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12 de dezembro de 2010, 21h37

Cursinho da Poli: A história de Marivaldo me fez lembrar do André

No sábado li a matéria que segue, publicada na Folha de S. Paulo. É um depoimento emocionante de Marivaldo Castro Pereira, 31 anos. Hoje secretário nacional da Reforma do Judiciário, Marivaldo cresceu num barraco de madeira, catou resto de comida no fim de feira, teve  pai alcóolatra e conseguiu, com essa história de vida, fazer Direito no Largo São Francisco (USP). Sua vida mudou, entre outras coisas, porque estudou, em 1997, no Cursinho da Poli.

Se não tivesse vivido aquele momento histórico do Cursinho da Poli, já teria me emocionado com o texto. Mas naquele tempo eu editava a Revista do Cursinho, um veículo que fazíamos anualmente.Foram os anos de ouro do Cursinho da Poli.

À época o coordenador do projeto era o André Luís Miranda Leite, um amigo com quem cresci e sonhei um mundo melhor na minha adolescência em Praia Grande.

O André é um dos caras mais brilhantes da minha geração. Um líder nato e inteligentíssimo. Faz um tempo que voltou pra nossa cidade e anda meio que num sabático por conta de problemas de saúde. Uma pena.

O que ele fez, no Cursinho da Poli, junto com muitas outras pessoas idealistas,  foi algo fantástico. Um dia alguém ainda vai ter que contar essa história, de um projeto social que transformou a vida de alguns milhares de jovens, como Marivaldo.

Não deixem de ler este texto. Aproveito para parabenizar o jornalista Uirá Machado pela sensibilidade.  

Da favela à Esplanada

Marivaldo de Castro Pereira, 31, cresceu em um barraco de madeira numa favela de São Paulo, catou resto de comida no fim da feira, trabalhou desde os nove anos de idade, conseguiu entrar na Faculdade de Direito da USP após estudar apenas em escolas públicas, fez mestrado também na USP e, desde o dia 2 de setembro deste ano, é o secretário nacional da Reforma do Judiciário.

(…) Depoimento a
UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO

Às vezes, voltando da escola com os colegas, eu encontrava meu pai caído no caminho de casa, bêbado. Isso dava muita vergonha.
Meu pai tinha problema com álcool, batia na minha mãe. Ele torrava tudo com bebida e não deixava minha mãe trabalhar. Às vezes a gente tinha que pegar resto de comida no fim da feira.
Tudo isso aconteceu já em São Paulo, mas eu nasci em Brasília. Meus pais são de uma cidade chamada Correntina, no interior da Bahia.
Eles vieram para Brasília em 1977 em busca de emprego, e eu nasci dois anos depois. Meu pai começou a trabalhar como pedreiro. Quando tiveram o quarto filho, a vida ficou difícil, então eles decidiram tentar São Paulo. Eu tinha quatro anos.
Meu pai conseguiu um barraco num terreno em Pirituba [periferia de São Paulo]. Era um barraco mesmo, de madeira, precário. Eu só fui morar numa casa de alvenaria depois que meus pais se separaram e me mudei com a minha mãe para o Jaraguá [também na periferia de SP].
Eu tinha oito anos. Minha mãe começou a trabalhar de diarista para sustentar os quatro filhos. Ela sempre foi trabalhadora e colocava a gente em primeiro lugar.

TRABALHO
Comecei a trabalhar com nove anos, na feira. Foi um período bacana, porque eu tinha autonomia para comprar alguma coisinha.
Eu trabalhava e estudava. Minha mãe nunca admitiu que a gente não estudasse. Todos os meus irmãos conseguiram concluir o ensino superior. Minha mãe é bem orgulhosa -ela só completou ensino básico e médio quando eu já estava na faculdade.
Como eu estudava em escola pública, não tinha perspectiva de entrar em uma universidade. Tinha professor que dizia: “Vai tentar a USP? Esquece, compra um jeans que é mais vantajoso”.
Antes da faculdade, trabalhei numa fábrica de acendedor de fogão, depois como ajudante de pedreiro, como contínuo em uma farmácia, como “boy” interno numa concessionária de veículos.
Foi na concessionária que ouvi falar do Cursinho da Poli [pré-vestibular voltado para alunos carentes]. Trabalhava das 8h à 18h e depois ia para o cursinho. No segundo semestre de 1997, comecei a trabalhar das 6h às 15h. Chegava mais cedo na aula e cochilava um pouco.
Quando veio o vestibular, tomei uma porrada. Não passei, fiquei muito mal. O que me ajudou foi o rap, sobretudo os Racionais MC’s. A música que mais me marcou foi “Negro limitado”.
Para levantar a cabeça, ouvi rap e prometi não dormir mais antes da aula. Eu acordava às 5h30, trabalhava das 6h às 15h, estudava e chegava em casa depois da meia-noite. Foi assim o ano inteiro, mas valeu a pena.

UNIVERSIDADE
Entrar na USP mudou minha vida. Ninguém imagina o que é entrar na universidade pública quando você vem da periferia. É um outro mundo, muitas portas se abrem.
A escolha pelo direito eu fiz no cursinho. Estava em dúvida, porque gostava muito de engenharia mecânica, mas a militância política direcionou minha opção. Busquei o direito porque achava que poderia ajudar a transformar a sociedade.
Na faculdade, eu me sentia um estranho no ninho, eu tinha preconceito e também sofria preconceito, mas aos poucos fui me enturmando.
A minha turma quis se dar um nome. A gente formou o “100% Favela”, com camiseta e tudo. Não eram todos da favela, só alguns, mas aquilo era legal, era uma provocação para a galera mais esnobe da faculdade. Minha ideia era politizar todo mundo.
Na vida acadêmica, me envolvi com política estudantil e trabalhei assessorando movimento de moradia. Trabalhei com José Eduardo Cardozo, que era vereador [pelo PT] naquela época [agora escolhido para ser ministro da Justiça no governo Dilma].
Ao sair da faculdade, tentei advogar, mas foi um desastre. Eu só advogava para gente pobre e acabava pagando para trabalhar.
Em 2005, voltei para Brasília, onde tudo começou. Quem me chamou foi o Pierpaolo [Bottini], quando virou secretário da Reforma do Judiciário. A gente se conheceu na faculdade, atuando no movimento de moradia.
Assumi o Departamento de Política Judiciária, depois a sub-chefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil e, agora, a Secretaria Nacional da Reforma o Judiciário.
O grande objetivo é aproveitar a experiência que eu tive na Casa Civil e aproximar a política de acesso à Justiça das demais políticas sociais.
A minha história me permite entender o sofrimento das pessoas com pouco dinheiro e compreender que toda política pública precisa levar os mais pobres em consideração. A vida de quem está na pobreza é muito difícil. Quem nasceu com dinheiro nem imagina quanto é difícil.


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