Blog do Mouzar

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23 de dezembro de 2010, 10h01

Deixa disso, Kátia!

Tocantins, caçula dos estados brasileiros, é muito interessante. Quente pra burro, mas suportável. Não é um calor daqueles que deixam as pessoas meladas, com a pele pegajosa.

Sua capital, Palmas, lembra Brasília pouco depois de criada. Está em construção ainda, mas é tudo grandioso. Basta dizer que a praça central tem mais de cinquenta hectares, ou seja, mais de quinhentos mil metros quadrados. Dar uma volta em torno dela só de carro, pois da enormidade a ser percorrida, é difícil andar sob o sol que queima.

E, surpresa: no meio da praça, tem um memorial à Coluna Prestes e um monumento aos 18 do Forte. Mais surpresa ainda: ambos foram construídos por Siqueira Campos, governador de direita. Ele teria sido estafeta da Coluna Prestes, daí sua admiração pelo ex-líder comunista.

Outra surpresa: Tocantins tem uma Academia de Letras que faz o que se espera de uma Academia de Letras: tem trabalhos de incentivo à leitura e à escrita.

Quando Lula foi inaugurar a chegada da ferrovia Norte-Sul a Porto Nacional, em Tocantins, eu estava em Palmas, ali pertinho. Tenho um fascínio por trens e podia ter ido à inauguração, mas não fui.

Um dos principais motivos era a temperatura de 41,3ºC em Porto Nacional (em Palmas, beirava os 40ºC), com uma umidade relativa do ar bem baixa. Outro é que sabia que haveria enxurradas de discursos, uma chatice. Meu fascínio é pelo trem, não pela badalação em torno dele, nem pelo Lula.

Fiquei em Palmas, pensando no destino da tal ferrovia. Viajando de avião de Brasília para a capital tocantinense, via lá embaixo a devastação do cerrado para dar lugar principalmente à soja, mas também a pastagens e à cana. Depois fiquei sabendo que até a monocultura do eucalipto já vai se propagando pelo estado.

Mas a cultura da soja é a mais simbólica da devastação do cerrado. Assim, a ferrovia vai servir, com certeza, para escoar a produção de soja. E com a facilidade para o transporte, mais devastação vem aí.

E o que tem a Kátia com isso?

A senadora Kátia Abreu, de Tocantins, é uma espécie de porta-bandeira do agronegócio, quer dizer, do pessoal que encara a agropecuária como um negócio, simplesmente. Para a maioria desse pessoal, preservação da natureza é uma babaquice, é uma atrapalhação. Se dependesse deles, toda a vegetação natural seria desmatada, tascariam soja, cana e gado em tudo quanto é lugar. Ah, nem me lembrem que quem se tornou um dos aliados da senadora na questão do desmatamento foi o deputado Aldo Rebelo, do PC do B (!).

Fui a Porto Nacional dois dias depois, com amigos que fiz em Tocantins. E ia ouvindo os comentários sobre aqueles pastos secos ou simplesmente campos queimados que dominavam quase todo o percurso. Era tudo cerradão. Era… não é mais. A sensação era de que o cerrado está condenado à morte e a condenação é irreversível.

Claro que a culpa não cabe exclusivamente à senadora Kátia Abreu, mas ela é uma líder nesse meio. Defende radicalmente o agronegócio — que considera vítima de preconceitos — e diz que esta é uma atividade que rende muito dinheiro ao Brasil, que é importante para a balança comercial. É verdade. A soja é um dos principais produtos de exportação. Dá dinheiro. E minha visão sobre o agronegócio é esta: só o dinheiro interessa. É um negócio. Agro é detalhe.

Lembrei-me então de um caipira do sul de Minas contando que tinha plantado feijão e arroz na sua propriedade. Um desses agricultores “modernos” ficou quase furioso com ele:

— Feijão, arroz… Isso não está valendo nada, não dá lucro, só dá trabalho. Por que você não planta café no sítio inteiro?

O caipira falou sério:

— Se a gente não plantar isso, o que é que o povo vai comer?

Tá aí a diferença. O dia em que ouvir um militante do agronegócio dizer seriamente que vai plantar o que o povo precisa e não o que rende mais, talvez eu perca um pouco da minha birra contra agronegociantes.

Esta crônica é parte integrante da edição 93 da revista Fórum.


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