Blog do Rovai

15 de setembro de 2015, 11h26

A reforma ministerial é que vai decidir o jogo do impeachment de Dilma

O que pode reposicionar as peças e a reforma ministerial. E para que resulte de fato em algo, Dilma vai ter de cortar na carne. E não é na economia...

dilma e mercadante

Nada com um dia após o outro para se fazer análises atualmente. A situação política é tão tensa e tão sensível que quem não quer errar muito tem que aprender a fazer avaliações à frio. Ou no mínimo à morno. No calor da hora é extremamente arriscado.

Ontem escrevi logo após o anúncio das medidas pelos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa  que Dilma havia elegido um novo inimigo, os funcionários públicos e seus sindicatos. Bingo!

Hoje já há lideranças sindicais falando em convocar uma greve geral dos servidores. Foi uma análise à quente, mas muito óbvia também e que por isso difícil de errar. Não é possível imaginar que a presidenta e seus principais ministros e assessores não tenham feito este cálculo na proporção dos riscos que ele pode vir a gerar pra um governo já combalido. Ou seja, eles devem ter uma solução para isso.

Ou então, maginem a seguinte situação: policiais federais, médicos, professores universitários, professores das escolas técnicas, funcionários da previdência, todos os integrantes dos programas sociais, burocratas de todas as áreas etc e tal, parados no país por um mês.

Ao mesmo tempo imaginem o MST e o MTST, que já soltou uma nota criticando o ajuste, entrando nesta luta dos servidores de forma solidária e exigindo que os recursos do Minha Casa Minha Vida sejam mais claros.

E ao mesmo tempo o Congresso não aprovando a CPMF.

Se isso vier a acontecer Dilma terá jogado fora todas as possibilidades de diálogo com sua base fora e terá ficado absolutamente isolada e sem condições de terminar o mandato. Ou seja, o governo deve ter alguma solução e proposta para que isso não aconteça. Ou então, estamos na mão de gente muito mais distante da realidade do que aquele marciano dos filmes de ficção.

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Mas se esse risco existe é verdade que a proposta do ajuste parece ter conseguido abrir algumas portas. A nota da Febraban celebrando-o, a reunião com os governadores que parecem ter interesse em aumentar a aliquota do novo-velho imposto pra ficar com essa parte e poder melhorar suas combalidas contas. O sinal para os prefeitos de que eles também podem ficar com uma parte que seria um excelente reforço de caixa no último ano de governo. A fala de apoio de Renan Calheiros, cujo filho governador de Alagoas também saiu em apoio à CPMF. E a posição do líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, que ao contrário de Cunha, se mostrou disposto a conduzir o debate sem vetos. Todos esses sinais somados, podem demonstrar que há espaço para se conduzir no mínimo uma proposta que se não vier a ser essa que foi apresentada, pode ser algo que torne o impeachment algo um pouco mais distante.

Essa e a próxima semana serão fundamentais para o governo Dilma resolver a equação que propôs ao Congresso e à sociedade na tarde de ontem.
Para isso, a reforma ministerial parece conter os principais ingredientes da solução.

Se Dilma decidir tornar o seu governo ainda mais de direita, desmontando ministérios que são referências para o movimento social, como o de Direitos Humanos, Mulheres, Negros, Cultura e Desenvolvimento Agrário, ela pode se manter no cargo. Mas já será um mero espectro daquela figura que assumiu compromissos progressistas na campanha. E seria abandonada tanto pelo PT, como pelo PCdoB, a CUT, a UNE e outros movimentos. Pode até ser que isso viesse a demorar alguns meses, mas seria inevitável porque esses movimentos e partidos seriam espremidos por suas bases.

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Mas se ela conseguir melhorar o nível político do seu ministério, dando sinais claros à esquerda e oferecendo poder real ao centro a à direita civilizada que tope ir até o fim com ela, o ajuste pode vir a ser de fato apenas uma travessia. Mas para isso Dilma terá mudar o ministro da Casa Civil e alguns outros com os quais mantém estreitos laços.

Mercadante que tem várias qualidades nunca foi habilidoso politicamente. Mesmo no PT, sempre foi questionado pelo seu pavonismo e essa sua característica se mantém firme e forte no ministério. O que lhe fez acumular um número muito maior de adversários e críticos do que aliados. Não há quem não reclame de Mercadante e do seu estilo autista e autoritário, comportamento que também é atribuído à Dilma.

Um governo que precisa construir apoios precisa de gente que chame os atuais aliados e os que busca ainda pelo apelido. Que saiba o time de futebol do sujeito. Que entenda as demandas que estão sendo apresentadas e não as discuta na base da tabela de Exccel.

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Os movimentos sociais vão cobrar sua fatura, com ou sem reforma ministerial. E o que se espera é que o governo tenha condições de negociar algo com os sindicatos. Porque essa de mudar o acordo e propor reajuste em agosto não vai ser engolida assim desse jeito.

Os empresários já deram seus sinais. Febraban em apoio e Fiesp na porrada.

Mas os políticos estão esperando a reforma ministerial. Porque a conta que eles vão fazer é de futuro e não de presente. Se o sinal de Dilma for de manter o mesmo modelo de governo, com este estilo de poucos ouvidos e ao mesmo tempo só mostrar que vai mais pra direita, danou-se.

Ela fica sem a base que a elegeu. E sem os chamados aliados.

Porque o problema do governo não é só de posições ideológicas para eles. É de estilo. E de falta de expectativa de futuro. Eles sabem que nesta toada, não vai dar certo. Ou seja, ainda é cedo para saber no que este ajuste vai dar. Mas uma coisa é certa, essa proposta isolada não resolve nada. Muito pelo contrário, joga mais gasolina em algumas fogueiras.

O que pode reposicionar as peças e a reforma ministerial. E para que resulte de fato em algo, Dilma vai ter de cortar na carne. E não é na economia, mas na política. Ou seja, vai ter de mexer com gente que gosta muito.


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