Blog do Mouzar

25 de fevereiro de 2019, 22h14

Roraima e a fronteira Brasil-Venezuela

No Blog do Mouzar, ele conta sua viagem à região, em 2007, e relembra as experiências que vivenciou no local, hoje bastante presente nos noticiários

Migração venezuelana muda perfil de Pacaraima - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Há uns poucos anos, quando o STF julgava sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol, o Brasil tomou conhecimento de uma cidade chamada Pacaraima, em Roraima. O líder dos chamados “arrozeiros” que se opunham aos indígenas era prefeito de Pacaraima. O STF deu ganho de causa aos povos indígenas, deixando indignados esses arrozeiros, nenhum deles roraimense. O próprio líder deles era gaúcho. E não só eles ficaram brabos: o grupo Bandeirantes de rádio e TV, por exemplo, fazia editoriais irados contra a decisão do STF (um dos bons momentos do STF, por sinal).

Muita gente fala da boca pra fora da degradação do meio ambiente e, quando é preciso decidir entre proteger a natureza e seus cuidadores (os índios no caso) ou se submeter aos interesses do capital, vira fera a favor do capital, seja ele qual for.

Eu me sentia um ser estranho nessa época: era um dos poucos moradores de São Paulo que não só sabia da existência desse lugar chamado Pacaraima como já tinha ido lá.

Com a tensão atual na fronteira do Brasil com a Venezuela, Pacaraima está na mídia todo momento, e isso me fez lembrar da minha viagem à região, que conto aqui. A viagem, se não me engano, foi em 2007, então muitas coisas mudaram por lá, mas acho que ainda vale contar minha experiência.

Boa Vista, boa mesmo

Minha chegada à capital de Roraima foi no meio da tarde, de avião. Do alto, gostei do que vi. A cidade tem um traçado muito interessante, à beira do rio Branco. Mas o que eu gostei mais foi de ver a quantidade de árvores que tinha dentro dela.

João Pessoa tem a fama de ser a capital mais arborizada do Brasil. Lá, desde há muitos anos, cada árvore plantada dentro do terreno de alguém dava um desconto no IPTU, então, além de melhorar o ambiente, o morador que plantava árvores na frente e/ou nos fundos da sua casa economizava dinheiro. Acho que a lei ainda vale.

A cidade tinha umas coisas interessantes. Pequena, espalhada, suas ruas, mesmo no centro, não tinham muito trânsito. Só uma avenida com quiosques no canteiro central e lojas nas suas laterais tinha maior movimento.

Uma coisa eu demorei a levar a sério: lá, quando um pedestre pisava na rua, os carros paravam para ele passar. Eu não me arriscava muito até ver que funcionava. E os táxis? Se a gente pegasse um táxi e quisesse chegar rápido, pagava pelo taxímetro. Mas se topasse deixar o táxi ir pegando mais gente pelo caminho, pagava o preço de uma passagem de ônibus.

Interessado pela cultura popular, procuro conhecer um pouco sobre ela onde vou. Lá, o ser mais popular do imaginário popular é o Macunaima (que inspirou o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, mas a pronúncia local não tem acento no i, a sílaba tônica é ái – isso vale também para Roraima e Pacaraima). O segundo mais popular é o Curupira, tem até uma praia do Curupira na cidade. E o Saci? Não é tão popular assim, mas o sorvete de lá leva a marca Saci – tinha até de tapioca, que experimentei e gostei.

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E o rio Branco?

Durante muito tempo, havia navegação pelo rio Branco, continuando pelo Negro, de que é afluente, até Manaus. Mas só no período das chuvas. Com a chegada da rodovia ligando a Manaus, pararam com a navegação. Navegar pelo rio Branco, então, só em passeios. Fiz um desses, num final da tarde, com pouco mais de uma hora de duração, com direito a ver o pôr do sol em Boa Vista a partir do rio.

Na margem oposta à cidade, há uma praia muito badalada, mas não fui lá. A cidade parece não dar muita bola ao rio. O seu centro fica próximo, mas não na orla. Mas tem uma coisa muito legal ali: a Orla Taumanan (taumanan significa paz, na língua macuxi), inaugurada em 2004. É uma grande estrutura suspensa acompanhando a margem do rio. Tem duas “plataformas”: a Meremê (“arco-íris”), mais alta, e a uns cem metros dela a Weikepá (“nascer do sol”). Entre as duas há uma rampa, que não serve só de ligação: funciona como um lugar para a plateia assistir a shows realizados na plataforma Weikepá. Em cada plataforma havia um monte de bares e restaurantes.

Fui jantar lá, escolhi a plataforma mais alta, de onde se tinha uma vista melhor do rio, na noite enluarada. Só que havia um microfone instalado ali. Disseram que haveria música ao vivo. Pensei: vai ser uma encheção. Imaginei que seria uma música barulhenta, então escolhi o restaurante mais distante. Surpresa: lá pelas 9h da noite apareceu um rapaz com um violão, ocupou o microfone e só cantou músicas das melhores, numa altura compatível. Excelente. Jantei ouvindo música bem executada e bem cantada, de Chico Buarque, Milton, Caetano, Gil…

Pacaraima e Santa Elena

Um dia resolvi ir até a fronteira com a Venezuela, com intenção inclusive de chegar à primeira cidade venezuelana, Santa Elena de Uairén. Pedi informações sobre ônibus, no hotel, e o recepcionista disse que era melhor ir de táxi. O ônibus demorava mais, custava o mesmo preço, e parava em Pacaraima, eu precisaria pegar um táxi para chegar a Santa Elena, a alguns quilômetros. De táxi, ia direto até a cidade venezuelana. E o preço? R$ 25,00 por pessoa. O táxi levava quatro passageiros.

Espantei. Era barato demais, para 215 km de viagem. Aí fiquei sabendo o motivo: a gasolina custava R$ 1,60 o litro, em Roraima. E na Venezuela era R$ 0,09 – isso mesmo: nove centavos o litro. – Os táxis iam lá encher o tanque e quase todos tinham um tanque “clandestino”. Então, só de levar para Roraima uns cem litros de gasolina já compensava.

Passei direto por Pacaraima. Deixei para conhecer a cidade na volta, pois pretendia voltar de ônibus. Fui para Santa Elena de Uairén, uma cidade minúscula, devia ter uns 3 mil habitantes, só que me pareceu uma mini-Ciudad del Este. Era cheia de brasileiros fazendo compras. Tudo lá era mais barato. Algumas pessoas abarrotavam o carro com todo tipo de coisa, até papel higiênico, e levava para Boa Vista.

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Pequenininha, bem urbanizada, todo o seu centro era de casas comerciais. Lotadas de roraimenses. Só que não se comparava com Ciudad del Este, no Paraguai, que é um amontoado enorme de pessoas e lojas das mais variadas bugigangas. Fiz compras também: duas garrafas de rum venezuelano, um vidrinho de angostura (um bitter especial, produzido na Colômbia, usado para colocar uma ou duas gotas em drinques como daiquiri e mojito) e uma camiseta para a minha mulher. Só que deixei para comprar isso um pouco antes de voltar para Roraima e foi difícil: tudo fechava para almoço. Só achei uma lojinha aberta, e a camiseta, com foto da Gran Sabana (a floresta que ocupa uma grande extensão do sul venezuelano), não era das mais bonitas.

Fui então para Pacaraima. Ô, lugar estranho! Para quem se dirige do Brasil para a Venezuela, a cidade fica na margem direita da rodovia, chegando até a divisa, onde fica a estação rodoviária. O lado esquerdo, todo, era uma fazenda do Exército, não podia ser ocupado. Então, a rua principal era com casas de um lado só, quase só casas comerciais, feiosas. Paralelas a ela, duas ou três ruas sem calçamento, e travessas também sem calçamento. Era uma cidade bem pequena (calculei em menos de 2 mil habitantes) e sem atrativos. Será que continua assim? Pelas imagens da TV, mostrando as encrencas ocorridas lá agora, vi que a cidade está inchada, com muita polícia, imigrantes venezuelanos sem emprego e jornalistas, mas as terras do Exército continuam intactas. Se o lugar era totalmente sem graça, piorou.

Meio ambiente: “problema”

Roraima tem uma população pequena, a maior parte vinda de outros estados, e são estes que dominam a vida pública local. Basta lembrar que o ex-senador “roraimense” Romero Jucá, símbolo da política do atual MDB, cheio de mumunhas, nasceu em Pernambuco. Havia muitos maranhenses, mas quem dominava a economia eram sulistas e paulistas. Serrarias eram praticamente todas de gaúchos. Essas serrarias acabaram com quase todas as matas do estado. A única mata intocada, cobiçada por eles, era a reserva Waimiri-Atroari. Volto a falar dela daqui mais à frente.

Fui ao IBGE e consegui um atlas estadual. Conversando com um funcionário, vindo do interior paulista, elogiei a grande quantidade de árvores dentro da cidade. Ele quase espumou de raiva. Disse que isso era um problema. Tinha uma árvore enorme e lindíssima em frente ao prédio e ele era doido para derrubar, mas como ficava na calçada precisava de autorização da prefeitura. As de dentro do terreno ele tinha derrubado todas.

Falei também de como era bonito o lugar sem prédios altos. Os prédios de apartamentos e escritório tinham no máximo uns três andares. Ele xingou de novo: por não poder construir prédios altos na cidade, era difícil conseguir um apartamento para alugar. Com tantas casas espaçosas, em terrenos espaçosos, ele sentia falta de morar numa gaiolinha.

Aí, abri o atlas numa página, e nela estavam representados os biomas regionais. Mas vejam o índice: “Terras da Funai” (para reservas indígenas), “Terras do Ibama” (reservas ambientais), “Terras alagáveis” e “Terras Livres” – as terras em que podiam fazer o que quisessem derrubar todas as árvores, acabar com tudo, é que recebiam o nome de “terras livres”. Esse funcionário, repetindo as queixas dos exploradores sulistas, dizia brabo que só um terço ou menos das terras do estado eram “livres”.

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Volto à reserva Waimiri-Atroari. Os madeireiros e os puxa-sacos deles não se conformam por não poderem derrubar aquela extensa floresta. Os Waimiri foram inimigos dos Atroari até entenderem que o inimigo real deles era o invasor branco. Depois de quase dizimados, se uniram, conseguiram uma grande reserva e sua população vem crescendo.

A estrada de Boa Vista a Manaus precisava cortar a reserva deles, mas para isso o governo teve que fazer um acordo: a estrada seria fechada de noite, porque os seres da floresta precisariam ter sossego para dormir. Não há problema. Basta programar as viagens para passar lá só durante o dia, mas sempre tem matérias nos jornais e na TV reclamando dessa “injustiça”. Querem porque querem derrubar esse acordo, e se puderem, também o de liberar a mata para os madeireiros.

Aliás, sobre os madeireiros (todos do sul), ouvi um sujeito que manjava de meio ambiente falar: “Algumas pessoas comparam esses gaúchos [cabe uma ressalva aqui: ele não era contra os gaúchos, só contra os madeireiros] a cupins. Não concordo. Os cupins pelo menos arejam as terras”.

Há pessoas piores que cupins (e não só do Sul) também em garimpos ilegais, poluindo rios e achando que quem é contra isso é um inimigo miserável que merece ser morto (já era assim antes da “era Bolsonaro”). Natureza é para ser destruída. Índio é uma atrapalhação e defensores de índios, piores ainda.

Bom… Eu queria conhecer mais coisas do estado. Lamento não ter conseguido. Uma delas, o Monte Roraima, que inspirou Conan Doyle para escrever “O mundo perdido”. Outra, o lavrado (extensos campos do estado) e especialmente o cavalo lavradeiro, que vive nele. São os últimos cavalos selvagens da América do Sul. Portugueses levaram cavalos para o atual estado de Roraima no século XVIII. Muitos deles escaparam e formaram grandes manadas adaptadas à região, alimentando-se de um capim pouco nutritivo, adquirindo características muito particulares. Chegaram a ser milhares, mas, caçados, na última vez que tive notícias deles, não passavam de duzentos.

Termino com uma curiosidade divertida: quando peguei um táxi do aeroporto para a cidade, em Boa Vista, comentei sobre o calor de trinta e tantos graus. “Tá quente, hein?”, falei. O taxista respondeu: “Agora, no verão, até que é bom. Calor mesmo é no inverno”. Pois é. Inverno, no Norte e no Nordeste do Brasil é o período de chuvas. E nele, com alta umidade, o calor fica mais abafado. Frio não existe lá.

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