Por que Bolsonaro arregou? E o que isso significa…

Bolsonaro, pela primeira vez no seu governo e na sua história, reconheceu uma derrota publicamente e de maneira vergonhosa

Uma das primeiras lições que quem se dispõe a enfrentar batalhas políticas deve apreender é que não se deve ter excesso de otimismo, mas também que o pessimismo não é bom conselheiro. Ver derrotas em tudo é tão ruim quanto ser Poliana e ficar vendo céu azul em cada esquina.

Nesta quinta-feira (9), Jair Bolsonaro, pela primeira vez no seu governo e na sua história, reconheceu uma derrota publicamente e de maneira vergonhosa, através de uma carta escrita por um ex-presidente que terminou o governo com 7% de aprovação e que quando preso por corrupção recebeu como afago de Bolsonaro um “ele mereceu”.

Bolsonaro não fez esse gesto por grandeza política. Mas motivado pelo medo e o desespero. E quem melhor definiu seu gesto foram as redes sociais que cravaram a tag #arregou como trend topic no Twitter.

Mas por que Bolsonaro fez isso? Segue uma lista do que me parece ter sido fundamental.

1) As manifestações de 7 de setembro, a despeito de análises exageradas de alguns colunistas até do campo progressista, foram menores para o investimento realizado e a expectativa dos líderes políticos do campo bolsonarista e também da oposição. No dia 7, cheguei a cravar que Alexandre de Moraes estaria comemorando o resultado dos atos. Parece que foi o que aconteceu.

2) As polícias não mostraram estar com Bolsonaro para o que der e vier como ele esperava. Não se viu blocos organizados de policiais nos atos.

3) As Forças Armadas não mandaram recados a favor da quebra da institucionalidade nem antes, nem durante e nem depois dos atos. Pelo contrário, reinou um silêncio obsequioso sobre o movimento mesmo de clubes militares.

4) As elites se mostraram divididas com as manifestações. Mas numa divisão desfavorável a Bolsonaro, que ficou praticamente só com a parte mais heavy metal do agro.

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5) A reação aos atos e ao discurso de Bolsonaro foi muito forte no campo político. O PSDB e o Solidariedade passaram a apoiar o impeachment e Kassab deu sinais de que poderia levar o seu PSD a fazer o mesmo.

6) Alexandre de Moraes pode ter mandado recados de que, depois de Zé Trovão, o próximo pedido de prisão poderia ser para Carluxo, que está envolvido até aqui em esquemas de fake news.

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Muita gente está sinalizando que houve um acordo com o Supremo e com tudo. Parece improvável. Porque Bolsonaro não é de fazer e nem de cumprir acordos. E os ministros sabem disso. Pode ter havido um intervalo para o recreio nesta batalha. Mas Bolsonaro voltará a atacar as instituições em breve, porque ele precisa disso para explicar o desastre da vida real no Brasil.

Isso significa que a oposição tem que aproveitar esse recuo pra avançar. Ir pra cima. Armar um amplo palanque pra novos atos no país inteiro e se possível em dias diferentes em cada capital do país. Pra que, durante uns 20 dias, haja sempre um ato em algum lugar, forçando com que Bolsonaro cometa erros e abra mais espaço para um impeachment. É hora de avançar, não de ficar achando que o presidente foi um grande estrategista e calculou toda essa patacoada que colocou nas cordas o seu governo.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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