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03 de fevereiro de 2011, 15h36

Eu vi a Bahia no Senegal que me pergunta do Lula

Centro de Mídia: miadialivristas compartilham um prato de arroz e peixe

O primeiro contato de um viajante para um novo destino costuma se dar no meio de transporte. Pensei nisso no momento em que olhei ao redor na aeronave que me transportava de Madrid a Dacar e na seqüência recordei-me da primeira vez que fui à Bahia. Estava com o meu amigo Wilson Molinari, parceiro de boa parte das minhas primeiras viagens.

Partimos num ônibus da companhia São Geraldo, repletos de sonhos e empolgação. Wilson, violonista de primeira desde sempre, animava a galera a partir das duas últimas poltronas estrategicamente escolhidas para esse fim.

Claro que não havíamos levado em consideração de que se tratava de uma viagem longa e que o banheiro era o nosso vizinho de viagem.

Mas isso não foi um problema, até música tratando da situação fizemos. E o ônibus inteiro cantava e sabia de cor.

O São Geraldo quebrou umas três vezes pelo caminho naquela viagem.

E isso não tornou a viagem tensa ou infernal. O espírito baiano daqueles anos 80 estava presente: tranqüilidade, bom humor, improviso, camaradagem.

Foi uma viagem inesquecível. A Bahia não mais me deixou desde aquele janeiro de 1987.

Mas por que a Bahia, se estou na África? Mas por que a Bahia se estou no Senegal? Mas por que a Bahia se estou em Dacar?

Ao entrar no avião tive que percorrê-lo quase por inteiro porque nossas poltronas eram no fundo da aeronave. E olhando uma a uma os assentos que deixava para trás, percebia que a grande maioria dos passageiros era negra.

Só mesmo num vôo para África isso poderia acontecer, pensei.

E imediatamente me recordei da viagem para a Bahia. E da lição que tinha aprendido naqueles dias: a viagem começa ainda no meio de transporte.

No avião comecei a puxar conversa com um senhor que estava na poltrona ao lado. Senegalês que mora na França há quase 30 anos ele me contou um pouco de sua história de vida enquanto falava da cultura do país natal.

Em poucos minutos a conversa se estendeu para outros vizinhos de poltrona e saímos do avião dividindo um táxi com uma dessas pessoas. Uma mulher de uns 30 anos que trabalha com turismo, o grande produto de exportação do Senegal.

Aliás, quase tudo que aqui se consome é importado. Boa parte da ex-colonizadora França.

Aliás, o produto que concorre com o artesanato nas abordagens de vendedores de rua são os cartões da Orange, empresa francesa de telefonia celular.

Garotos ficam nas portas de hotéis e nos lugares freqüentados por turistas, com roupas rasgadas e sem a menor condição de trabalho, buscando ganhar algum trocado e fazendo ampliar os lucros da transnacional.

Mas se você sair com uma camisa da seleção da Espanha, como fez este blogueiro que antes havia passado por Madrid, alguns desses mesmos garotos vão arriscar palavras em castelhano. Outros, vão começar a falar fluentemente o espanhol. E se você vier a responder em inglês, quase com certeza terá respostas no idioma. Em Dacar muita gente fala além do francês, inglês e mesmo o espanhol.

Evidente que ainda existe a possibilidade de se dizer que é brasileiro e fazer de conta que não se entende nenhuma daquelas línguas para poder escapar das muitas abordagens, que são comuns em lugares turísticos com comunidades pobres.

Mas dizer que é brasileiro não é exatamente a melhor forma de driblar o vendedor senegalês. Ele vai arriscar uns dois nomes de jogadores (em geral, um deles é Ronaldinho) e depois vai falar sabe o quê? Pasmem, Lula.

Quando ouvi um garoto de uns 15 anos falando o nome do ex-presidente da República brasileiro, pensei não ter entendido direito. Mas a cena se repetiu depois mais umas três ou quatro vezes. E outros brasileiros me confirmaram que também tinham vivido situação semelhante.

Aliás, o ex-presidente Lula vai estar numa mesa do FSM, no dia 7, das 12h30 às 15h30. O tema: “A África na Geopolítica Mundial”. Além de Lula, participarão deste evento o presidente do Senegal, Abdou Layewade, e  Taoufik Ben Abdallah, do Conselho Africano e do Internacional do Fórum Social Mundial. O mediador será Demba Moussa Dembele (Fórum Social Africano).

Ainda é muito cedo pra dizer o que estou achando do Senegal ou mais especificamente de Dacar. Há muito o que aprender por aqui.

Mas pela experiência de outros fóruns já me arrisco a dizer que o clima está bem melhor que na edição do Quênia, por exemplo.

O desespero dos organizadores, porém, é do mesmo tamanho. A programação ainda não foi fechada. E tudo está sendo feito de última hora.

Se fosse diferente é que seria preocupante.

O FSM é uma invenção da qual não se espera centralidade. E por isso, decisões e encaminhamentos carecem de mais tempo. E isso às vezes leva a crer que vai dar tudo errado. Mas no final, a história acaba sendo outra.

Em Dacar, parece que isso vai se repetir. A expectativa dos organizadores é de que 50 mil pessoas participem do evento. As delegações já estão chegando e a cidade vai ganhando a presença dos altermundistas nas ruas e nos bares.

Bares onde se pode beber a Gazella, cerveja local com 630ml e que custa entre e 5 e 7 reais no comércio. O nome da cerveja é inspirado no animal, a gazela. Aliás, segundo Amin, um garçom simpático e atencioso que conheci no Just 4 U, meio restaurante meio casa de show, Gazella é sinônimo de moça bonita na gíria local.

Por fim, amanhã publicarei uma matéria falando um pouco mais do Senegal. Dados do país, religião, política, história, especificidades da sociedade civil etc.

E provavelmente o leitor vai se perguntar, mas o que o Senegal tem a ver com Bahia? Talvez não tenha muito a ver, há muitas diferenças. Por exemplo, 90% do povo daqui é mulçumano, já a Bahia é sincrética. Aqui quase não se bebe, já o baiano adora uma cachaça e muitas cervejas.

Mas existem aquelas coisas da memória afetiva que às vezes nos levam a ver no presente o que um dia vivemos no passado. E nem sempre a história é tão parecida.

Mas isso não importa tanto assim. Eu senti a Bahia nos meus primeiros dias de Senegal. Uma Bahia que não existe mais. Mas que ainda gosta muito do Lula. Talvez tanto quanto dos jogadores de futebol brasileiros.

PS: A jornalista Adriana Delorenzo também está fazendo a cobertura do FSM pela Fórum. Ela fez uma matéria que está na home e que merece ser lida, inclusive, porque é mais informativa do que esta nota, que alinhava impressões e sentimentos.


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