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08 de dezembro de 2013, 15h44

Decifra-me ou devoro-te: Haddad e a esfinge da comunicação

Quem erra na comunicação pode acertar na política que os resultados não virão na proporção que deveriam. Mas a recíproca não é verdadeira. Não basta acertar na comunicação

 

Declarei apoio a Haddad para prefeito de São Paulo e o fiz com a convicção de que era necessário derrotar o projeto político de Serra e Kassab. A cidade merecia algo melhor. E não me arrependo da decisão tomada.

Segundo as recentes pesquisas de opinião, porém, boa parte dos eleitores que fizeram essa opção já não pensa da mesma forma que este blogueiro. Há um desencanto em relação a atual gestão se cristalizando e o homem novo estaria envelhecendo muito rapidamente.

Haddad ainda tem muito tempo para dar a volta por cima, mas a primeira coisa que precisa acontecer no conjunto do governo é o reconhecimento de que algo vai mal e de que há necessidade de ajustes. Não basta reclamar do passado. É preciso sinalizar melhor o que está sendo mudado no presente e ir apontando claramente o que se está fazendo para melhorar o futuro.

Como fazer isso de forma adequada passa pela comunicação do governo, mas não só. O setor, porém, passou a ser criticado como se fosse o responsável por todos os problemas da gestão. Isso não é incomum. Quando uma administração vai mal, a culpa é da comunicação. Quando vai bem, ela é apenas um detalhe.

Em geral, isso acontece por dois motivos. O primeiro, porque de fato vivemos num momento onde comunicar de forma correta é essencial. Quem erra na comunicação pode acertar na política que os resultados não virão na proporção que deveriam. Mas a recíproca não é verdadeira. Não basta acertar na comunicação. É preciso acertar na política para que um governo dê certo. E os colegas não costumam dizer isso com clareza. Ao contrário, vendem terrenos no céu e fórmulas mágicas para candidatos e governantes. O que gera expectativas inalcançáveis.

Governos precisam de direção, de um líder, de projeto claro, principalmente se forem de esquerda ou centro-esquerda. Porque terão de enfrentar polêmicas para transformar a realidade daqueles que mais precisam do Estado. E isso inevitavelmente desagradará grupos econômicos, setores corruptos e também a mídia tradicional.

Ou seja, um governo de esquerda e centro-esquerda terá de quebrar alguns ovos. E aí que entra a comunicação. Para se comunicar com a população ele não pode ser refém dessa mídia que defende o estabilishment. E mais do que isso, não pode mais fazer comunicação apenas pensando em publicidade e assessoria de imprensa. Ou seja, trabalhando no âmbito dos mediadores.

Vivemos numa sociedade em redes conectadas digitalmente, em especial nas grandes cidades. Num momento, ao contrário do que alguns imaginam, onde nunca se discutiu tanto política em espaços públicos abertos e onde não há a necessidade de que se peça licença para se dizer o que pensa. Num tempo de abundância de informação e de debates. Onde ninguém precisa da autorização de jornais e emissoras de TV e rádio para se constituir em referência informativa.

Ou seja, em um cenário desses fazer política se comunicando mal ou fazendo-o apenas da forma tradicional com base em parâmetros ultrapassados é quase um politícidio. Essa é a questão que parece mal compreendida e da qual já tratei num outro post. Não se pode mais fazer comunicação pública apenas na lógica do marketing. 

O marketing é uma ferramenta importante, mas cada vez ocupa um espaço menor no debate político. As pessoas querem poder conversar acerca das questões que lhes tocam. E o marketing se ocupa de um discurso unidirecional. Só de ida. E um governo que preza pela democracia deveria ampliar esses espaços de diálogo, de vai e vem, investindo na construção de ferramentas que aproximassem cada vez mais a população das informações e das decisões.

A comunicação, neste caso, passaria a ser uma política. E não apenas uma ferramenta do sucesso.

Essa é a esfinge do hoje que tem devorado muitos governantes que pensam que basta trabalhar pensando em como melhorar a sua imagem pela via tradicional. E que para realizar isso gastam volumosas quantias de recursos públicos com publicidade que, às vezes, geram resultados imediatos, mas não constroem um legado que permita novas interações e construções políticas capazes de superar o é dando que se recebe do setor.

No caso da gestão Haddad nem esses resultados mais pontuais de ganho de imagem estão sendo conquistados na lógica do velho modelo. E isso tem relação com o novo que ele representa no imaginário de boa parte das pessoas que lhe confiaram seu voto. Foi o novo Haddad que ganhou. O homem que ousaria novos formatos de relação com sua cidade. Uma cidade repleta de problemas e carente de participação.

A boa iniciativa do Conselho Participativo que está ganhando forma na eleição de hoje na cidade de São Paulo precisa ser incorporada não como mais uma formalidade administrativa. Mas como uma política de comunicação com a cidade, que pode ser ampliada com formatos interativos digitais.

De uma cidade que parece querer participar e está cansada da velha política, mas que ao mesmo tempo é desconfiada e que não parece acreditar que a superação dos seus problemas passe por maior participação. 

É sim contraditório. Mas, compreensível. São Paulo é um arquipélago. Um amontoado de ilhas distintas e muito semelhantes. E nela, como na teoria, é nas contradições que se produz a síntese. A síntese do hoje é muito desfavorável para o governo municipal. Mas a cidade ainda não produziu juízo. Está apenas apontando que há necessidade de ajustes. E que ela quer entender melhor o que está acontecendo.

Neste caso não há como não se voltar para a comunicação. É, sim, neste setor que se precisa construir os canais para que os paulistanos entendam melhor os caminhos que estão sendo trilhados. E é na construção desses canais que se decifra a esfinge ou se é devorado. Pode se encher as burras dos meios tradicionais com publicidade ou se tentar o novo, buscando outras formas e formatos de diálogos. Muito mais democráticos, amplos e criativos. Muito mais novos. Muito mais próximos do discurso do homem novo que ganhou a eleição.


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