Lula sabe que Bolsonaro não é doido e nem está derrotado

Por esse motivo, Lula está fazendo de tudo para abrir portas mesmo com interlocutores que não vão lhe apoiar no primeiro turno para construir desde já um grande movimento que deixe Bolsonaro isolado na disputa final

O ex-presidente Lula começou pelo Rio de Janeiro, ainda em junho, seu périplo rumo ao Planalto em 2023. Foi uma ação calculada em um estado tão decisivo quanto Minas Gerais para o resultado eleitoral. Sempre que o PT ganhou as eleições, venceu no Rio. E mesmo quando perdeu, como em 89, ganhou lá também.

Há uma certa lógica nas disputas eleitorais que foi se consolidando desde 1989. Quem vence no Rio e em Minas, ganha a eleição.

No Rio, Lula fez estrago. Teve reuniões com diferentes movimentos sociais, almoçou com Eduardo Paes, jantou com Freixo, tomou café com artistas e com lideranças do PSOL e saiu de lá com a possibilidade de muitos palanques ou de um unificado que iria da centro direita à esquerda a apoiá-lo.

Agora, Lula está no Nordeste fazendo o mesmo. Ampliando ainda mais sua agenda, que passou por Cid Gomes, Tasso Jereissati e Eunício de Oliveira no Ceará, além de deputados petistas que querem lançar candidatura própria, como Luizianne Lins e José Airton.

Lula está entre outras coisas apontando o seguinte para o PT e para as suas bases:

1) Que vai fazer alianças para além da esquerda e da centro esquerda nesta eleição de 2022.

2) Que pretende fazer um governo amplo, que não busque o revanchismo caso seja eleito.

3) Que não considera um passeio a eleição 2022 e nem acha que Bolsonaro já está derrotado por antecipação.

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Esse ponto 3 é o que mais chama a atenção nos últimos movimentos de Lula. Diferente de alguns analistas políticos ele não trata o atual presidente como um morto-vivo. Porque sabe o tamanho da força do Estado brasileiro e o quanto ele pode ser usado para pavimentar uma candidatura à reeleição.

Lula também sabe que Bolsonaro ainda não perdeu seu núcleo duro de apoio e que pode, se vier a mantê-lo nos atuais patamares, ter aproximadamente 35% no primeiro turno das eleições, o que lhe garante a ida para o 2º turno e lhe permitirá vir com tudo para cima de Lula com suas fakes news e ameaças.

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Por esse motivo, Lula está fazendo de tudo para abrir portas mesmo com interlocutores que não vão lhe apoiar no primeiro turno para construir desde já um grande movimento que deixe Bolsonaro isolado na disputa final.

O encontro com Tasso Jereissati, por exemplo, não é pra ser entendido como algo para hoje, mas para o amanhã. O mesmo o com FHC. Eles podem ser os patronos da aproximação que Lula terá de fazer com o mercado e parte das elites tanto para derrotar Bolsonaro no segundo turno, quanto para garantir a governabilidade depois.

É disso que se trata. Não há no horizonte nenhuma chance de que o vice de Lula seja um Tasso, por exemplo, ou alguém como Meirelles. Mas essas pessoas serão tratadas com todo o carinho e reverência pelo ex-presidente.

O périplo pelo Nordeste está servindo para que Lula teste essa fórmula na região onde tem mais apoio. Se conseguir fazer uma articulação que vá da esquerda aos partidos da terceira via buscando que as diferenças regionais não atrapalhem o projeto nacional, ele vai partir para o ataque em todas as outras regiões do país.

E ao que tudo indica vai deixar São Paulo para os 45 minutos do segundo tempo. Porque a decisão de São Paulo será consequência dos arranjos em outros estados e não ao contrário.

Lula sabe que joga sua última cartada eleitoral e não está disposto a errar. E como sabe que o principal erro é o de subestimar o adversário, esse erro ele já mostra que não vai cometer.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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