Centrão, militares, mídia e setor empresarial estão mais insatisfeitos depois da reforma de Bolsonaro

O impeachment e a solução Mourão que eram algo muito improváveis podem vir a ganhar força nos próximos meses

Bolsonaro conseguiu desagradar praticamente todos os atores políticos importantes que poderiam se aliar a ele com a sua lambança ministerial em que também aproveitou para demitir os comandantes das três armas, Exército, Marinha e Aeronáutica.

No centrão a insatisfação ainda é grande com os rumos do governo. E se os movimentos de Bolsonaro para comprar o apoio do grupo se resumirem à nomeação de Flávia Arruda (PL-DF) em pouco tempo haverá um motim de deputados muito mais ruidoso do que as declarações de Arthur Lira quando falou de ‘remédios políticos amargos’, alguns ‘fatais’, insinuando que o Congresso poderia abrir um processo de impeachment contra o presidente.

Em relação aos militares, ficou claro que o presidente não tem mais o apoio que se imaginava que tinha até alguns dias atrás. Ao escorraçar do governo o ministro da Defesa Fernando de Azevedo e Silva e os comandantes das três armas, Bolsonaro, que tentou dar um sinal de autoridade pra dentro das tropas, acabou mostrando fraqueza para fora e autoritarismo e falta de respeito à hierarquia para dentro.

O alto comando do Exército, composto por 16 generais, por exemplo, fechou um acordo que qualquer militar que porventura venha a ser convidado por Braga Netto para assumir a direção da corporação não vai aceitar ingerências diretas de Bolsonaro em decisões que possam desrespeitar as instituições. Ou seja, quem vier a assumir terá o compromisso de consultar este alto comando em casos mais graves. Criou-se um colegiado para proteger a instituição.

Essa é uma derrota de Bolsonaro e de Braga Netto que imaginavam que demitindo Pujol poderiam assumir total controle da tropa.

Na mídia, a reforma ministerial vem sendo tratada como desastrosa. As Forças Armadas que antes não eram temas de debates e especulações, se tornaram a pauta da vez e militares de alta patente passaram a vazar notas contrárias a movimentos do governo.

Entre o empresariado, pelo que se pode depreender dos seus porta-vozes mais atentos, como Mirian Leitão, por exemplo, as expectativas com o governo pioraram ao invés de melhorarem.

Não há um lado para o qual se olhe que permita dizer que os últimos movimentos do governo Bolsonaro permitem algum avanço político que o favoreça. Como também não há condições para que ele endureça o regime.

Essa tese de que ele poderia se movimentar a partir de sua base dura de apoio e das polícias também não fica de pé. Sua base dura de apoio já foi muito maior do que hoje e isso pode ser visto tanto nos resultados das últimas pesquisas como nas análises de rede. E segundo o policial antifascista eleito vereador em Porto Alegre, Leonel Radde, em entrevista ao Fórum Onze e Meia, nas policias Bolsonaro também já não tem o mesmo apoio que antes. Ele acabou não entregando muito do que prometeu à base policial. E se os motins impulsionados quando ele tinha mais força, como o do Ceará, não vingaram, dificilmente vingariam agora para defendê-lo.

Hoje, o presidente está mais fraco do que na sexta-feira passada. E o avanço do número de mortos por Covid-19, que bateu novo recorde, ontem, pode enfraquecê-lo ainda mais. Seus movimentos são de desespero, não de alguém que está no controle da situação. É a partir desta constatação que a oposição tem que se movimentar, buscando ampliar interlocução em todos os setores, inclusive na área militar. Para se for o caso de impedir Bolsonaro, conseguir fazer uma transição democrática e tranquila.

Sim, o impedimento de Bolsonaro é hoje muito mais factível do que antes da reforma destrambelhada de segunda-feira. Quem gritava Fora Bolsonaro na semana passada terá de lidar com essa realidade de ter de encarar uma solução Mourão até 2022 se o caldo entornar um pouco mais. Essa realidade pode assustar, mas talvez tenha sido o motivo que fez com que Bolsonaro agisse tão rápido. Ele pode ter notado um movimento forte já articulando essa saída que poderia ter o respaldo dos comandantes militares. E resolveu agir antes. Com isso pode ter impedido um primeiro foco de incêndio, mas dificilmente terá impedido que as chamas voltem a lhe atacar.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.