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27 de março de 2018, 08h34

O jornalismo passou ao largo da entrevista de Moro ao Roda Viva

Moro foi tratado pela bancada de jornalistas para realizar a última entrevista do programa sob o comando de Augusto Nunes como um herói

Imagine um pop star de uma banda de rock sendo entrevistado pelo seu fã clube. Não foi muito diferente o Roda Viva desta segunda-feira (26).

O juiz Sérgio Moro foi tratado pela bancada de jornalistas convidados para realizar a última entrevista do programa sob o comando de Augusto Nunes como um herói. Alguém que estava ali para ser homenageado e não questionado.

Exceto Sérgio D´Ávila, da Folha de S. Paulo, que fez algumas perguntas que pareciam estar fora do script, sobre o auxílio-moradia e Tacla Duran, mas mesmo assim quase pedindo desculpas, os outros nem disfarçaram.

Moro desfilou sua voz fina e de tom enfadonho, fugindo de perguntas e cometendo erros de concordância sem encerrar frases, como se estivesse dando um show.

Nenhuma pergunta sobre os motivos que levaram a Lava Jato a não investigar esquemas da época de FHC ou sobre porque tantos juristas internacionais questionam a consistência do processo contra Lula no apartamento do Guarujá. Nenhuma pergunta sobre a icônica foto dele no evento da Isto é de sussurros com Aécio. Nenhuma pergunta sobre o caso Eduardo Guimarães, que guarda relação direta com a tentativa de cassar a liberdade de expressão de uma pessoa. Nenhuma pergunta sobre o episódio em que ele mandou prender a cunhada de João Vaccari quando ele disse que não havia cometido erro algum no processo da Lava Jato.

Ao contrário, ao invés do apresentador Augusto Nunes indagar sobre as relações do juiz com órgãos de investigação dos EUA, disse que o bom de ele ir ao Roda Viva é que as pessoas poderiam perceber que ele não era da CIA. Um diretor de pastelão mexicano ou de filme de Bollywood não seria tão criativo.

Até por isso mesmo, de tudo que Moro disse, pouca coisa se salva para a análise política. Afora mentiras como ter afirmado que não pediu desculpas ao STF no caso dos áudios ilegalmente liberados de grampo de conversas de uma presidenta da República. Ou quando disse que o Brasil tem bons candidatos a presidente, mas que tem também quem mereça censura. Que é exatamente o que ele está fazendo com Lula. Censurando sua candidatura ao planalto. Ou seja, impedindo-o de democraticamente ser julgado pela população.

Outra coisa, que Moro não poderia fazer se o país vivesse num momento democrático é pressionar uma juíza do STF como fez com Rosa Weber. Só faltou dizer que ficaria muito decepcionado se ela votasse a favor do habeas corpus de Lula. E que não a elogiaria mais por onde fosse.

Mesmo inconsistente e nada objetivo, Moro desfilou sua arrogância sem ser incomodado. Ao contrário, enquanto falava, os entrevistadores o acompanhavam como se vivessem um momento histórico.

Talvez tivessem razão. Uma triste história do jornalismo brasileiro.


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