Blog do Mouzar

#Fórumcast, o podcast da Fórum
06 de maio de 2019, 22h37

Quintana e Senna

No blog do Mouzar, ele diz: “Quando li num poema de Quintana o verso ‘Meus críticos passarão, eu passarinho’, eu me tornei seu fã e procurei ler muito mais dele e sobre ele”

Crédito: Dulce Helfer/CCMQ/Divulgação

Estou escrevendo este texto no dia 5 de maio, 25º aniversário da morte do poeta e tradutor gaúcho Mário Quintana, depois de ler a Folha de S.Paulo e não ter visto no jornal sequer uma linha sobre esta “efeméride” (ô palavra feia!).

O que tem a ver?

É que quatro dias atrás, 1º de maio foi também o 25º aniversário da morte de um outro brasileiro, Ayrton Senna, e essa “efeméride”, sim, teve muitas lembranças, mereceu crônicas, artigos e reportagens. Merecia? Acho que sim. Nós brasileiros andamos carentes de autoestima e é bom lembrar de conterrâneos que fazem ou fizeram muito bem o seu “ofício”.

Faço referência à Folha de S.Paulo porque é o jornal que leio todos os dias, mas ocorre o mesmo com outros, com a TV, com revistas…

Minha observação sobre a diferença de tratamento não é por achar desmerecidas as homenagens a Ayrton Senna. Só que o poeta merecia um pouquinho também, não?

Certo, não precisaria ser igual. Não vimos nunca multidões declamando ou ouvindo poemas de Quintana, e Senna era um ídolo que arrastava multidões. Não tenho o menor interesse por corridas de automóveis, mas muita gente gosta e eu respeito.

O que me levou a escrever sobre isso foi a lembrança de um artigo publicado na Folha de S.Paulo há menos de um mês. Não me lembro quem era o autor, só que era um estadunidense. Nesse artigo ele comenta que nos Estados Unidos os esportistas mortos são reverenciados, têm memoriais frequentados por um montão de gente, enquanto seus escritores e artistas não merecem um tratamento semelhante. Na Europa, há um respeito enorme pelos escritores e artistas que morreram, mas nos Estados Unidos não.

O autor não pede que se diminua o “culto” aos esportistas que fizeram história no país, só gostaria que melhorasse um pouco a reverência a escritores e artistas mortos.

Isso, acredito, vale também para o Brasil.

E cito o piloto Ayrton Senna e o poeta e tradutor Mário Quintana, que morreram com diferença de poucos dias, em 1994, com muito respeito aos dois. Tanto na época quanto agora Quintana não chega nem a ser coadjuvante no tratamento dado pela imprensa.

Em 2 de maio, dia seguinte à morte de Senna, a Folha de S.Paulo publicou um caderno inteiro sobre ele. Se me lembro bem, foram oito páginas.

No dia 3 de maio, mais um caderno na Folha. No dia 4 e em não sei quantos dias seguintes também. Um caderno inteiro para ele, todos os dias. E quatro dias depois de Senna, 5 de maio, lá se foi Mário Quintana. Esperava ver na Folha pelo menos um artigo sobre ele, mas não: sua morte foi registrada em uma nota de rodapé de quatro ou cinco linhas. Enquanto isso, continuava saindo o caderno homenageando Ayrton Senna.

Fiquei uns dias remoendo isso: um dos maiores poetas da história do Brasil, com décadas dedicadas à cultura, ter sua morte registrada numa notinha insossa, enquanto o piloto morto dias antes continuava merecedor de cadernos e mais cadernos com muitas páginas. Repito: não estou desmerecendo Senna.

Quando a Folha publicou o artigo do gringo falando de um certo desprezo dos estadunidenses aos seus intelectuais, gostei e me lembrei das mortes de um grande esportista (consideram automobilismo esporte, não?) e um grande poeta 25 anos atrás, e a diferença de tratamentos nos dois casos. De lá para cá o jornal mudou? Ou a crítica ao que acontece nos Estados Unidos foi publicada por acaso? Aí vieram essas “efemérides”… Será que o jornal considera a obra de Mário Quintana tão inexpressiva?

Porém, não é só depois da morte que uns e outros merecem reconhecimento. Seria bom que ocorresse também em vida. Aliás, nisso em alguns casos há semelhanças: grandes esportistas brasileiros terminando seus dias na miséria, sem reconhecimento efetivo das autoridades, e grandes pensadores e artistas também.

Quando li num poema de Quintana o verso “Meus críticos passarão, eu passarinho”, eu me tornei seu fã e procurei ler muito mais dele e sobre ele.

Mais tarde me contaram (acredito que seja verdade) que, apesar das dezenas de anos dedicados à cultura, ele não tinha dinheiro, quem pagava o hotel em que morava, em Porto Alegre, era o Falcão, jogador de futebol. Tinha muita admiração pelo Falcão e passei a admirar mais ainda. Um craque do futebol e humanista.

Depois que Quintana morreu, esse hotel foi desapropriado e transformado no Centro Cultural Mário Quintana. Beleza! Um ótimo centro cultural, uma homenagem merecida. Mas fiquei ruminando: enquanto ele estava vivo, nem prefeitura nem governo estadual nem federal fizeram o que o Falcão fez. E me lembrei do final da letra de um velho samba: “Depois de morto, quero flores e nada mais”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum