Blog do Rovai

Fórum Educação
17 de Maio de 2020, 08h34

A desistência de Freixo, no Rio, e a candidatura de Tatto, em SP, facilitam em muito o fortalecimento do fascismo

PT, PCdoB e PSOL, ao menos esses três partidos, precisam estar juntos em todas as cidades importantes do país. E precisam ter um programa conjunto para as cidades e a luta contra o fascismo. E só Lula pode e tem como achar saídas para que isso aconteça.

Foto: Ricardo Stuckert

A desistência de Marcelo Freixo à sua candidatura a prefeito no Rio de Janeiro pelo PSOL e a vitória de Jilmar Tatto na disputa interna do PT de São Paulo, que seu deu num colégio eleitoral de 611 dirigentes da máquina municipal, mostram que a esquerda não está levando a sério os desafios que se apresentam nesta eleição de 2020. E muito menos o quão complexo é enfrentar e derrotar o fascismo.

Freixo desistiu, entre outras coisas, como revelou em entrevista ontem para a Fórum, porque sofria oposição interna de seu partido no Rio de Janeiro, onde tendia a enfrentar uma prévia contra o deputado federal David Miranda e o vereador Renato Cinco, que se opunham a sua candidatura porque eram contra alianças que Freixo buscava. E por outro lado, a desistência de Freixo se deu por ele exatamente não ter conseguido construir esse arco de alianças.

Em São Paulo, a parte hegemônica da direção municipal do PT montou uma operação para fazer Jilmar Tatto candidato. E num jogo contra a democracia interna cancelou as prévias municipais que envolveriam milhares de pessoas e tentou chancelar seu nome num jogo de carta marcadas para 60 dirigentes. Com os protestos, aceitou fazer uma prévia envolvendo também apenas dirigentes, mas onde poderiam votar 620 nomes. Desses, 611 votaram. Tatto teve 312 votos e Alexandre Padilha, 297. Caso, 8 mudassem de lado, o candidato seria diferente.

Todo o argumento dos dirigentes do PT em São Paulo era que fazer uma prévia digital com todos os filiados era impossível (pasmem, ainda há quem acredite nisso em 2020) e que ao mesmo tempo não faria a menor diferença, porque Jilmar Tatto venceria em qualquer colégio eleitoral, pois tinha de 70% a 80% de apoio interno. O que se mostrou uma grande falácia usada apenas para impedir as prévias democráticas.

O que a insistência de David Miranda e Renato Cinco no Rio que levou Freixo a desistir de sua candidatura pelo PSOL e a forma como Jilmar Tatto se torna candidato a prefeito pelo PT em São Paulo mostram: que uma parte da esquerda está brincando com o fascismo e coloca suas idiossincrasias e projetos pessoais acima do interesse público.

Num momento desses, o campo progressista não lançar candidatos a prefeito nas principais cidades do país por frentes tão amplas quanto possível é de uma imensa irresponsabilidade. É abrir uma brecha enorme para não ir sequer ao segundo turno nessas cidades fazendo com que o eleitor tenha que decidir ao fim e ao cabo entre um candidato de extrema direita e outro de direita.

Mas qual seria a alternativa então? Ela ainda existe?

Sim, há alternativa e ela ainda existe. A eleição deve ser adiada no mínimo para dezembro, muito dificilmente ocorrerá em outubro por conta da crise do coronavírus. E mesmo que venha a ser me outubro, o prazo legal para a escolha de candidatos é em agosto e não em maio.

É possível fazer um grande encontro dos partidos políticos progressistas para discutir uma frente ampla em diversas cidades do país com o objetivo de a partir dos municípios criar base real para impedir que Bolsonaro se imponha e saia mais forte deste processo político.

Se Jilmar Tatto, provar que ele é o nome que consegue liderar essa frente em São Paulo, excelente. Ele deve ser o candidato em São Paulo. Se David Miranda ou Renato Cinco forem esses nomes no Rio, ok. Segue o jogo.

Mas se isso não ocorrer, não se pode fazer de conta que está tudo bem no país, que as pessoas estão vivendo dias de fartura, que não precisamos de prefeitos sérios, que tanto faz eleger o Crivella ou o Freixo no Rio de Janeiro. Ou que se Russomano vier a ser eleito a prefeito de São Paulo com o apoio de Bolsonaro isso também não é um problema. Como também não será se ele disputar um segundo turno contra Bruno Covas, cujo padrinho político é Doria.

Se em São Paulo, o PCdoB vier a lançar Orlando Silva; o PSOL, Boulos; o PSB, Márcio França; e o PT, Jilmar Tatto, nenhum deles vai para o 2º turno. Pior, não será surpresa para este blogueiro se nenhum vier a ter 10% dos votos. O mesmo no Rio. Se o PT sair com Benedita da Silva; o PSOL com Chico Alencar ou outro nome; o PDT com a delegada Marta Rocha; o PCdoB com Brizola Neto; e o PSB com Molon se dará o mesmo.

E se esse método de cada um por si prevalecer em São Paulo e no Rio, vai haver o mesmo em outras cidades Brasil afora. Porque o efeito pedra no lago acontecerá. Se onde mais importa os dirigentes nacionais não forem capazes de encontrar alguma unidade, porque seriam em outras cidades grandes e nas médias?

O fascismo avançará não por seus acertos, mas pelos nossos erros. E em 2021 vamos estar reclamando da sorte.

Para que isso não aconteça a eleição municipal das grandes cidades e também das médias não pode mais ser algo tratado de forma paroquial. É preciso, por exemplo, que no PT Lula e Haddad assumam o protagonismo que os eleitores petistas lhe deram em várias eleições. E que chamem um gabinete de crise junto com a presidenta Gleise pra impedir a tragédia que se avizinha.

Que no PSOL, aqueles que comandam o partido saiam em defesa de Freixo e retirem candidaturas sem expressão onde isso possa estar impedindo acordos que favoreçam a unidade no Rio. Que o PCdoB e seu maior líder, Flávio Dino, joguem tudo nesta frente e que deixem a cláusula de barreira ser exatamente o que ela é, algo menos importante do que combater o fascismo. Além disso, também é preciso insistir com Ciro Gomes e com Luppi para tentar trazer o PDT para dentro de chapas amplas onde for possível. Como também com o PSB, Rede e PV. Mas o núcleo duro dessas frentes tem que ser PT, PCdoB e PSOL. Esses três partidos precisam estar juntos em todas as cidades importantes do país. E precisam ter um programa conjunto para os municípios. Lula pode e tem como achar saídas para que isso aconteça.

Lula não tem como tocar isso sozinho, mas só ele pode abrir as portas em diferentes agremiações, como já fez em momentos anteriores.

Caso isso não ocorra, tudo aponta para um desastre eleitoral das esquerdas em 2020. Um resultado ainda pior do que o de 2016, porque o Bolsonarismo não estava tão forte naquele momento.

Engana-se redondamente quem vê a extrema direita mais fraca neste ano. Muito pelo contrário, ela nunca esteve tão forte e terá candidatos militares, policias e juízes, entre outros, em quase todas as cidades do país. Alguns com muita chance de vitória. O piso dessas candidaturas tende a ser os 30% do ótimo e bom de Bolsonaro. E se os partidos de esquerda que juntos conseguem ter mais ou menos esses mesmos 30% não se somarem, serão demolidos.

Perder feio nas grandes cidades as eleições municipais é tudo que o campo progressista não pode deixar acontecer neste momento por inação ou vaidades pessoais. É preciso mover as peças neste tabuleiro, antes que seja tarde demais. E antes que as pessoas tenham que fazer esses acordos na cadeia.

Assista ao meu comentário aí embaixo.


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