho.

Não é possível que um guru do governo arrume tanta encrenca para seus próprios seguidores. Fiquei com a impressão de que é uma coisa combinada: o astrólogo faz um estrago e tanto, aí o seu discípulo rompe com ele, manda-o plantar batatas, e a plateia aplaude. Fica tudo bem, o governo vai todo para os braços dos militares, sem queixas dos seus eleitores (e alguns outros), que queriam era isso mesmo. E Bolsonaro também.

Então, para mim, Olavo de Carvalho está fazendo o papel de bode. Só não sei se quem faz o papel de rabino é Bolsonaro ou são os militares.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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