Dacar à noite tem cenário de ensaio sobre a cegueira

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Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos foi Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Devo tê-lo lido próximo de sua publicação, em 1995. [caption id="attachment_9951" align="alignleft" width="226" caption="Crianças posam pra foto na visita a uma favela de dacar"]Crianças posam pra foto na visita a uma favela de dacar[/caption] O Brasil vivia um tempo duro, de implementação de políticas neoliberais radicais e a miséria imperava em muitos cantos do país. Miséria que em 1998 ganhou contornos cruéis com a seca no Nordeste que trouxe ao noticiário jornalístico cenas de milhões de brasileiros à beira da morte por conta da fome. Seca que foi, inclusive, noticiada como trágica por órgãos de imprensa que parecem ter se esquecido como era a dramática a vida de milhões no Brasil Bolsa Família. Vale à pena dar uma lida nesta reportagem da Revista Veja. Acabo de voltar de um passeio noturno pelas ruas de Dacar. A cidade me lembrou demais o cenário que imaginava ao ler Ensaio Sobre a Cegueira. No Senegal, a falta de luz é uma constante. Segundo os senegalenses que entrevistei e conversei, Dacar, que é a capital do país, não tem luz nem na metade do dia. No interior a situação seria ainda pior. Isso faz com que todos os melhores hotéis tenham geradores próprios e leva as empresas que não quiserem ter graves problemas na produção a fazer o mesmo. Como nas residências isso não é possível, em geral as noites são escuras em muitos lares. Do ponto de vista público a situação é ainda pior. É difícil ver a luz de um poste acessa e isso faz com que as ruas, mesmo centrais, sejam iluminadas apenas pela claridade da lua. Numa situação normal, a situação poderia até se tornar romântica. Mas Dacar é uma cidade com alto índice de miséria e de desorganização social. Pessoas dormindo nas calçadas e lixo acumulado em todos os cantos tornam o cenário muito parecido com o que construía enquanto lia o que considerei o melhor livro que li de Saramago. A falta de iluminação, no entanto, não torna as ruas de Dacar inseguras. É possível caminhar por elas com tranqüilidade e sem se sentir ameaçado. Mas ao mesmo tempo essa escuridão e os olhos pobres que saltam das calçadas envoltos em trapos nos levam a refletir sobre os destinos da África. Há muito tempo o continente vive num cenário de Ensaio sobre a Cegueira. Uma cegueira coletiva imposta primeiro pela dominação européia que estimulou guerras locais para fortalecer o comércio de prisioneiros para a América. Ou seja, para que a escravidão pudesse ser realizada com a ajuda de etnias locais. Uma pratica ultra-capitalista que não só levou à diáspora milhões de negros, como calcula-se que tenha levado à morte aproximadamente 100 milhões deles. Enquanto isso acontecia o continente também ia sendo dilapidado das suas riquezas naturais. E as metrópoles que hoje rejeitam a imigração dos ex-dominados se esquecem que enriqueceram a custa da miséria local. Hoje, a África é independente. Mas isso não é uma conquista antiga. No Senegal, por exemplo, é coisa de 50 anos. Em Angola, de 35 anos. E de alguma forma a independência parece que veio sem a libertação. Muitos dos países africanos vivem sob ditaduras ou em esquemas pseudo-democráticos. Em quase todos a sociedade civil ainda é muito insipiente. Mas algo parece estar acontecendo. Aqui em Dacar, por exemplo, quase todo mundo com que conversei sabia do FSM. E em geral entendeu a sua mensagem . Agora há pouco mesmo, um atendente de uma farmácia disse que se tratava de um movimento a favor dos fracos. Interessante resposta. Ela fala de lados. De fortes e fracos.  Mais interessante ainda porque parece ser coletiva e está dentro de um contexto que levou à lona  ditaduras no Egito e a Tunísia. Quase todos têm falado que se trata de uma revolta no mundo árabe e pouco se tem dito que são países cravados no continente africano. A África pode estar começando um novo processo. Um processo que ela precisa viver. De uma libertação que venha das ruas. Que ainda estão escuras e miseráveis.