Blog do Mouzar

Fórumcast, o podcast da Fórum
23 de março de 2011, 13h32

Uma bússola na cabeça

Sempre me diverti com uma coisa que acontecia­ direto nos filmes de bangue-bangue: um cavaleiro chega a um rancho, tem um moleque curioso que puxa conversa com ele, e, depois de um “olá, garoto” e qualquer frase, o cavaleiro pergunta: “Onde é o rancho WKO?”

Primeiro, uma curiosidade inútil: fazenda, nos filmes de bangue-bangue, é rancho. E seus nomes são sempre duas ou três letras. Não é como aqui, Fazenda Vista Alegre, Fazenda Santa Terezinha… Mas o curioso mesmo é que o moleque não titubeia, parece que conhece tudo ali e tem um enorme senso de direção: “Siga 12 milhas ao norte e mais três a oeste”.

O cavaleiro agradece e segue em determinada direção como se tivesse uma bússola. E parece ter também (no cavalo) um odômetro, o aparelhinho que mede a distância percorrida. Naquela pradaria imensa, sem nenhuma referência, sem montanhas nem nada, em uma determinada altura o sujeito vira para o oeste de repente. Exatamente ali teria dado as 12 milhas. Percorre mais três milhas e chega exatamente aonde queria.

Pois fiquei sabendo que existem povos que usam sempre as coordenadas geográficas como referência. Não têm o senso de distância dos moleques e caubóis dos bangue-bangues, nunca usam as chamadas “coordenadas egocêntricas”, em que a gente se põe como referência. Não dizem “siga duas quadras à direita”, ou “é ali atrás”… É sempre assim: “Vá para o norte”. Até em coisas mínimas usam as coordenadas geográficas, segundo um excelente artigo de Guy Deutscher, publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, há algumas semanas.

Por exemplo: ele avisa que há uma aranha a leste do seu pé. Ou, se está apertado no banco de um carro, pede que você vá um pouco mais para oeste… O autor se refere, nesse caso, ao idioma guugu yimithirr, de um povo aborígene da Austrália. Mas informa que vários povos da Polinésia e também os falantes do idioma tzetal, do sul do México, usam esse método de localização.

Chegaram a pôr um homem que falava tzetal num quarto escuro, vendado, dar várias voltas em seu corpo e depois pedir que ele dissesse onde era o norte etc. Acertou na mosca. Curioso. Mas podemos pensar nos peixes que sobem sempre o mesmo rio para desovar, nas borboletas e aves que seguem sempre a mesma rota de migração, nas tartarugas marinhas que dão voltas ao mundo e retornam para desovar na praia onde nasceram, nas abelhas que dão notícias à colmeia de um lugar onde existem bastantes flores com néctar, por puro instinto. Será que se fôssemos acostumados desde bebês não teríamos o mesmo “poder” de referência?

Aliás, fico curioso com os muçulmanos, que têm de rezar sempre virados para Meca. Precisa ter um senso danado de direção, de localização.

Mas o que vejo mesmo, no dia a dia, são pessoas sem a mínima ideia de onde é o norte, o leste… Eu, se não tiver o sol como referência, fico perdido. À noite, às vezes consigo localizar o Cruzeiro do Sul. Se não conseguir, fico perdido do mesmo jeito.

Mas meu amigo Gonzaguinha é muito pior. Uma vez foi conosco a Conservatória, um povoado na serra fluminense. Ficamos num hotel composto de alguns chalés em torno de uma pequena “praça”.

Conversador compulsivo, na primeira noite em que estávamos lá, antes de amanhecer escutei o Gonzaguinha andando de um lado para o outro, no meio dos chalés, de vez em quando falando sozinho.

Aí apareceu uma figura salvadora, um rapaz que foi varrer as folhas caídas durante a noite, na pracinha. Gonzaguinha puxou assunto com ele e ficaram conversando enquanto o rapaz varria. Então começou o nascer do sol. Gonzaguinha disse para ele em tom de admiração:

— Nossa! Aqui o sol nasce daquele lado?

O rapaz resmungou alguma coisa dizendo que era óbvio, e o Gonzaguinha, sei lá com que referência, disse como se isso fosse possível:

— Em São Paulo, nasce daquele outro…

Essa crônica é parte integrante da edição 57 da Revista do Brasil.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum