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26 de fevereiro de 2020, 17h17

Bolsonaro sentiu o cheiro de queimado na economia e se antecipou com o golpe

Apontar o dedo para o Congresso e para o Supremo agora, tentando mostrar que se o Brasil ainda não virou um mar de rosas e se não vier a virar tem relação com a “bagunça da democracia” pode ser a única tábua de salvação da famíglia

Bolsonaro pode ser chamado de tudo, menos de alguém sem feeling político. O sujeito é um asno em muita coisa, mas um ás no volante ao dirigir seus interesses políticos.

Saiu dos quartéis como um “bunda suja”, como registrou o general-presidente Ernesto Geisel, e logo na sequência se elegeu vereador com os votos daqueles que havia liderado de maneira irresponsável nos quartéis. Na eleição seguinte, tornou-se deputado federal. E daí em diante, elegeu sua esposa vereadora e depois toda a família e alguns muitos amigos, como Hélio Lopes, mais conhecido como Hélio Negão.

Bolsonaro percebeu que no Rio e também no Brasil eram poucos os que vocalizavam o discurso da defesa do regime militar que deixava a cena. Ele o fazia e arrebanhava votos suficientes para se eleger como parlamentar. Assim ficou 28 anos no Congresso.

Com o passar do tempo, sentiu os ventos do crescimento da extrema direita no mundo e junto com seus filhos acompanhou passo a passo a eleição de Trump. E passou a se reunir com Bannon, a inteligência por trás dos dados e do marketing daquela eleição.

Mesmo sendo tratado como alguém de fora do jogo, lançou-se à presidência por um partidinho nanico e sem tempo de TV. Sacou que a TV já não decidia mais nada antes de todos os outros candidatos de partidos tradicionais. E antes também de Ciro Gomes, que se considerou alijado da disputa por não ter alguns segundos do PSB ou do PCdoB.

E fez 46% no primeiro turno.

Uma grave crise econômica à vista

Faço este longo preambulo pra dizer que antes de toda a esquerda e do campo progressista, que se assustava com um possível crescimento mais robusto neste ano, Bolsonaro pode ter percebido ainda antes do Carnaval que a vaca da economia já foi para o brejo neste 2020.

Por isso, chegou a vazar na imprensa descontentamento com Paulo Guedes, como se antecipando ao que viria.

E também por isso pode ter animado seu grupo a marcar grandes manifestações para o dia 15/3 e, de forma intencional (não me parece ter sido acidente), ter repassado um meme convocando este movimento para a jornalista Vera Magalhães.

Ele sabia que ela faria uma nota sobre o seu disparo e queria que isso acontecesse.

Com isso, Bolsonaro deixaria claro para o seu eleitorado o apoio aos eventos do dia 15/3 e sua posição sobre o Congresso e o STF.

Mas por que faria isso exatamente agora?

Por saber que internamente as condições para um crescimento razoável não foram criadas e com a crise internacional e do coranavírus seu grupo pode chegar numa situação terrível para as eleições de outubro. Seu governo pode estar indefensável.

Se o coranavírus de fato vier a fazer estragos aqui eles serão muito piores do ponto de vista social dos que os provocados na China e na Itália.

Haveria mais desemprego porque mais empresas fechariam da noite para o dia, porque empregadas domésticas seriam demitidas, as lojas ficariam vazias, os prestadores de serviço não seriam recebidos em condomínios e casas, restaurantes seriam casas fantasmas. Porque o pânico entre a elite e a classe média seria muito maior.

Além disso, os hospitais ficariam abarrotados e o sistema de saúde provavelmente colapsaria. Muita gente sem qualquer indício da doença buscaria atendimento por conta da forma como nossa mídia age nesses momentos. Pastelarias e comércios chineses seriam boicotados e talvez atacados, portos como os de Santos seriam fechados, cidades ou regiões de cidades muito afetadas poderiam ser colocadas em quarentenas.

Eu não estou dizendo que isso vai acontecer, mas isso pode sim vir a acontecer a depender da gravidade da epidemia no Brasil.

Mesmo sem isso, e mesmo que a crise aqui seja controlada com tranquilidade do ponto de vista sanitário, a economia sofrerá impactos. E o crescimento ao menos do primeiro semestre já esta praticamente condenado.

Apontar o dedo para o Congresso e para o Supremo agora, tentando mostrar que se o Brasil ainda não virou um mar de rosas e se não vier a virar tem relação com a “bagunça da democracia” pode ser a única tábua de salvação da famíglia.

É uma ação de risco. Mas há cálculo no risco.

Bolsonaro agora recua, por saber que não é o momento de acelerar. Mas pode fazê-lo de novo daqui um tempo. E não vai abrir mão de inflar o movimento do dia 15/3, porque sabe que é importante na sua estratégia.

Seus ministros não precisam se expor, mas Regina Duarte já o fez.

Quem vai se expor são empresários que defendem um regime duro e que vão contratar carros de som, disparos de whasapp, distribuir camisetas, bandeiras e contratar pessoas para encherem algumas praças no dia. Em São Paulo, por exemplo, eles sabem que colocam 30 mil sem muito esforço. No Rio e em Brasília uns 5 mil. E isso basta para criar uma narrativa de vitória.

É assim que têm feito algumas das manifestações acontecerem nos últimos tempos. Será assim desta vez.

Bolsonaro não cometeu um escorregão. Ele sentiu o cheiro de queimado. Viu uma árvore e sentiu que por trás dela há uma floresta.

Para a oposição só existe uma saída, entender o processo e ir pra cima. Como já disse no artigo anterior, a manifestação do dia 15/3 não podem acontecer.

Principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília elas têm de ser impedidas, se necessário, no braço democrático. Como foi em Charlostteville, nos EUA, em 2017. Quando estudantes impediram supremacistas nazistas de levantar suas bandeiras racistas.

Lá, na tão proclamada América, o ato dos fascistas foi considerado ilegal depois da resistência dos estudantes. É assim que se faz democracia. Aqui não pode ser diferente.

E as pautas da economia têm que ser levadas como bandeiras de luta. Porque o que de fato assusta o bolsonarismo é o que vai acontecer com o PIB. Trocar Bolsonaro e manter a política econômica não resolver os problemas dos setores populares. Isso tem de ficar claro desde já.

PS: Tem ainda um outro dado importante a ser considerado. Hoje no mercado muitos analistas já projetam um dólar a 5 reais ou mais em curto espaço de tempo. E pra que ele não exploda, o país terá que gastar muito do acumulado de reservas cambiais fruto de poupança do período Lula e Dilma. Por outro lado, pode levar a um processo inflacionário porque muitos preços (como o dos combustíveis) estão lastreados no dólar. Isso também precisa ser denunciado já e antes que seja tarde. Para que não seja usado pelo governo contra a democracia.


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