Caso Prevent mostra como a ideologia fascista ultraneoliberal pode matar uma empresa

A ida e a morte da mãe de Luciano Hang num dos hospitais da Prevent não se deu por acaso. Ela saiu de Santa Catarina para ser internada Sancta Maggiore e não no Sírio ou no Einstein, por exemplo

A Prevent Senior é uma empresa de seguro de saúde que se consolidou ocupando uma faixa de mercado tratada como um estorvo e deficitária por outros planos, a dos idosos. Seu crescimento no mercado foi se estabelecendo a partir do sucesso do atendimento que costuma ser muito elogiado pelo público em questão.

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A Prevent Senior faz o idoso se sentir respeitado. Esse é o seu grande diferencial. Seus consultores ligam pra confirmar consultas, pra perguntar dos resultados dos exames, seus hospitais são de primeira qualidade e laboratórios idem. E além disso, tem um trabalho exemplar de saúde preventiva. O plano mantém convênio com clubes para que gratuitamente os idosos possam fazer ginástica, esportes e mesmo ter treinamentos que ajudem a melhorar a memória. A Prevent Senior busca dar qualidade de vida e saúde aos seus pacientes. Não trata deles apenas na doença. E isso parece ter sido a chave para conseguir ter obtido sucesso neste segmento. As consultas devem ter diminuído e os tratamentos também.

Porque sei de tudo isso. Porque conheço alguns idosos muito satisfeitos que se utilizam deste seguro-saúde, inclusa dona Clotilde, a senhora minha mãe.

No começo da pandemia, o Prevent Senior foi uma das primeiras empresas a ser afetadas. Porque a contaminação por Covid-19 se iniciou pelo grupo de idosos. Provavelmente bateu um desespero na gestão do plano que imaginou que poderia ter parte do castelinho que vinham construindo atingida pela ampla difusão do vírus nesta faixa etária.

O desespero motivado pela ambição de não perder rentabilidade e até de talvez poder crescer na crise (capitalistas acham isso o máximo) levaram a uma jogada empresarial ideológica de alto risco. A de embarcar e dar sustentabilidade a tese bolsonarista de que tudo não passaria de uma gripezinha e que o tratamento precoce a base de remédios como ivermectina e cloroquina seria um oceano no meio do deserto.

A Prevent passou então a fazer campanha disso na mídia e através dos seus médicos. Há inúmeros relatos da época. E funcionários que não concordavam com essa política suicida foram sendo punidos e internamente boicotados.

A ida e a morte da mãe de Luciano Hang num dos hospitais da Prevent não se deu por acaso. Ela saiu de Santa Catarina para ser internada Sancta Maggiore (e não no Sírio ou no Einstein, por exemplo) porque a empresa utilizava o tal tratamento precoce. E porque provavelmente se dispunha a dar como causa morte qualquer outra doença e não Covid-19. Como acabou acontecendo.

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A Prevent agora está no olho do furacão da CPI e seus negócios podem vir a ser afetados prejudicando um público de idosos de classe média que não tem muito para onde correr.

O deputado Alexandre Padilha (PT/SP) defendeu na quinta-feira (23) que a solução seria uma intervenção da Agência Nacional de Saúde(ANS). É o que deveria ser feito, mas que muito provavelmente não o será.

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Estamos diante de um caso típico deste fascismo de novo tipo, ultraneoliberal. Seus militantes acreditam piamente em teses sem sustentação científica e atuam inclusive na vida empresarial apostando nas fakes news que alimentam e distribuem. É uma cegueira ideológica alimentada pela ânsia de poder ganhar mais dinheiro num ambiente de derrota total dos direitos. Tanto sociais como humanos. Eles querem imperar num ambiente onde a sua ideologia de extrema direita possa beneficiá-los economicamente. E por isso Bolsonaro é visto por este segmento como um herói, como o mito.

O bolsonarismo dos donos da Prevent pode ter derrotado a Prevent. Mas não o bolsonarismo como uma opção política eleitoral, mas ideológica e econômica. De uma gente que não tem compromisso algum com justiça social e um país mais democrático. Que quer apenas ganhar cada vez mais e ter cada vez mais poder para impor sua lógica de mundo. Se possível sem que haja nenhum ruído do andar de baixo. Com o povo domesticado e policiado. Aliás, essa visão Prevent de mundo, que é capaz de forjar estudos inexistentes, receitar tratamentos inadequados, ocultar causa mortes, assediar funcionários etc. para se manter no topo ou até mesmo avançar no seu negócio, não é exclusividade deles. É um pouco a cara de ampla maioria dos empresários brasileiros, que são muito, mas muito piores que a média do cidadão que vive por essas paragens.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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