O que a eleição do Peru pode nos ensinar para derrotar Bolsonaro

O Peru, evidentemente, não é o Brasil. Mas vale a pena prestar atenção no que está acontecendo por lá. Até porque se Fujimori tem uma filha, o tal de Jair tem três filhos que já estão na política. E o melhor a fazê-los seria acabar com eles politicamente agora para que não atormentem nossos filhos e netos nas próximas décadas.

O candidato outsider de esquerda Pedro Castillo deve se tornar o próximo presidente do Peru depois de uma apuração duríssima em que a virada só veio nos últimos 6% dos votos. Deve não significa que será, porque essas últimas urnas reservam muitas emoções. Além do voto do interior mais distante, ainda há votos de peruanos que vivem no exterior, onde Keiko tem vantagem.

De qualquer forma, se a vitória vier ela será histórica. Inclusive porque Castillo não estava entre os favoritos até a reta final do primeiro turno. A chance maior era de um segundo turno entre a extrema-direita, liderada por Keiko Fujimori, e uma candidatura liberal de direita.

Uma vitória de Castillo acabará se tornando uma poça de água no deserto. Mas é preciso analisar também a força do fujimorismo. Pela segunda vez Keiko perderia por uma diferença menor do que 0,5% dos votos no segundo turno.

Foi assim em 2016 quando foi derrotada por 41.133 votos, 0,24%, para o economista Pablo Kuczynski, o PPK.

A diferença é que na eleição passada, Keiko perdeu disputando contra os liberais e teve contra si o voto tímido, mas importante, da esquerda, que votou em PPK. Agora, ela perde para a esquerda e teve o voto dos liberais.

O apoio mais insólito que recebeu foi do prêmio Nobel Mário Vargas Llosa, que em 1990 disputou a eleição contra o pai de Keiko, Alberto Fujimori, foi derrotado e perseguido por ele nos anos seguintes.

Mesmo com todo o histórico de perseguição que viveu, Llosa preferiu ir de Keiko do que apoiar Castillo.

É o que não pode ocorrer no Brasil para que a disputa de Lula x Bolsonaro não se torne um jogo de alto risco. Se os liberais preferirem o capitão ao invés de um governo Lula, a eleição mais importante da história democrática pode virar Peru. E pode levar o lado derrotado a questionar o resultado. Principalmente o lado que já está colocando em dúvida a urna eletrônica.

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A eleição de 2022 no Brasil será a mais importante desde a redemocratização em 1985 porque se Bolsonaro vier a se reeleger tende a governar como Viktor Orbán, na Hungria. A tendência é mudar o sistema político a seu favor e buscar sucessivas reeleições. O que estará em jogo é a democracia.

E pelo mesmo exemplo do Peru é possível dizer que mesmo se Bolsonaro vier a ser derrotado, muito provavelmente o bolsonarismo permanecerá a nos assombrar. Desde 1990 que o Peru luta contra este fascismo que lá atende pelo sobrenome Fujimori.

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O Peru, evidentemente, não é o Brasil. Mas vale a pena prestar atenção no que está acontecendo por lá. Até porque se Fujimori tem uma filha, o tal de Jair tem três filhos que já estão na política. E o melhor a fazê-los seria acabar com eles politicamente agora para que não atormentem nossos filhos e netos nas próximas décadas.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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