Blog do Rovai

01 de janeiro de 2015, 14h03

2018, o ano que não começou

Há uma frase cujo autor este blogueiro desconhece muito repetida por analistas políticos: uma eleição começa quando a outra termina. Como se o intervalo entre uma disputa e outra fosse apenas um espaço para rearticulação de forças e de projetos. Como se os governos que se iniciam e seus resultados não tivessem condições de impactar profundamente nos resultados políticos futuros.

Em 1990, quando Collor assumiu todos o imaginavam como condutor de sua sucessão e o ex-presidente nem concluiu o mandato, que seria encerrado por Itamar Franco, que ninguém imaginava com capacidade para ser o maior eleitor de 1994.

Em 1995, Fernando Henrique assumiu a presidência da República, derrotando Lula já no primeiro turno, sendo que se tivesse sido candidato a prefeito de São Paulo em 1992 não teria provavelmente ido nem ao segundo turno em eleição que foi vencida por Paulo Maluf, que se reposicionou novamente como um nome para disputas futuras.

Ao ver seu ex-colega de Senado assumir o cargo de presidente, o governador eleito do estado de São Paulo, Mário Covas, provavelmente não contava com a vergonhosa emenda da reeleição que o impediu de disputar a eleição presidencial de 1998. Nem tampouco Lula e nenhum outro político da oposição ou da então situação imaginava algo neste sentido.

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Como também não se imaginava que em 2002, ao invés de ser um grande eleitor, Fernando Henrique seria um fardo para o candidato que viesse a defender o legado da situação. Serra foi mais o candidato do medo de Lula do que da continuidade de FHC.

Nos círculos tucanos, todos tinham certeza no início de 2003 que Lula e o PT fariam um governo desastroso. E que em 2006 a eleição seria uma barbada. Já no PT, os olhos se voltaram cedo para 2010, para o pós-Lula. E a disputa entre Palocci e Zé Dirceu por espaço no governo ganhou o sentido da sucessão do ex-metalúrgico.

Quando se elegeu governador de São Paulo em 2006, o agora senador José Serra já começou a se preparar para a disputa presidencial de 2010. E passou a ser tratado como virtual presidente da República por boa parte da mídia tradicional. Dilma era nada mais do que um azarão. E muitos davam como certa uma emenda de reeleição sem limites para que Lula pudesse disputar mais uma.

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Quem imaginaria no auge da campanha das Diretas Já, que quando o Brasil fosse votar pela primeira vez pra presidente da República, Ulysses Guimarães teria uma votação pífia.

Como o leitor já deve ter percebido, as análises que serão feitas a partir de hoje projetando 2018 tem tanta validade quanto as que poderiam ser feitas sobre a sucessão do Papa. Elas servem mais para alimentar especulações do que para de fato prever algo. Dizer que Alckmin e Aécio vão disputar a candidatura dentro do PSDB e que Lula se estiver bem de saúde será o candidato do PT é simplesmente registrar o óbvio. E isso não quer dizer que esse cenário não possa vir a se confirmar, mas política não se gerencia em planilhas de Excel, porque ela também é movida pelo imponderável. Não leve a sério aqueles que já começam a falar em 2018. Não há análise séria que possa ser feita agora sobre uma eleição tão distante. Afora o fato que 2015 deve ser um longo ano, que pode mudar todo o cenário político futuro. Tanto as investigações da Operação Lava Jato quanto a crise hídrica de São Paulo não são eventos comuns. E tem potencial imenso para alterar o rumo do que hoje parece provável.

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Foto de Capa: Brasilia, 01/06/1984 – Arquivo/CB. Ulysses Guimaraes durante comicio pelas Diretas Já, na Torre de TV.


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