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17 de fevereiro de 2011, 05h46

Internet foi fundamental na revolução contra Mubarak

Mandouh Al Habashi é vice-presidente do Fórum Mundial das Alternativas

Quando a deposição de Hosni Mubarak foi anunciada no encerramento do Fórum Social Mundial de Dacar, Senegal, Mandouh Al Habashi, vice-presidente da WFA, Fórum Mundial das Alternativas, foi convidado para fazer um discurso. E o fez de forma emocionada e emocionante.
Na platéia,  algumas pessoas de países árabes derramavam lágrimas com ar de felicidade. Era uma vitória esperada, mas que tinha um gosto todo especial ao ser anunciada.
Ao fim do seu discurso, pedi que Alhabashi descesse do palanque para entrevistá-lo. No percurso de nossa conversa outros jornalistas foram chegando e o que se sucedeu foi quase uma pequena coletiva. Ou seja, nem todas as perguntas publicadas aqui são minhas. Mas como o leitor deve imaginar, a pergunta sobre a internet, sim, foi uma das que fez este blogueiro. E a resposta não me surpreendeu.
Havia conversado com um jornalista egípcio que estava no FSM e que havia dito o mesmo, as novas mídias foram fundamentais na organização da população tanto para que ela tomasse as ruas, quanto para que ficasse nelas. Infelizmente ainda há gente que dissocia a rua da rede. Ruas e redes têm cada dia mais a ver uma coisa com a outra.
Por fim, este blogueiro e a jornalista Adriana Delorenzo estão a caminho do Cairo. Depois de muita luta para trocar as passagens, no dia 21 chegaremos à capital do Egito. A idéia é tanto contar um pouco da história vivida por lá, quanto fazer uma reportagem especial para edição impressa da Revista Fórum.

O que o senhor pensa desta nova situação, e quais são suas expectativas para o sucesso deste movimento?

Primeiramente, gostaria de enfatizar que este é somente o primeiro passo. O primeiro passo no longo caminho da Revolução, mas é muito importante, pois tem valor simbólico. Todo mundo sabe, no mundo inteiro, no Egito tanto quanto no exterior, que o Presidente Mubarak estava condenado. Todo mundo sabia que ele estava condenado. Mas a luta nas ruas foi para forçar Mubarak a sair do poder sob a pressão das ruas. E não para que ele decidisse quando iria deixar o regime.

Com um acordo ou algo do gênero?

Exatamente. O valor simbólico foi o mais importante. E o povo sabia disso. Por isso persistiu. Nós continuaríamos até que ele renunciasse. Custasse o que custasse.  Mas isso representa o primeiro passo de uma longa caminhada. Em todo o país, em todos os protestos o povo pedia a queda do regime. Não só de Mubarak. Ele é somente um símbolo do regime. Depois disso, o povo sentiu o poder que tem. E isto é simbólico. Que nós podemos e somos capazes de fazer o que nós quisermos. Esta é a relevância deste primeiro passo. Mas a revolução somente começou; o regime ainda está no poder. O regime agora treme, mas ainda está no poder. Nós criamos uma situação completamente diferente. Uma situação distinta, da atmosfera de liberdade no país. Agora, o Egito, depois da revolução de 25 de janeiro, não é igual ao Egito de antes. Algo mudou. Agora, temos consciência do poder do povo que está nas ruas.  Algo está diferente.

O povo egípcio vai conseguir impor sua visão e sua força sobre o regime militar no Egito?

Acredito que não vamos ter que impor nada. O mundo inteiro tem assistido a grandeza das manifestações pelas telas das TVs nos últimos dias. Agora o regime está exposto, eles sabem sob que tipo de ditadura nós sofremos há mais de quatro décadas. Uma década sob Sadat (Anwar el-Sadat, que governou o Egito durante 10 anos, até 1981, quando foi assassinado numa parada militar. À época seu vice, Mubarak, assumiu o poder), e três décadas sob Mubarak. É o mesmo regime. E agora está exposto. Mas quero dizer que fiquei bastante surpreso com o alto nível de consciência política entre os manifestantes. Entre as pessoas normais, o povo egípcio comum. Eles fizeram associações entre a dependência do regime com os EUA e o papel do regime para as estratégias geopolíticas dos americanos e israelenses, com a própria miséria do país. Eles fizeram esta conexão. Eles associaram isto sem nenhuma complicação, sem ter estudado ciências políticas em nenhuma universidade. Por isso, o povo exige a queda do regime. Eu estava na Praça Tahrir (principal centro dos protestos no Cairo) e nós acompanhávamos as notícias minuto a minuto. Então, logo depois que chegou a notícia de que Mubarak havia apontado Omar Suleiman como seu vice-presidente, logo no minuto seguinte, os manifestantes foram às ruas gritando “Nem Mubarak! Nem Suleiman! Ambos são americanos!”. Simples assim. Existe uma grande consciência a respeito das tendências imperialistas do regime e a respeito da pobreza, da corrupção, da miséria nas quais o povo egípcio tem vivido desde quarenta anos atrás até hoje. Não é necessário explicar isso a ninguém. Embora o povo não o chame de “imperialismo”, eles chamam de “Israel” ou “Estados Unidos da América”. Você pôde ver pelas notícias, hoje nenhuma mentira é aceita. Mentira nenhuma será aceita. O regime tentou encontrar algum poder político naqueles partidos legalizados e oportunistas de oposição para iniciar negociações sem que Mubarak tivesse que sair. Mas isto não funcionou. Não funcionou porque não há mais sentido nisto. Se estas pessoas com as quais o regime esteve negociando não são capazes de pedir ao povo que volte para a casa, não são capazes de fazer com que o povo se mova sob quaisquer circunstâncias, que dirá sobre negociações? O que é que se está negociando? Nada aconteceu e as pessoas mantiveram sua bandeira erguida. E em todas as vezes que Mubarak retornava com seu pacote de mentiras, havia mais protestos de milhões de pessoas no dia seguinte. E não era somente na Praça Tahrir, onde os correspondentes internacionais estavam, mas por todo o país, de Alexandria a Assuã, de Sinai a Assiut, por todo o país. Até mesmo nas médias e pequenas cidades, em todos os lugares.

Qual foi a importância da internet nesta revolução?

Boa pergunta. A internet parece ser uma das armas mais perigosas contra nossos inimigos. Nós temos um grande número de grupos que estão erguendo diversas demandas. Alguns grupos são contra tortura, alguns grupos de gêneros, alguns pelos direitos humanos e outros grupos por qualquer coisa. Alguns destes grupos foram criados e, cerca de três ou quatro dias depois, atingiram um número de um milhão de membros. Isto significa, então, que eles têm certa influência. E veja, aconteceu meio que por acaso. O dia 25 de janeiro para nós é tido como Dia da Polícia, comemora-se a luta dos egípcios contra o poder colonial britânico, em 1951. Na ocasião desta luta a polícia desempenhou um papel bastante destemido e patriota. Por isto nós temos este como o Dia da Polícia.
Mas, pela primeira vez na história, o regime de Mubarak declarou o dia 25 de janeiro como um dia para premiar a polícia, a polícia de hoje, pela sua atuação. Isto foi provocativo demais para a população. Porque o povo tem uma tensão maior do que você imagina com as forças policiais. E, portanto, todos os grupos da internet concordaram que protestos deveriam ser convocados para este dia de feriado, justamente por ser um feriado, para que pudesse comparecer mais gente. Então, naquele dia, muitos egípcios participaram das manifestações, mas elas tomaram proporções que ninguém ali poderia ter imaginado. Era imenso.Os manifestantes se sobrepuseram à polícia anti-manifestações, que é composta por 1,5 milhão de membros, um número maior do que o contingente do exército.

Existem muitos jovens que participam deste movimento?

Sim, eles são a energia fundamental.

E qual é o significado disto? Podem estar surgindo novas lideranças?

É necessário que surja, é absolutamente necessário. É um “ser ou não ser” para a revolução. Nós temos que iniciar algum tipo de processo para criar “assembléias igualitárias”, de modo que seja possível coordenar algum grupo para liderar as massas nesta resistência. E esta é a tarefa mais difícil, criar esta assembléia. Muito pelo panorama político distorcido que temos após quarenta anos de ditadura. Você tem partidos legalizados bastante oportunistas, que são bastante desacreditados.

Incluindo partidos de oposição?

Todos os partidos de oposição. São oposições domadas, o que significa que não são oposições reais. Temos uma diversidade de partidos clandestinos e uma série de atividades políticas que não são feitas através de partidos, mas através de ONGs, etc., pois criar um partido era impossível. Nós temos um quadro distorcido, mas, no fim das contas nós temos quatro blocos políticos definidos. Temos os liberais, ou seja, a ala direita. Temos os extremistas. Temos os nacionalistas. E temos a esquerda. Todos estes blocos são quase do mesmo tamanho. Depois, podemos adicionar um grande número de outros agrupamentos, de ONGs, etc. Finalmente, a metade da população é a juventude, que é a energia da revolução.

Por último, qual foi a participação de Wael Ghonim (gerente do Google no Egito) neste movimento?

Ele é um ótimo rapaz (Wael Ghonim, 30 anos, foi um dos que iniciou a convocação do ato de 25 de janeiro) e ele foi preso. Não só ele, mas vários outros. Porque eles pensaram que, prendendo estas pessoas, o movimento iria parar. Este é o mecanismo do pensamento deles. Você entende? Eles não sabem pensar melhor que isto. E ele sentiu que, pela sua influência, as mortes que ocorreram eram sua culpa. Ele estava chorando em frente à câmera. Ele se sentiu culpado por isso. E as pessoas responderam: “Não! É a revolução!”


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