Blog do Rovai

03 de fevereiro de 2016, 18h17

Bernie Sanders e o legado do Occupy Wall Street

Sanders é um antigo defensor do chamado socialismo democrático, mas é inegável que aquele movimento de ocupação em 2011 propiciou o espaço necessário para que suas ideias fossem ouvidas hoje com muito mais atenção

Sanders é um antigo defensor do chamado socialismo democrático, mas é inegável que aquele movimento de ocupação em 2011 propiciou o espaço necessário para que suas ideias fossem ouvidas hoje com muito mais atenção

Por Glauco Faria

Quando o movimento Occupy Wall Street surpreendeu o mundo em setembro de 2011, diversos críticos repetiram um discurso já utilizado em relação a muitos outros movimentos horizontais ou formados majoritariamente por jovens. Para eles, a ocupação não teria consequências por, a princípio, não apresentar “propostas” ou alternativas ditas concretas para alterar a realidade denunciada nos protestos, centralizada na contestação ao 1% da população que impunha um modelo – e uma crise global produzida a partir dele – para os outros 99%.

Não entendiam que um dos primeiros objetivos era trazer à tona uma pauta invisibilizada, uma engrenagem que para muitos era oculta e que precisava ser debatida. E combatida.

Em fevereiro de 2012, Immanuel Wallerstein enxergava quais poderiam seras contribuições daquele movimento. “Quanto ao futuro, pode ser que o movimento tenha força em momentos específicos. De duas coisas ele pode ser capaz: forçar uma revisão rápida das medidas reais do governo para minimizar a dor aguda que as pessoas estão obviamente sentindo; e transformar, a longo prazo, a visão de largos segmentos da população norte-americana sobre as realidades da crise estrutural do capitalismo e as grandes transformações geopolíticas que estão ocorrendo, por vivermos hoje em um mundo multipolar.”

Ao que parece, hoje diversos segmentos da população dos EUA já enxergam o mecanismo que move e promove a crise do capitalismo em seu país. A medida disso é o sucesso da pré-candidatura do senador de Vermont Bernie Sanders à presidência pelo Partido Democrata. Suas propostas e seu discurso têm muito em comum com os ideias do Occuppy e mostram que, ao contrário do que muitos pregaram na ocasião, ele deixou um legado.

Aliás, à época, Sanders já saudava aquele acontecimento. “Precisamos desesperadamente que os trabalhadores venham junto para enfrentar Wall Street. Os americanos estão dizendo que ‘já deu’ (“enouh is enough”, expressão repetida por ele em sua campanha). Precisamos reconstruir a classe média neste país e vocês (o 1%) não podem ter tudo.”

Ou seja, o Occuppy conseguiu “mudar a conversa”, como aponta a professora da Universidade de Princeton Susana Draper. “De acordo com a indicação de vários estudos, devido à falta de perspectivas de emprego, dívida e insegurança, o ambiente cultural e ideológica da chamada ‘geração do milênio’ aponta para um claro abandono dos temores herdados do macarthismo, dando lugar a pontos de vista políticos muito mais aberto. Além de Iowa e New Hampshire, e além da eleição de novembro, podemos estar frente a uma mudança tectônica muito mais profunda na sociedade americana, e continuará a ter efeitos nos próximos anos.”

Sanders é um antigo defensor do chamado socialismo democrático, mas é inegável que aquele movimento de ocupação em 2011 propiciou o espaço necessário para que suas ideias fossem ouvidas hoje com muito mais atenção. Ver, por exemplo, o discurso do senador após seu belo desempenho em Iowa é reconhecer diversos traços dos manifestantes de pouco mais de quatro anos atrás. “O motivo pelo qual nos demos tão bem em Iowa e o motivo pelo qual creio que nos daremos muito bem em New Hampshire e nos estados seguintes é que a população dos Estados Unidos está dizendo ‘não’ a essa economia viciada. Ela não quer mais ver uma economia na qual um cidadão comum trabalhe cada vez mais horas por salários menores enquanto quase toda a nossa riqueza vai para o 1% de cima”, disse.

O próprio formato da campanha de Sanders também reflete a rejeição ao chamado 1%, já que ele se recusa a elaborar um Super PAC, comitê formado por grupos políticos independentes para arrecadar recursos para candidaturas. Sua campanha se baseia em doações individuais, que já chegariam amaisde 3,5 milhões hoje. “Nós não podemos mais ter um sistema corrupto de financiamento de campanha”, afirmou.

Isso permite, entre outros pontos, que ele possa bater de frente com grandes corporações ao defender um modelo econômico sustentável do ponto de vista social e ambiental,com mudança da matriz energética (ao contrário de parte dos republicanos que negam as mudanças climáticas) e a instituição de um imposto sobre Wall Street para financiar ações como a garantia de ensino superior gratuito para os jovens dos EUA.

Sanders, mesmo com as contradições inerentes a qualquer um e ainda que não consiga derrotar a poderosa máquina político-financeira de Hillary Clinton, mantém a chama da indignação do Occupy acesa. E aponta para um futuro que as novas gerações projetam de uma forma bem diferente do 1% que se acha eterno.

Na Espanha, o 15 M produziu o Podemos; na Grécia, as revoltas populareslevaram o Syriza ao poder e agora, nos EUA, surge Sanders com um discurso que casa com os ideais do Ocuppy. No Brasil, uma parte das ruas de junho já está se articulando via Movimento Brasil Livre e outros agrupamentos de direita, buscando a inserção na estrutura partidária e projetando possíveis candidatos. Por enquanto, ainda há um vácuo nesse campo institucional para representar o discurso mais à esquerda daquele movimento de 2013. E como em política não existe espaço vazio, algo novo pode estar prestes a surgir.

Foto de capa: Disney | ABC Television Group


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