Análise da Pesquisa Fórum: O favoritismo de Bolsonaro se esfarelou com apenas um discurso de Lula

Lula dispara e vira o jogo ao avançar entre mulheres, jovens, setores populares e no Nordeste

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A 8ª Pesquisa Fórum realizada de 12 a 16 de março cai como uma bomba atômica na estratégia de reeleição de Bolsonaro. Lula que tinha 16,1% em novembro passou para 31,2%, praticamente dobrando suas intenções de votos. Bolsonaro que tinha 35,2% caiu para 30,7%. Isso no cenário com apenas quatro candidatos. Sendo os outros dois Ciro Gomes, 7,4%, e João Doria, 6,4%.

Fórum simulou um cenário assim, porque há muita gente que avalia que o centro pode tentar se unir em uma ou duas candidaturas. Não é algo fácil, como sinalizou em entrevista ao Estado de S. Paulo de hoje o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

Neste cenário, a polarização se dá completamente entre Bolsonaro e Lula que amealham 62% dos votos totais disponíveis.

No cenário com mais candidatos, tanto Bolsonaro quanto Lula perdem uma pequena porcentagem de votos, Bolsonaro passa a liderar na margem de erro com 29,2%, Lula tem 27,1%, Sergio Moro, 7,8%, Luciano Huck, 6,8%, Ciro Gomes, 6,1%, João Doria, 4,9%, João Amôedo, 1,6%, Guilherme Boulos, 1,5% e Flavio Dino, 0,2%. Os que não votariam em ninguém são 14,6%. Neste cenário, Lula e Bolsonaro concentram 56,3% dos votos totais.

No segundo turno, Lula é o único que vence Bolsonaro, contrariando as teses de que o antipetismo seria um empecilho para derrotar o atual presidente. Lula teria 38% contra 33,8% de Bolsonaro.

As mulheres são decisivas para a vitória do ex-presidente. Entre elas 45,6% votariam em Lula e apenas 24,6% em Bolsonaro. Entre os homens, 29,4% dizem que votariam em Lula e 44,1% em Bolsonaro. Um país dividido, neste caso não em regiões, mas em gêneros. O discurso violento de Bolsonaro parece cair como uma luva no machismo tóxico da maior parte dos homens brasileiros. Lula vai ter de encontrar um gancho para dialogar com este segmento.

O que parece que Lula já encontrou foi um bom diálogo com a juventude. A despeito de o PT ser considerado um partido envelhecido, com baixo índice de renovação de suas lideranças, por muitas analistas políticos, é nesta faixa etária que o petista vai melhor.

Entre 16 e 24 anos, 51,9% votariam no petista e 24,6% em Bolsonaro. Entre 25 e 34 anos, 51,1% votariam em Lula e 30,5% em Bolsonaro. De 35 a 44 anos, Lula tem 40% e Bolsonaro, 34,2%. Ou seja, nas faixas até 44 anos Lula lidera em todas, sendo que vai melhor quanto mais jovem é o eleitor. Curiosamente boa parte dessas pessoas não viveram os anos Lula, de 2003 a 2010, mas podem estar sendo influenciados por irmãos e amigos mais velhos ou mesmo pais na faixa dos 40 que foram beneficiados pelas políticas sociais do petista.

O ex-presidente Lula também tem maioria entre os com mais baixa escolaridade, 47,2% dos que têm ensino fundamental votariam em Lula e 30,2% em Bolsonaro. E entre quem ganha até dois salários mínimos, 48,2% votariam em Lula e 27% em Bolsonaro. Isso mostra que ele já capturou boa parte do voto popular que se convencionou chamar de base lulista. Bolsonaro chegou a ter este voto por um período por conta do auxílio emergencial, mas a volta de Lula ao jogo com a recuperação da sua elegibilidade fez esse grupo olhar de novo para o ex-presidente como alguém que pode melhorar sua vida.

Do ponto de vista regional, o Nordeste continua sendo a principal base eleitoral do petista. Ele tem 54,6%, contra 27,7% de Bolsonaro. Isso será um grande empecilho, por exemplo, para a candidatura de Ciro Gomes, cuja base principal também seria o Nordeste. Os altos índices de Lula devem fazer muitas lideranças regionais que poderiam ir para o palanque do pedetista, abandonarem essa ideia. O PSB, por exemplo, que tem vários governos na região, dificilmente fará uma aliança com Ciro no primeiro turno. Não será surpresa para este blogueiro se com Lula na disputa, Ciro Gomes vier a ter uma votação menor do que na eleição de 2018.

A eleição de 2022 ainda está muito distante, mas a Pesquisa Fórum traz muitos elementos para análises sobre o significado de ter Lula como candidato. Essa pesquisa foi realizada entre os dias 12 e16 de março, após o discurso da volta de Lula. Mas como apenas 70% das pessoas ficaram sabendo da mansão comprada por Flávio Bolsonaro, que se deu antes da elegibilidade de Lula, pode ser que muita gente também não tenha tido a informação completa sobre a volta do petista ao cenário eleitoral. Se isso for verdade, Lula ainda tem potencial para crescer na sua base tradicional, os de baixa escolaridade e de menor renda, e com isso ampliar no próximo período a sua vantagem em relação ao atual presidente.

O fato concreto é que o que era vidro se quebrou. O favoritismo de Bolsonaro para 2022 já se esfarelou com apenas um discurso de Lula.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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