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07 de março de 2017, 15h07

Pequenas lembranças da militância feminista

Está chegando o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. É uma data que muita gente comemora, mas também que tem quem aproveite para falar mal do feminismo e das feministas.

Isso não é novidade.

Há décadas, muitas “beneficiárias” das conquistas feministas falavam desse movimento como se fosse uma coisa “anti-homem”, não feminina. Ouvi, não poucas vezes, mulheres falando “sou feminina, não feminista”. Mas muitas liberdades que “usavam” eram conquistas do feminismo.

Hoje, certos comportamentos libertários das mulheres parecem coisas que sempre houveram, mas muitos direitos que a mulher tem atualmente, e que parecem óbvios, não eram tão óbvios assim quando grupos feministas lutavam por eles num tempo muito difícil.

Não vou falar sobre isso aqui, porque acho que seria chover no molhado. Certamente, nesses dias haverá muitas discussões e matérias jornalísticas sobre o assunto.

Mas quero registrar meu apoio a todo mundo que luta contra injustiças e em defesa de direitos, contra opressões de todos os tipos.

E lembrar dos tempos da imprensa alternativa, em que entre os jornais enfrentavam a ditadura e também certos costumes hoje superados havia alguns feministas muito combativos, como o Nós Mulheres, o Brasil Mulher e o Mulherio.

Muita gente pensa que os grupos feministas e as próprias mulheres feministas eram muito caretas, de mulheres mal-humoradas. Não é nada disso. E havia homens que apoiavam as lutas delas.

Tanto que eu mesmo acompanhei a fundação do Nós Mulheres, fui colaborador do Brasil Mulher e do Mulherio, e me orgulho muito disso.

O Brasil Mulher tinha, ao lado da militância por igualdade de direitos, também a defesa da anistia. Aliás, o jornal nasceu da militância pró-anistia, sua fundação foi encabeçada por Terezinha Zerbini, viúva do General Zerbini, militar de esquerda cassado e perseguido pelos golpistas de 1964,

Um parêntese aqui: muita gente pensa que se você defende uma causa acha que todo mundo que está na mesma luta é 100% afinado com seus pensamentos, e não vê “defeitos” nos companheiros de lutas. Não é assim. Mesmo pessoas “boas” podem ter visões distorcidas sobre qualquer coisa.

Ilustro com uma reunião do Brasil Mulher, em que estava presente uma ex-presa política recém-libertada, que foi lá para agradecer e conhecer o grupo que defendia a ela e suas companheiras.

Na reunião, ficou olhando para mim, único homem presente. Enfim falou: “Você que é o Mouzar Benedito, homem do Brasil Mulher?”. Respondi que sim e ela concluiu: “Pensei que era um viado”. Ri e comentei com as moças da redação que até entre mulheres de esquerda podia haver preconceito contra homens que as apoiavam.

Bom, como já disse que não pretendo chover no molhado, falando das lutas feministas. Vou falar aqui só de duas lembranças desse tempo.

Uma delas é que, num determinado momento, havia dois jornais feministas com sede no mesmo prédio, na Vila Madalena, em São Paulo.

No primeiro andar, ficava o Brasil Mulher, como já disse, formado por mulheres militantes de esquerda, pouco preocupado com questões sexistas, mais ligado à luta política.

No segundo andar, ficava o Nós, Mulheres, mais de militantes feministas mesmo – bastante ligadas a questões de gênero – que tinha em seus quadros muitas mulheres de classe média alta, com preocupações inclusive estéticas.

As próprias meninas do Brasil Mulher se autogozavam:

— No mesmo prédio, dois jornais: o Brasil Mulherzinhas e Nós, Mulheronas.

A outra lembrança é relativa à imagem de caretas que algumas pessoas tinham e têm de feministas. É falso, já disse. Fazia-se muitas festas bem animadas (com forte presença masculina, claro).

Duas militantes do Brasil Mulher, as gêmeas Regina e Stella, eram minhas amigas desde os tempos de faculdade. Numa festa de feministas, num dia frio de junho, depois de ter bebido bastante, de repente, dei de cara com uma delas na barraquinha de quentão. Foi uma alegria danada.

Dei uma volta e… olha a outra ali, pensei.

— Stella… você também está aqui — dei um abração nela, que fez cara de espanto.

E continuei:

— Acabei de encontrar a sua irmã.

— Não é possível… ela está viajando…

— Então já voltou, estava tomando quentão.

— Pô, quem estava tomando quentão era eu. Foi comigo que você se encontrou ali atrás…


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