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29 de julho de 2019, 22h37

Os velhinhos transviados

Blog do Mouzar conta histórias de “setentões” e “setentonas” que participam da vida ativamente, até mesmo do cenário político

Foto: Reprodução

Um monte de “setentões” e “setentonas” protestando, fazendo passeata, com direito à repressão e tudo mais! Onde já se viu? Não era para estarem numa cadeira de balanço ou, os mais saudáveis, gozando o que os italianos chamam de “ócio com dignidade”, quer dizer, uma boa aposentadoria?

Começou durante o processo de impeachment da Dilma, e continuou… Em 2016, participei de manifestações contra o golpe que se avizinhava, uma delas que seguiu em passeata do largo da Batata, em São Paulo, até as proximidades da casa de Michel Temer, onde foi reprimida, e encontrei muitos, companheiros (e companheiras, claro) de manifestações de 1967, 68…. Muitos já com 70 anos ou mais e outros (inclusive eu, na época), beirando os 70.

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Apesar da seriedade do momento, eu brincava com eles, dizendo que não imaginava que aos 70 anos iria participar de manifestações antigolpistas como as de quando tinha 19 ou 20. E com direito à repressão! Os velhos tempos (ruins) estavam de volta. E nós éramos “velhinhos transviados”.

Mas não dava para nos mantermos ociosos mantendo a dignidade, vendo a vaca ir pro brejo. E foi. Quer dizer, continua caminhando celeremente rumo a ele, o brejo. O desmonte do Brasil, dos direitos dos trabalhadores, vai se acelerando. E é preciso que nós, os setentões e até oitentões continuemos na luta. Claro que os jovens é que determinarão o futuro do país e do mundo, mas eles precisam saber que estamos com eles — os que querem um mundo melhor, não os babacas.

Vejo um monte de gente legal da nossa geração indo pro beleléu. Quantos se foram só este ano? Dá a impressão que muitos estão dizendo: é melhor me mandar para o além do que ficar aqui acompanhando esse desmonte todo.

Porém, temos um bando de velhinhos e velhinhas teimosos (as), birrentos (as) até. Sobreviver, para quem acha que o mundo caminha para frente agora é mesmo teimosia, birra. “A luta continua”, diz o velho chavão.

Os músicos

Pensando nisso de gente chegar à velhice fazendo essas coisas, eu me lembrei de uns velhinhos que me marcaram, não politicamente. São boas lembranças. Num tempo tão besta, é preciso isso. Conto algumas historinhas que acho divertidas, incluindo os que inspiraram o título desta crônica: nos anos 1960, existia no Rio de Janeiro um grupo musical chamado “Os Velhinhos Transviados”, composto por cinco excelentes músicos, liderados por um cearense. Parodiava tudo. Músicas antigas eram tocadas de “forma nova” e músicas novas eram tocadas de “forma antiga”.

Vi algumas vezes na televisão. Cada apresentação deles era uma festa, cheia de alegria. Velhinhos competentes!

O peão

Lembrei-me, por exemplo, de um tio avô da minha mãe que quando eu era criança já tinha mais de noventa anos e só viajava a cavalo. Era o tio Zé Coelho. De vez em quando nos visitava. Depois, já adolescente, soube que ele morreu com 99, tentando amansar um cavalo brabo. Montou no baita, foi derrubado, bateu com a cabeça numa pedra e morreu. Jeito besta de ser velho transviado, né?

O viúvo

Pouco depois de chegar para morar em São Paulo, me contaram de um velhinho conhecido de uns amigos meus. Viúvo e com filhos já entrados na idade, começou a namorar uma moça nova e propôs se casar com ela. Os filhos protestaram, disseram que ela ia pôr chifres nele, que ele sozinho não a satisfaria sexualmente, ela ia ter caso com algum jovem, que ele deveria procurar uma mulher mais velha, menos fogosa. Ele bateu o pé e falou:

— Prefiro dividir um prato de filé mignon com alguém do que comer um prato de chuchu sozinho.

O depauperado

Seu Juca tinha setenta e poucos anos e morava numa pequena cidade do Sul de Minas, quando teve uma inflamação no prepúcio. Além do inchaço, doía para urinar. Foi ao médico e recebeu a notícia: tinha que operar a fimose. Os amigos souberam e virou gozação: operar a fimose nessa idade? Operar o “pau”? Seria “depauperado”. Mas o médico, o único da cidade, que recomendou a cirurgia não era cirurgião. O seu Juca teria que ir tirar seu precioso prepúcio em Poços de Caldas. E foi, sob risadas e aplausos de amigos e curiosos.

No hospital, antes de ir para a sala de cirurgia, ficou num quarto com aquela roupa esquisita, cobrindo a parte da frente e deixando a bunda de fora. E pouco antes de ir para os finalmentes, entrou no quarto uma enfermeira com alguns aparatos na mão. Era um pincel, uma tijelinha com espuma e um aparelho de barbear.

—Temos que fazer a assepsia — disse ela.

— Assepsia? Que diabo é isso? — perguntou seu Juca.

Ficou sabendo então que ela ir rapar os seus pelos púbicos, vulgarmente chamados de cabelos do saco. E a própria enfermeira é que faria isso. Regateou. Falou que ele mesmo podia rapar, mas não teve jeito.

Todo envergonhado, obedeceu, deitou-se na cama, ela levantou sua roupa até a altura necessária. Para que o pinto não atrapalhasse, a enfermeira o pegou com dois dedos e levantou, enquanto passava o pincel com a espuma nos pelos. Mexia com o pinto dele para um lado, para passar a espuma do outro, mexia para o outro lado… Em seguida, colocou o pincel na tijelinha, pegou o aparelho de barbear e ele disse:

— Se a senhora quiser, pode largar que ele já para em pé sozinho.

O chofer

Seu Sebastião tinha 75 anos, quando aprendeu a dirigir e comprou um jipe. Aprendeu a dirigir mais ou menos, não tirou carteira de motorista. O jipe, dirigido por ele, como se dizia, parecia uma vaca brava. Ele andava, barbeirando, só por estradas de terra, sem movimento. Mas um dia achou que estava em condições de dirigir na via Dutra, para ir até São José dos Campos, onde compraria algumas coisas.

Uma estrada de terra chegava até à Dutra, ele foi por ela e entrou na rodovia de vez, sem olhar. Foi pego por um caminhão, se arrebentou todo e acordou na Santa Casa, todo engessado. Passou uns meses ali, sendo cuidado por freiras. Uma freirinha mais ou menos nova era cheia de cuidados, o tratava bem, conversava com ele.

Um dia, o quarto dele amanheceu vazio. Onde foi parar o velho? Ninguém sabia. E a freira também tinha sumido. O seu Sebastião podia ser ruim de direção, mas era bom de conversa, e a freira gostou muito. Fugiu com ele e foi morar na sua fazenda como companheira de cama e mesa.

O bom bebedor

Quando adolescente, eu tomava umas doses de gim com vermute antes de entrar nos bailes. Tímido e dançando mal, era ajudado pela bebida a me soltar um pouco. Não sabia da existência de uma bebida denominada martini, que tinha como matérias-primas gim e vermute (por “acaso”, o que a gente tomava era da marca Martini). A ressaca, no dia seguinte era meio estranha, o gim deixava na boca da gente um cheiro que me lembrava laranja podre.

Mas eu nunca tinha bebido gim pra valer, como tomava umas pingas. Quando enchia a cara de cachaça, amanhecia com ressaca, às vezes braba.

Um dia, em Goiânia, um amigo e eu bebemos um litro de gim. Aí sim, vi o efeito devastador dele. Fui dormir e não acordei com ressaca: parecia que continuava bêbado como estava antes de dormir. O dia inteiro continuei assim. Confesso que fiquei meio apavorado, pensando: “passei pro outro lado e não volto mais”. “Passou pro outro lado” era como nos referíamos a um conhecido que, na época em que era moda tomar chá de cogumelo daqueles que só nascem em bosta de boi zebu (não sei porque só na de boi, e tinha que ser zebu — mas não importa, eu mesmo nunca consumi), bebeu demais desse chá e não voltou nunca ao normal. Pirou de vez.

Achei que o gim tinha feito esse efeito em mim (a rima não é de propósito). Fiquei feliz, quando, enfim, passou o fogo e veio aquela ressaca com gosto de laranja podre. Horrível, mas melhor do que “passar pro outro lado”.

Depois de um tempo, encontrava alguns conhecidos em São Paulo e eles me diziam: “Te encontrei em Goiânia e você nem me reconheceu”. “Maldito gim”, eu respondia. Mas pensava: como é que tantos conhecidos de São Paulo passaram pelo boteco simplório de Goiânia em que enchi a cara de gim?

Comecei a reparar que pessoas que tomavam gim (não um gim-tônica, mas muitas doses dele puro) estavam no que eu imaginava ser “o último grau do alcoolismo”. Para bebedor de gim, eu achava, cachaça, vodka e uísque (eu não conhecia ainda o absinto) eram bebidas “de moças”.

Mais tarde, eu soube que a “rainha mãe” da Inglaterra era chegada num gim. Com mais de noventa anos, consumia umas doses diariamente. Admirei.

Mas o que me levou a falar dessa bebida num texto sobre velhinhos transviados é a lembrança de um velho jornalista que, de tão viciado nela, tinha o apelido de Gim. Estava mesmo no “último grau do alcoolismo”.

Chegou ao ponto em que seus familiares o internaram numa clínica para recuperação. Era uma clínica toda bonita, no meio de uma área bem arborizada, com jardins e até pomar.

Um amigo dele, o fotógrafo Luigi Mamprim — italiano que durante a Segunda Guerra foi partisan, guerrilheiro antifacista e antinazista —, que era meu amigo também, foi visitá-lo, pensando que o Gim estaria deprimido ou muito bravo. Mas, segundo disse, ele chegou à clínica e encontrou o Gim todo alegre, andando por todo lado, se exibindo com uma bengala de metal. Ficou surpreso.

Para concluir, o Mamprim contou:

— Ele me chamou para dar uma volta no jardim e eu fui, com ele alegre. Chegamos a um lugar coberto pelas árvores e rapidamente ele pegou a bengala, virou de cabeça para baixo, destarrachou a base dela e foi aí que eu vi: a bengala era oca… E estava cheia de gim. Não sei quem o reabastecia. Ele virou uns bons goles e me ofereceu um pouco.

Enfim…

Músicos e não músicos, peões e não peões, viúvos e não viúvos, motoristas iniciantes ou veteranos e não motoristas, bebedores e não bebedores… Velhos sonhadores libertários e jovens sonhadores libertários… Vamos à luta, né?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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