Guedes quase fora do governo; resta aos militares a solução Mourão

O impeachment de Bolsonaro já está no telhado. Olhando de cima para baixo e perto de pular. É questão de tempo.

O capítulo Moro não é o final de uma novela, mas o começo do fim. Ao forçar sua demissão, Bolsonaro colocou uma pá de cal na aliança da Lava Jato, com o capital financeiro e amplos setores das Forças Armadas. Uma aliança que também acabou sendo assumida por mercadores da fé que influenciam importantes bases populares, por empresários malandros, pelo setor rural e por grupos de comunicação que sempre se locupletaram com o poder.

Antes de chegar ao fim da história é preciso voltar ao começo. Quando Bolsonaro tinha pouco mais de 10% nas pesquisas passou a buscar um economista para chamar de seu Posto Ipiranga. Achou Paulo Guedes, um investidor ultraneoliberal que sempre almejou cargos em alto escalão de governos, mas que por não ser da confiança dos seus pares de formação, nunca obteve.

Guedes nunca foi do primeiro time de economistas. Nunca foi respeitado pelo primeiro time de economistas do país.

Guedes e Bolsonaro se deram bem. E acertaram que o discurso do presidente seria ultraneoliberal. Que falaria em privatizar tudo.

Guedes foi aos bancos e convenceu uma parte do mercado a deixar uma porta bem aberta para Bolsonaro. Isso lá pra abril de 2018. O mercado ainda acreditava que Alckmin tinha chances de crescer quando viesse o horário eleitoral.

Não deu certo. Alckmin fez água e o mercado começou a pular no colo de Bolsonaro.

Neste momento, Guedes foi a Moro, como já contou. E disse que queria que ele fosse ministro da Justiça de Bolsonaro caso o capitão vencesse. Isso foi lá por agosto. O juiz de Curitiba gostou da ideia. E passou a conversar com seus aliados lavajatistas.

Os lavajatistas que estavam divididos entre Alckmin e Álvaro Dias, quando viram que nenhum dos dois decolaria, fecharam o acordo com Guedes e assumiram a candidatura de Bolsonaro.

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O presente de Moro (ou dote, como preferirem) que selou o acordo foi a divulgação da delação de Palocci, próximo do final do primeiro turno.

Muitos não lembram, mas ali naquele momento Haddad crescia. E depois de ter crescido com a facada, Bolsonaro estacionara. Havia cientistas políticos que já falavam de uma virada de Haddad no primeiro turno.

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A delação de Palocci caiu como uma bomba e foi explorada demais pela mídia antipetista. Globo, incluída.

O acordo de Moro e Lava Jato com Guedes e sistema financeiro foi fundamental para levar Bolsonaro a presidência. E é parte fundamental da sustentação ao seu governo. A outra parte vem das Forças Armadas, que ficou sozinho agora a equilibrar um elefante numa loja de cristais.

Mas Guedes ainda não caiu, Rovai! Sim, é verdade. Por hora. Guedes em breve abandonará oficialmente o cargo, e já não tem mais o papel que tinha, nem está se esforçando para retomar protagonismo. Se tornou um ombudsman dentro do governo. Entre outras coisas tem criticado o Pró-Brasil, plano parecido (mas bem mais limitado) com o PAC de Dilma. Palavras de Guedes.

Com a saída de Guedes vai sobrar um governo em escombros para os militares. E como eles não tem vocação ao suicídio, eles vão caminhar para um acordo com Rodrigo Maia e setores da centro-direita.

Autorizarão o avanço do impeachment de Bolsonaro, com a garantia de que Mourão fique e possa governar com os militares no centro de comando. Braga Netto será a cara visível deste acordo.

Dessa forma, caminhariam até o final de 2022, buscando construir até lá uma nova cara para este novo governo. Se isso vier a dar certo, poderão lançar Braga Netto pra sucessão. Caso não, voltarão para as casernas de onde nunca deveriam ter saído.

Preferirão uma interrupção no projeto do que a desmoralização total.

Isso é o que resta aos militares mais responsáveis neste momento. A tendência é que façam isso para não se misturarem com a velha política à la Roberto Jefferson, a quem Bolsonaro já recorreu.

Ou seja, o impeachment de Bolsonaro já está no telhado. Olhando de cima para baixo e perto de pular. É questão de tempo. Não há como reconstruir um governo sobre os escombros de uma aliança que fracassou fazendo um acordo com o centrão. Isso não fica em pé.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.