sábado, 24 out 2020
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A esquerda está preparada para responder a um governo Bolsonaro de caráter popular?

O pós-Guedes tende a construir um governo Bolsonaro que vai atuar nesta nova faixa. Um governo que terá a percepção política do centrão, que sabe como programas sociais do lulismo construíram hegemonia política para o PT e seus aliados, e ao mesmo tempo terá o olhar federativo dos militares

Há um movimento claro de fritura de Paulo Guedes por parte de Bolsonaro. O todo poderoso Posto Ipiranga já não é nada mais do que um jacaré banguela. Que sequer consegue dar entrevistas sem ser interrompido pelo seu colega de ministério, Luís Eduardo Ramos, e pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR).

Há algum tempo, quem dissesse que Guedes se submeteria a ser calado por um deputado do centrão e por um desconhecido milico seria tratado como lunático.

Quem também imaginaria que Guedes, o rei da arrogância, ficaria calado ao ser chamado de lunático pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia?

Como o rio corre para o mar esses movimentos indicam que há grandes chances de Guedes não comer o peru do Natal no cargo. E se isso acontecer, como será a segunda parte do mandato de Bolsonaro? Guedes mais ajuda ou atrapalha?

Essa é a grande questão que deveria fazer parte dos debates entre os progressistas. Se há chances de o governo Bolsonaro dar um cavalo de pau e tirar o time da ortodoxia neoliberal pra fazer um governo mais popular e se, porventura ele vier a fazer isso, como a esquerda se posicionará em relação ao seu novo modo de operar a política.

O auxílio-emergencial deixou claro que a esquerda não tem discurso para enfrentar um governo de caráter popular de Bolsonaro. Se porventura ele vier a fazer um grande projeto de privatizações e desmonte do Estado, tirando recursos da Educação, da Saúde e do funcionalismo, entre outros lugares, pra criar programas de benefícios de renda, como tratar isso?

A esquerda vai criticar os programas? E como vai conseguir fazer isso na base, no olho no olho com o povo? Como vai dizer que o país não deve abrir mão dos seus cientistas e da universidade pública para financiar um programa que entregará 300 reais para mais alguns milhões de pessoas?

Será este o busílis da coisa na hora em que o debate vier a se impor.

O pós-Guedes tende a construir um governo Bolsonaro que vai atuar nesta nova faixa. Um governo que terá a percepção política do centrão, que sabe como programas sociais do lulismo construíram hegemonia política para o PT e seus aliados, e ao mesmo tempo terá o olhar federativo dos militares, que não deixarão o governo se isolar no Sul e no Sudeste.

O desafio da esquerda para enfrentar Bolsonaro neste segundo tempo (2021/2022) do seu mandato pode vir a ser ainda mais complexo. As cartas podem vir a ser misturadas de tal forma, que as classes médias dos grandes centros se tornem mais anti-bolsonaristas e os setores populares dos rincões e mesmo das metrópoles, apoiadores do seu projeto.

Será que os partidos progressistas têm discurso para este novo público? Ou vão ignorar as classes médias e tentar convencer os mais pobres de que não haverá amanhã apenas com esses benefícios?

O pós-guedismo não será tão simples como parece. O governo Bolsonaro pode se tornar mais sofisticado. E por isso passar a discuti-lo é uma tarefa daqueles que querem fazer a disputa acerca do destino do Brasil. Ainda não é tarde para começar, mas tão pouco é cedo.

Tá mais do que na hora de a esquerda ampliar seus laços com o povão, mas também abrir as portas para uma nova fase de relacionamento com as classes médias. Elas podem vir a ser o fiel da balança no pós-guedismo.

Renato Rovai
Renato Rovai
Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.