Pelão, Maya-Maya e Dom João VI – Por Mouzar Benedito

Em seu blog, Mouzar Benedito traz ao leitor história de livro inédito de crônicas de bares de São Paulo nos anos 60 e 70

Cartola, Adoniran Barbosa, Nelson Cavaquinho… Imagine a importância deles para a música popular brasileira!

E imagine que podiam ter passado a vida sem gravar nenhum disco. Gravaram. O primeiro LP de cada um deles saiu por causa de um boêmio o tido como meio mal-humorado, apelidado Pelão. Produtor musical, ele foi responsável pela gravação dos primeiros discos de muita gente, incluindo esses três gênios da MPB, vencendo resistência de gravadoras.

No dia 1º de setembro, recebi a notícia da morte de João Carlos Bortezelli, o Pelão, aos 78 anos de idade, de infarto. Não o via há muitos anos. Só conversei com ele algumas vezes, mas me lembro bem de como tomei conhecimento de que aquele cara que em 2005 ou 2006 compartilhava mesas do restaurante Pasquale, perto da estação Sumaré do metrô, era essa figura tão importante para a nossa cultura.

Comecei a ir ao Pasquale por causa de amigos do Quarteto Pererê, que o frequentavam. Encontrei velhos amigos que batiam o ponto regularmente lá, relembrando militâncias estudantis e políticas.

E no meio deles, o Pelão, que eu não conhecia. Quando fomos apresentados, curiosamente, ele disse que me conhecia. “Eu te via no Dom João VI”, me disse. Olha… Quando frequentei o Dom João VI não usava barba, só bigode. E tinha cabelos… E mais: os cabelos eram pretos. Isso foi lá por 1974 ⸻ eu me lembro o ano porque foi no tempo em que eu trabalhava no Sesc Pompeia.

Mais de 30 anos depois, eu careca, de barba branca, fui reconhecido por ele, que me fez lembrar de uma boa história que conto num livro inédito de crônicas sobre bares da Pauliceia nos anos 1960 e 70.

Aí vai ela…

Nós o chamávamos de Antiquário, mas o bar e restaurante chamava-se Dom João VI. O apelido era porque tinha um antiquário grande mas meio desorganizado na frente. A gente entrava no antiquário da rua Urussuí, no bairro do Itaim Bibi, e seguia por um corredor cheio de tranqueiras (ah, se o dono ouvisse alguém chamar de tranqueiras aquelas rodas de carros de bois, cristaleiras, imagens, pinturas etc.). Andava uns trinta metros no corredor estreito, com antiguidades dos dois lados, e enfim chegava num ambiente acolhedor, também com antiguidades por todos os lados, umas oito ou dez mesas e um piano no meio, à disposição dos frequentadores. Minha frequência lá era muito relacionada a dois amigos: Zé Armando e Estêvão Maya-Maya.

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Negro, bem negro, baixinho, magrinho, o Estêvão tinha um vozeirão de pôr o Pavarotti no chinelo. Maranhense, culto, grande conhecedor de música erudita, ainda por cima falava russo e alemão, e cantava músicas folclóricas alemãs e russas. Nunca contou como aprendeu isso tudo. Dizem que foi num colégio de padres. De seu passado, só contava que aos três anos foi picado de cobra e pouco depois tomou vinho com querosene, para garantir que era duro na queda, que sobrevivia a coisas inimagináveis.

Em Salvador, uma vez, um sujeito que conheci numa mesa de bar, resolveu contar histórias malucas de um músico de primeiríssima qualidade. Era o Estevão! Ele tinha morado lá, na Casa do Estudante, meio clandestinamente, pois não estudava na Universidade Federal da Bahia. Todos gostavam dele e o admiravam. Sem falar com ele, arrumaram uma bolsa de estudos na França, com tudo pago, para ele passar seis meses em Paris. Era um presente. Mas quando anunciaram que ele havia ganhado a bolsa, ficou puto: “Por que vocês querem me mandar embora daqui?”, chiou. Não aceitou de jeito nenhum. Como a tal bolsa de estudos era uma raridade, coisa difícil de conseguir, deram um jeito de transferi-la para outro músico.

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Bom… O sujeito que foi no lugar dele morreu atropelado poucos dias depois de chegar a Paris. A notícia chegou à Bahia e o Estevão falava bravo: “Estão vendo? Era isso que vocês queriam que acontecesse comigo?”.

Mas voltemos ao bar da rua Urussuí. A comida do Dom João VI era ótima. A maior especialidade era o leitão à pururuca. A cozinheira — epa! Hoje pega mal chamar a “chef” de cozinheira.  Então, digamos, a chef — era a própria dona, uma mulher mineira de Juruaia, cidade pertinho da minha terra, e cozinhava muito bem.

A bebida e a comida eram relativamente caras, os preços não eram acessíveis para nós e, por contraditório que pareça, íamos lá especialmente quando estávamos sem dinheiro nenhum. O Estêvão sentava-se ao piano e ia puxando músicas que sabia que agradavam a clientela. Primeiro só tocando piano, depois soltando a voz. Quando cantava a Canção dos barqueiros do Volga, ficava todo mundo espantado, procurando saber de onde vinha aquela voz limpa, potente e cantando em russo. Não dava para acreditar que era de um negro baixinho e magrinho. Terminada a música, todo mundo em silêncio, até meio pasmo, ele falava para o dono, bem alto para que todos ouvissem, que ia embora porque estava duro, queria tomar uma cerveja, mas não tinha dinheiro, então ia beber em casa.  Os clientes não deixavam, iam pagando cerveja pra ele tocar e cantar mais uma, e mais uma, e mais uma… Saíamos de lá encharcados de cerveja.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Mouzar Benedito

Mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

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