Escândalo da Covaxin e queda de Salles: governo Bolsonaro apodrece rapidamente com casos de corrupção

Ainda é cedo para falar que Bolsonaro está prestes a cair. Mas parece ser fato que o governo Bolsonaro está apodrecendo num momento em que deveria estar amadurecendo

Há algumas semanas conversava com um primo que tem muitos amigos e clientes bolsonaristas e ele dizia que enquanto não aparecesse um grande escândalo de corrupção envolvendo Bolsonaro e o seu governo ele não perderia o forte apoio que tem do seu núcleo duro. Um apoio que ele classificava como cego e apaixonado, mas que poderia ser desestabilizado com um caso grave de corrupção no governo que o envolvesse diretamente.

O caso Covaxin parece ter todos os ingredientes para ao menos parcialmente ser este escândalo. O governo Bolsonaro poderia ter comprado a vacina produzida pelo laboratório indiano Bharat Biotech por 100 rúpias ou cerca de 1,34 dólares a dose, mas preferiu comprar de uma intermediária brasileira, a empresa Precisa Medicamentos, pelo valor de 15 dólares a unidade. Fez isso ao mesmo tempo que rejeitava a compra da vacina da Pfizer a 10 dólares alegando preço muito alto.

É um batom na cueca do tamanho do mundo.

Mesmo as pessoas mais simples entendem que 15 dólares é muito mais caro que 1,34 dólares e que não faz sentido comprar do intermediário quando se pode fazê-lo do produtor. Qualquer homem simples do campo entende isso, porque sabe o que é ser explorado pelas empresas de laticínios que lhe pagam uma merreca, por exemplo, pelo litro de leite.

O escândalo da Covaxin tem potencial, até por este motivo, de subir a rampa do Planalto. Principalmente porque o aliado do governo, o deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) disse que alertou em março deste ano o presidente sobre um suposto esquema de corrupção na compra da vacina indiana.

Talvez por isso Bolsonaro tenha preferido perder os anéis hoje a correr o risco de perder os dedos. Entregando Ricardo Salles, que está envolvido em casos de corrupção e que comprou recentemente uma mansão próxima do Clube Paulistano de São Paulo, ele abre mais espaço para o centrão no governo e vai tirando de perto quem pode contaminá-lo com o que tem maior potencial de lhe fazer se tornar um presidente sem base política: escândalos de corrupção.

Ainda é cedo para falar que Bolsonaro está prestes a cair ou que um processo de impeachment avança. Mas parece ser fato que o governo Bolsonaro está apodrecendo num momento em que deveria estar amadurecendo. Ou seja, quando deveria estar fazendo entregas e criando condições para ir à reeleição no ano que vem com muito do que se vangloriar.

Não é o caso.

Bolsonaro tem 500 mil mortes nas costas, com potencial de ter umas 800 mil até o final do ano, e ainda está governando um país quebrado e com casos de corrupção no que há de mais sagrado neste momento, a vacina.

As próximas semanas prometem.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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