Fogo no Borba Gato não é terrorismo. É só burrice mesmo

Destruir estátuas é agir como os talebans procederam no Afeganistão ou como os extremistas da Ucrânia fizeram com a estátua de Lenin.

Botaram fogo na estátua do Borba Gato em São Paulo. Essa foi a pauta principal do ato de ontem que mobilizou mais de 500 cidades, segundo os organizadores. A imagem do incêndio está sendo tratada como terrorismo em grupos bolsonaristas. E não só neles. Em grupos de família o papo também vai nessa linha.

Não foi um ato de terrorismo. Longe disso. É uma ação direta contra um símbolo cujo conteúdo histórico remete à opressão e ao genocídio. Mas é uma ação violenta contra o patrimônio histórico, mesmo que em sua base esteja a contestação à violência.

Não se pode escrever as regras do jogo apenas para um lado. Recentemente o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub ameaçou retirar um mural de Paulo Freire do MEC porque ele era “feio, parecia um vudu e além do que Freire era comunista”.

Sérgio Camargo, da Fundação Palmares, usou discurso semelhante para excluir nomes de lutadores e intelectuais negros da lista de personalidades da instituição. Foram 27, incluindo Gilberto Gil, Martinho da Vila, Marina Silva, Milton Nascimento e Sueli Carneiro. O motivo é que eram de esquerda.

É possível debater certas homenagens e buscar corrigi-las. Evidente que sim. Defendo que podemos e devemos debater e negociar a retirada de certos monumentos históricos de lugares públicos. E inclusive considero que se deva construir espaços para que certas estátuas e obras sejam expostas e que as histórias dessas personagens sejam contadas a partir de um viés crítico.

Mas destrui-las é agir como os talebans procederam no Afeganistão ou como os extremistas da Ucrânia que destruíram a estátua de Lenin. Não é um bom caminho. E para a esquerda é o caminho da burrice, porque quem costuma ter a força para destruir a História são as classes dominantes. Elas é que costumam ter o poder e as armas para destruir placas como as de Marielle.

Não é um jogo bom para a esquerda apostar na violência. Em especial num momento em que temos um fascista no poder com um governo militarizado e que está doido para poder achar “terroristas” por aí para justificar o uso da força contra o campo progressista e os movimentos populares.

Mas a burrice da ação contra a estátua de Borba Gato é ainda maior porque pegou carona num dia de lutas contra Bolsonaro. O genocida da vez que nos assombra com 550 mil mortes. O fascista que precisa ser derrotado pelo seu presente e não pelo seu passado. E, por conta do que foi feito, as redes ontem falaram mais de Borba Gato do que do seu impeachment. É uma pena.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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