Blog do Rovai

31 de dezembro de 2016, 12h14

Toca Raul, na sociedade bolha, nos idos de 2016…

A vida provavelmente era algo muito mais simples há 10 mil anos atrás quando nascia para o mundo o menino Raul Seixas. Aqueles humanos muito provavelmente não tinham grandes pretensões, não contavam o tempo, não sofriam no trabalho em busca de conquistas materiais, tinham mais destemor e talvez até fizessem mais amor.

Na noite de hoje, nas praias brasileiras, montes de jovens, de velhos, de brancos, de negros, de loiras, de japoneses, de crianças, de canalhas, de fascistas, de comunistas, de umbandistas, de evangélicos, de caóticos, de católicos, de hippies, de hipsters, de filhos de papai, de maiameiros, de muambeiros, de infelizes, de sorridentes, de marombeiros, de enfermeiros, de mal-amados, de chapados, de suados, de zuados de toda a fauna Brasil estarão olhando para o horizonte e fazendo promessas, dando milhões de abraços, pedindo o impossível e sonhando com aquele dia que há de chegar.

Estarão talvez também pedindo naquela rodinha com o moço batendo nas teclas do violão para que ele toque Raul.

Tocar Raul na virada do ano dá sorte? Dá azar? Ou dá em nada?

O inferno são os outros, como disse Sartre.

Ou ainda melhor: “Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim.”

Nas viradas de ano, além de pedir pra tocar Raul depois do ducentésimo gole, também nos tornamos absolutamente existencialistas.

Ficamos a pensar no que fomos, no que somos e no que seremos.

É tudo ao mesmo tempo.

Um turbilhão de rojões e de emoções.

É tudo muito maluco, muito sem noção, mas absurdamente envolvente.

Difícil passar batido pelo tal revellion.

E nesta noite que marcará o ido de 2016. O desbaratinar de um ano que fica pra trás, mas que como todos os outros provocou marcas em cada um de nós que ainda ficamos, talvez seja o caso de pensar no que ficamos.

O que ganhamos, o que arriscamos, quanto suamos, como lutamos… Enfim, pensar naquilo tudo que escrevemos. No que eventualmente acertamos, no tanto que erramos, e neste passear histórico e em perspectiva não fazer promessas e nem se enveredar em cavalos de pau, mas talvez ajustar ponteiros.

Erramos todos muito em 2016. E talvez mais ainda antes deste ano que se tornou tão duro para as forças progressistas no Brasil, mas que também não foi moleza para nenhuma outra força mais à esquerda em qualquer parte do mundo.

Por que será que avançou tanto a intolerância? Por que um Trump é hoje muito mais a cara da cidadão médio americano do que um Obama? Por que a Venezuela ruiu e enveredou para uma quase tragédia social? Por que o PT não consegue ser mais nem uma faísca do que já foi do ponto de vista da esperança e da mobilização social? Por que as imagens de refugiados já não sensibilizam mais como no início desta crise humanitária? Por que o ódio a eles avançou mais do que a solidariedade? Por que os movimentos brasileiros estão tão burocratizados e tem pouquíssimas lideranças expressivas para o bom combate? Por que a chama de mudança encanta mais pela direita do que pela esquerda?

Não chegaremos a lugar algum em 17, 18, 19, 20 e outros tantos anos mais se ao invés de perguntas, só agitarmos respostas como nossas bandeiras de sempre.

As mesma respostas que estão ali prontinhas para embalar o debate mediado por algoritmos de uma rede proprietária. Sim, o Zuck é muito mais poderoso do que eu, do que você, do que o Assange e do que o Obama na hora de controlar o que pode ou não pode na rede que é dele.

E mesmo o que não controla, já é controlado. Nossas lógicas de combate estão mediadas pelo que achamos que todo mundo acha ou deveria achar.

E são reforçadas por aqueles que acham o mesmo que nós.

A busca do entendimento do outro é o inverso do que o Facebook nos propõe. E mesmo ele nos limitando a uma bolha que é absurdamente a nossa cara, em dias como hoje, no último dia do ano, milhares de pessoas estão escrevendo que estão em operação limpeza.

Estão limpando suas amizades que não consideram tão amigas. Que já não pensam mais como eles acham que deveriam pensar. E são aplaudidas pela iniciativa. E mais pessoas se animam a fazer o mesmo pra se bolhificar ainda mais.

A sociedade bolha e não a sociedade alternativa, como talvez desejássemos, é  o marco deste 2016. Não foi o impeachment que nos levou a bolha. Mas a lógica das bolhas e das forças que nelas atuaram podem ter nos levado ao golpe. Como também criaram o Trump. Como fortaleceram a Le Pen na França. Como construíram a vitória do Brexit. Como derrotaram o acordo de paz na Colômbia.

Uma sociedade bolha movida por imensos interesses geopolíticos das grandes corporações. Do capital. Do velho capital e seus tentáculos tão bem explicado pelo bom velinho da barba branca.

É, amigos, 2016 passou. Chegou ao fim. Com um imenso gosto de derrota para aqueles que sonham com uma sociedade mais justa. Mas não aconteceu desta forma por acaso ou destino.

Somos todos cúmplices desta história. E podemos aceitar isso ou fazer de conta que não.

Podemos apenas xingar o outro ou buscar movê-lo de onde está.

A sociedade bolha de 2016 é a do combate. E a da o Ultimate Fighting, que curiosamente acaba o ano tendo uma brasileira, Amanda Nunes, derrotando o mito Ronda Rousey, em menos de 1 minuto. E nos bares animados da Vila Madalena que antes vibravam com três ou quarto shows de MPB na noite, todos ficaram plantados a noite inteira em frente as telas espalhadas pelo salão vendo as lutas que precederam este último combate.

E comemoraram os quarenta e poucos segundos de uma avalanche de socos da valente Amanda que estragou a cara da Ronda.

Estamos dormindo felizes quando agredimos de forma contundente os nossos adversários. Os que não pensam como a gente. Estamos dormindo felizes com os socos que estragam a cara dos outros. E depois nos enchemos de indignação com os socos movidos a ódio, como os que mataram centenas de brasileiros, como o Luiz Carlos Ruas.

Estamos certos de protestar, mas deveríamos pensar mais, como os hackers, no processo e não no resultado. E talvez escrever e falar mais sobre ele, o processo. Não o do Kafka, não o do Moro, mas no processo que tem nos alimentado de tanto combate.

Hora de pensar o quanto não somos parte de tudo que reclamamos de 2016.

E pra aquele que provar que eu tô mentindo, como já disse o maluco beleza, eu tiro o meu chapéu.


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