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24 de julho de 2019, 14h47

Há indícios de que o hacker de Araraquara pode ter sido inventado para salvar Moro e condenar Glenn Greenwald

A cronologia dos fatos e o perfil do hacker apresentado pela PF dão margem, no mínimo, há muitas dúvidas. Poderia ter sido fabricado um hacker? Delgatti teria aceitado cumprir uma missão? Qual o envolvimento dos outros suspeitos?

A história do hacker de Araraquara está a cada minuto que passa mais estranha. Já se pode afirmar que há indícios de que esta história pode ter sido fabricada para salvar o ministro Sérgio Moro e o procurador Dallagnol da Vaza Jato. Pode ter sido uma operação de aloprados. Pode. Mas não seremos levianos de afirmar isto aqui. De qualquer maneira, se o leitor seguir até o final deste texto verá que há questões que precisam ser muito melhor explicadas.

Fórum foi o primeiro veículo nacional a publicar reportagem sobre a operação da PF em Araraquara. Não por méritos próprios, mas porque um amigo nos passou no exato momento que foi publicada a reportagem do A Cidade On, veículo ligado à CBN. O jornalista Cláudio Dias tratava da operação da PF na cidade e relatava que o caso guardava relação com o suposto hackeamento do celular do ministro Sérgio Moro.

O apelido de um dos suspeitos e que havia sido preso era curioso, Vermelho. Nos grupos de whatsapp de Araraquara os militantes políticos especulavam se poderia ser um ex-filiado ao PT e que hoje milita no PSoL. Era o Vermelho que a cidade conhecia.

Depois de alguns minutos descobriu-se que não. O tal Vermelho era Walter Delgatti Neto. Um rapaz que não tinha militância política pública. Mas ruivo, ou seja, vermelho.

Delgatti não tinha perfil de hacker. Sua biografia, porém, não é das mais nobres.

Ele tem 30 anos e pode se dizer que já é um estelionatariozinho com alguma experiência. Em 2015, foi preso em flagrante e denunciado por portar remédios de uso controlado e receitas em nome de pacientes. Na mesma acusação teria falsificado documentos, entre eles carteira falsa do curso de medicina da USP.

Em 2014, Delgatti teria se passado por ‘André’ ao alugar um imóvel. O apartamento estava mobiliado e ele teria contratado um serviço de mudança para roubar geladeira, sofá, mesas, cadeiras, e uma TV de 50 polegadas.

Um típico ladrão de galinhas.

Mas o que mais nos interessa nesta história toda é que Delgatti, o tal Vermelho, era filiado ao DEM, mas ressurge no Twitter no dia 27 de maio deste ano. Aproximadamente dez dias antes da primeira matéria do The Intercept, que deu início a Vaza Jato, no domingo, 9 de junho.

E voltou ao twitter totalmente Lula Livre, retuitando matérias do 247, DCM, Fórum, Carta Capital, The Intercept e de políticos como Paulo Pimenta e Margarida Salomão, ambos do PT.

Mais do que isso, atacando O Antagonista. Mandando avisar ao jornalista Cláudio Dantas que a casa dele havia caído. Talvez um dos seus posts mais batom na cueca tenha sido este.

A volta de Delgatti ao Twitter se dá depois de um longo interregno. O último post dele, antes do famoso “voltei” em 27 de maio, foi em 4 de agosto de 2011, há exatos 8 anos.

Naquela época ele só falava bobagens. Coisas como “dormir é para os fracos”.

Mas não é que antes de todo mundo o Antagonista descobriu essa nova face de Delgatti, de um lulo-petista que lê e retuita a mídia alternativa. E fez uma matéria na noite de ontem utilizando este elemento como a prova cabal de que ele seria o hacker que invadiu os celulares de Moro e Dallagnol. Ontem mesmo a Fórum já publicou uma nota tratando desta forçação de barra.

Hoje, no Fórum Onze e Meia abordei o assunto, afirmando, entre outras coisas, que não haveria lógica na tese de que a fonte do The Intercpet estava fora das redes, mas volta após passar o material que havia hackeado a um veículo de informação.

Ao contrário, a pessoa que porventura tivesse feito isso, tomaria cuidados para não ficar exposta.

Esta era a minha tese. E continua sendo.

Quem trabalha com segurança da informação ou investigação na internet não usa nem smartphone. Além disso, costuma não ter perfil no Facebook, Twitter ou qualquer outra rede. Em geral, são pessoas que se escondem, se protegem.

Mas o hacker de Araraquara. Ou melhor, o hacker com r. O Racker de porrrrta, porrrtão, porrrrteira. Essse hacher teria, supostamente, feito exatamente tudo ao contrário.

Depois do Fórum Onze e Meia dei um Google para ver em que dia o ministro Sérgio Moro anunciou que seu celular havia sido invadido. Foi no dia 4 de junho. Cindo dias antes da reportagem do The Intercept. E meia dúzia de dias depois do suposta hacker ter dito “voltei” no Twitter.

Dei uma nova busca no nome de Delgatti no Twitter e cai na thread do perfil “_dani_era. A tese dela é muito próxima a minha. Mas ela foi mais ninja do que eu e achou uma conta de Delgatti no Instagram. Uma conta fechada. Mas, cuja frase de apresentação é uma tiração de sarro contra a ex-presidenta Dilma. “Não acho que quem ganhar ou quem perder; nem quem ganhar ou perder, vai ganhar ou perder. VAI TODO MUNDO PERDER”, Roussef, D.

Ou seja, o hacker de Araraquara, um fanático lulo-petista no Twitter, tira o sarro de Dilma no Instagram.

Muito estranho, né?

Perguntei para o editor do The Intercept quanto tempo antes da primeira reportagem eles haviam recebido os dados que permitiram a série da Vaza Jato. A resposta dele: “Nós não divulgamos esta data. Mas posso dizer que trabalhamos 3 semanas antes das primeiras publicações”. Ou seja, no dia 15 de maio, aproximadamente, The Intercept já trabalha com o material. Certamente esses arquivos não chegaram às mãos dos jornalistas no dia 14. O anuncio da invasão do celular de Moro foi no dia 4 de junho.

A cronologia dos fatos e o perfil do hacker apresentado pela PF dão margem, no mínimo, há muitas dúvidas. Poderia ter sido fabricado um hacker? Delgatti teria aceitado cumprir uma missão? Qual o envolvimento dos outros suspeitos? Qual o papel de cada um nesta história que parece ser mais uma Operação Tabajara?

O fato de o veículo porta-voz  de Moro e da Lava Jato ter, ainda ontem, tentado vincular Delgatti ao lulo-petismo e aos veículos da mídia alternativa também espalham um certo cheiro de coisa ruim no ar. Em outros tempos esta técnica já foi usada. O AI-5, assinado em dezembro de 2018, foi fabricado com atentados de direita que se iniciaram em agosto de 1967.

Ainda é cedo para afirmações, mas esta hipótese não pode ser descartada. Como já escrevi no texto anterior, a viagem de Moro aos EUA não foi a passeio. E esta história de um hacker caipira e que se joga nas redes após cometer um crime também não parece ser só uma viagem. Tem que ser bem melhor investigada.

 


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