Bolsonaro em vias de se tornar um pato manco

Como se elegeu com a força de um movimento fora da política tradicional, o presidente esnobou estas eleições.

A Pesquisa Fórum divulgada nesta semana traz alguns dados importantes para as análises de última hora destas eleições de domingo.

Bolsonaro voltou registrar queda tanto na sua aprovação como no ótimo e bom. E ao mesmo tempo perdeu apoio entre os eleitores das capitais e das regiões metropolitanas.

Isso permite entender porque entre os candidatos a prefeitos de capital, apenas em Fortaleza, Capitão Wagner (PROS) mantenha alguma chance de eleição e vaga quase certa no segundo turno. Mas não por conta do apoio do presidente e sim porque vem acumulando força há algumas eleições.

No Rio de Janeiro, Bolsonaro está tentando pular do barco de Crivella e embarcar no de Eduardo Paes, que gravou um vídeo dizendo não ter padrinho político para se desvencilhar dele.

Em São Paulo, enquanto era abençoado apenas por Edir Macedo, Russomanno tinha perto de 25% de apoio popular. Bastou colar no presidente, seus índices despencarem e ele deve ficar mais uma vez fora do 2º turno.

Bolsonaro tende a ganhar então muitas prefeituras nas pequenas e médias cidades? Também não. Porque não tem um partido estruturado e não se organizou para essa disputa pensando em fortalecer uma base mais partidária.

Como se elegeu com a força de um movimento fora da política tradicional, o presidente esnobou estas eleições.

Pode ter sido seu grande erro.

Ele não é apenas mais um outsider da política. É o presidente do país e caso sua popularidade venha lhe faltar, o que a Pesquisa Fórum começa a mostrar, terá que se segurar nas organizações tradicionais da política. E para isso precisará daqueles que controlam as máquinas. Ou seja, deputados e prefeitos.

Como não deve sair forte desta disputa de 2020 terá mais oposicionistas querendo lhe tomar o bastão em 2022 do que pensando em lhe socorrer. Isso pode ser fatal.

Ainda é cedo pra dizer o que vai acontecer em 2021, mas tudo indica que Bolsonaro terá um ano muito pior do que 2020. Ele não tem o que apresentar à sociedade e a pandemia tende a ser controlada por vacinas que devem pipocar já no primeiro semestre. A tragédia do seu governo passará a ficar mais clara.

Um presidente sem perspectiva de poder se torna um pato manco. Se a direita clássica com parte do centro e a esquerda se articularem, cada qual no seu canto, podem tirar do presidente o protagonismo das eleições de 2022.

Ainda é cedo para cravar isso, mas esta já não é mais uma hipótese absurda.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.