sexta-feira, 25 set 2020
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Moro volta para a linha de tiro de Bolsonaro que não engoliu Roda Viva

Em agosto do ano passado, Bolsonaro demitiu Moro e depois de o ministro chorar à frente de um colega que lhe deu a notícia e pedir uma segunda chance, rolou uma reconsideração.

A jornalista Thais Oyama conta em Tormenta que, entre outras coisas, pesou a avaliação do general Heleno, que teria dito a Bolsonaro que se ele demitisse Moro seu governo acabaria.

Fazia todo sentido. Heleno se mostrou mais perspicaz do que parece neste episódio, diga-se.

Naquele momento o governo atravessava uma crise e Bolsonaro sequer tinha entregado a reforma da Previdência. Mourão era uma sombra e já havia quem o defendesse para o dia seguinte de um possível impeachment.

A situação mudou. Bolsonaro se mostrou fiel ao deus mercado e está colocando os “tanques” nas ruas para fazer as reformas. Isso lhe garante apoio do andar de cima.

Por outro lado, os trabalhos precários se multiplicaram e aqueles que estavam na completa miséria já conseguem uns caraminguás. E isso traz esperança para uma boa parcela dos andares de baixo. O motorista do Uber acha que a vida dele está melhorando, o menino que entrega lanche de bike também.

Isso explica a melhora da popularidade de Bolsonaro na pesquisa CNT publicada ontem.

Por outro lado, Moro também se mantém com a popularidade em alta. Na verdade, mais alta do que a do presidente.

E isso está ligado à percepção de que o ministro da Justiça e da Segurança Pública está trabalhando para diminuir a criminalidade. E que é um cara que além disso, luta contra a corrupção.

Moro estava indo bem na pavimentação de um xerife moderno. O juiz que prendeu “bandidos” de colarinho branco, também reduziu a criminalidade ( este blogue sabe que isso tem mais a ver com ações dos governos do estado, mas é ele quem está capitalizando).

Este seria um mote perfeito para 2022.

Mas eis que surgiu a entrevista para o Roda Viva. E lá, ele se enrolou. Ele deu a deixa para o Carluxo dizer para o papai que é hora de tomar cuidado.

Quando incitado a assinar um documento de que não sairia candidato em 2022, ele não topou.

Ali, Moro pode ter selado seu destino.

Bolsonaro sabe que ainda é cedo para demiti-lo, mas vai transformá-lo num jacaré banguela.

Hoje, já anunciou que pretende retirar a área da Segurança Pública das mãos do superministro.

E isso seria um golpe fatal, porque Moro acabaria com uma boa parte do seu discurso, que é a do combate ao crime, mesmo que isso não seja algo feito exatamente por ele.

Se tornaria uma ministro da burocracia, que lidaria com questões pouco populares. Não teria como usar suas redes para falar de combate às drogas, por exemplo.

Bolsonaro continuaria com Moro ao seu lado, mas sem a ameaça de ele continuar crescendo.

Já foi dada a senha para essa operação, agora é só ver como Moro reagirá. Vai chorar um pouquinho, engolirá à seco e ficará no governo.

Ou desta vez vai bater de frente com o PR.

O que vier desse episódio impactará por demais a agenda tanto dessas eleições de 20, quanto a de 22. Olho vivo!

PS: Uns 30 minutos após ter publicado esta nota, saiu este texto na Folha do Igor Gielow explicando como Bolsonaro armou a divisão do ministério com aliados seus. Foi exatamente após o Roda Viva, como registrei aqui. Vale a pena ler pra entender o conflito.

Renato Rovai
Renato Rovai
Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.