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31 de janeiro de 2017, 21h06

Pixurum!

As pichações e os grafites tomaram conta do noticiário desde que o prefeito João Doria, de São Paulo, declarou guerra aos pixos, em nome de um projeto dele mesmo, chamado “Cidade Linda”.

Doria tem tomado atitudes que lembram Jânio Quadros, e parece que ele quer ser um novo Jânio, só que penteadinho e arrumadinho.

Uma das ações mais polêmicas dele foi mandar pintar de cinza os grafites de um trecho da Avenida 23 de Maio. Eram obras de arte que embelezavam aquela área já muito cor de cinza. A desculpa é que esses grafites estavam meio deteriorados. Podiam ser consertados, não?

As declarações e o modo de agir do prefeito e sua equipe acabaram arrumando atritos até de pichadores com grafiteiros. A pichação em cima de um grafite do Kobra, um grande artista, mostrou isso. E o Kobra já tinha declarado que era contra a repressão aos pichadores. Mas não escapou, ficou sendo visto por alguns pichadores como “do outro lado”.

Antes de qualquer coisa, eu bem que acharia ótimo se São Paulo fosse inteirinha uma “cidade linda”, gostosa de morar e circular nela inteira, toda arborizada, sem favelas, sem pobres perambulando e dormindo nas ruas por não terem onde morar, sem desemprego, sem poluição sonora, do ar, dos rios e córregos ou visual…

Sim… Eu mesmo, quando vou fazer caminhadas ou ir de carro a algum lugar, havendo opção de trajeto, escolho caminhos bonitos, ruas arborizadas e limpas, por onde dá gosto andar. Chego de volta com uma sensação bem diferente do que quando encaro poluição visual e cenas tristes.

Morar e passar por lugares bonitos faz bem à saúde mental. Morar em lugares áridos, com esgotos passando no meio das moradias como se fossem córregos, rodeados de miséria por todos os lados, não é agradável. Mas é opção dos pobres morar assim?

Quando eu trabalhava no centro de São Paulo, passava por algumas ruas e avenidas cheias de pessoas dormindo no chão e chegava ao trabalho já cansado. É triste ver a miséria explicitada no cotidiano da gente. Mas a realidade era e é essa. E repito: é opção dos miseráveis serem miseráveis?

Duvido que as pessoas que dormem nas ruas por não terem moradia e nem dinheiro pra pagar um lugar onde possam viver façam isso porque gostam. A não ser, claro, gente com problemas mentais – que também merecem respeito e assistência.

Ou pessoas pra lá de alternativas.

Então, para começar, acho que não teremos “cidade linda” com um caos social dentro dela. E antes que algum babaca me xingue de “petralha safado”, quero lembrar o que todo mundo sabe: esse caos social não é de hoje e nem culpa de um prefeito/governador/presidente específico. É coisa antiga que passa por governos municipais, estaduais e federais dos mais variados partidos, sem que se resolva. Mas tem quem nem tente diminuir um pouco isso e culpe as vítimas por serem vítimas.

E não sou petista… Já fui sim, há muito tempo. E não me arrependo. Valia a pena sonhar que teríamos um partido… Bem, não é preciso discutir isso aqui.

Agora, os pixos. Entre as coisas que enfeiam a cidade, acho que algumas pichações ajudam nisso. Há prédios inteiros com rabiscos que podem sim ser classificados como poluição visual. É uma forma de protesto de quem não tem alternativa, me contam. É a forma de protesto deles. Não valido nem invalido. Não gosto de ver a feiura, insisto, mas ouço argumentos de que enfear a cidade é uma forma de denúncia, de reivindicar que olhem para os problemas deles.

Não pretendo discutir isso também.

O que quero é lembrar que a minha geração também teve pichadores. Eu mesmo pichei.

Uma diferença entre as nossas pichações e as atuais é que os pichadores de hoje protestam, mas só eles mesmos e seus grupos entendem o que picham.

Nós também pichávamos para protestar mas, ao contrário, queríamos que todo mundo entendesse e nos apoiasse.

Nossas pichações eram contra a ditadura, a política econômica (aí inclui-se pobreza, emprego etc.), a repressão, o imperialismo, a guerra do Vietnã… E não ocupavam fachadas inteiras de casas e menos ainda de prédios inteiros, talvez por falta de competência nossa, talvez porque a repressão a mensagens políticas era mais rápida e eficiente, e podia resultar em prisões das brabas, tortura e até morte.

Ah, falei que nossas pichações eram políticas… Mas nem sempre. Vi pichações não políticas que até ajudavam a gente a encarar o dia a dia com melhor humor. E nem eram bonitas como os grafites.

Lembro-me de duas pichações que ficaram décadas sem serem apagadas, no bairro de Pinheiros, porque eram divertidas e provocavam risos. Uma delas, na fachada de uma casa da rua Artur de Azevedo dizia o seguinte: “Quero morrer nos braços de uma mulher peituda”.

A outra era numa casa na esquina dar ruas Cardeal Arcoverde e Lacerda Franco. Uma placa pregada na casa tinha uma seta indicando a Vila Ida. Embaixo, picharam uma seta no sentido contrário, e dizia: “Vila Volta”.

Então, pichadores… Que tal pôr um pouco de humor nos seus protestos?

Para terminar, por que o título pixurum? É que lembra a palavra pixo, mas é uma variante de mutirão, expressão tupi para falar da ajuda mútua, de trabalho conjunto. Não seria uma opção melhor do que a guerra?


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