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31 de outubro de 2019, 13h04

Segue o fio: Dez questões que a Globo não fez no JN sobre o caso Bolsonaro e Marielle

Relaciono neste post uma série desses pontos que seriam básicos no mínimo como ponto de partida para perguntas a serem feitas às autoridades ou tratados pela edição do JN. Mas nada disso ocorreu. A Globo negociou? Foi ameaçada? Fez um recuo estratégico, mas vai voltar com novidades em breve?

Jornalistas experientes estão espantados com o recuo da Globo no caso da denúncia envolvendo o presidente da República Jair Bolosnaro no assassinato da Marielle. E os motivos para isso são basicamente um. Pode-se acusar a emissora de tudo, menos de que não tenha um time grande e competente para realizar apurações e checagens.

Mesmo quando manipula e mente, a Globo costuma ser competente.

Por este motivo, esperava-se que após abrir a caixinha envolvendo o presidente em algo tão grandioso como um assassinato, a emissora teria reservado para o dia seguinte uma nova reportagem do caso detalhes ainda mais reveladores da história.

Relaciono neste post uma série desses pontos que seriam básicos no mínimo como ponto de partida para perguntas a serem feitas às autoridades ou tratados pela edição do JN. Mas nada disso ocorreu. A Globo negociou? Foi ameaçada? Fez um recuo estratégico, mas vai voltar com novidades em breve? Não faz sentido abrir uma reportagem investigativa contra um presidente da República e depois simplesmente deixar essa lista de perguntas em aberto.

Segue o fio:

1 – A história do livro de registro que leva ao porteiro do condomínio Vivendas da Barra tem início com a apreensão, ainda em março, pela Polícia Civil do celular de Ronnie Lessa, que está preso por ser considerado um dos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Lessa não forneceu as senhas do aparelho e os peritos do MP só conseguiram acessar os dados no começo deste outubro. Neste celular é que foi encontrada uma mensagem comprometedora de sua mulher, Elaine Pereira Figueiredo Lessa. Em janeiro, um dia antes de Ronnie e Élcio de Queiroz prestarem depoimento na Delegacia de Homicídios (a dupla foi presa em março), ela enviou uma foto mostrando o registro da entrada de Élcio no dia do crime. E pede que o marido avise o parceiro sobre isso. É a partir daí que a polícia vai ouvir o porteiro. E neste depoimento chega ao livro de registros em que está anotada a casa de Bolsonaro. O porteiro, então, confirma que se lembra de que Lessa e Élcio pediram para ser anunciados na casa de Bolsonaro e que foi ele quem atendou a ligação. E que depois se dirigiram à casa 66. Quando o porteiro ligou de novo, o  “seu Jair” teria confirmado que sabia para onde eles iriam. Por que o porteiro anotaria o número da casa errada no dia da visita? Qual o interesse dele em inventar a mudança de rota do carro dos considerados assassinos?

2 – O jornalista Luís Nassif revela hoje no GGN que fonte que considera fidedigna teria lhe informado o seguinte:

  1. O condomínio abriu mão de interfones, por ser caro e por problemas de instalação. Optou-se por telefonar ou para o celular ou para o telefone fixo de cada proprietário.
  2. No caso de Bolsonaro, as ligações são para o próprio celular de Bolsonaro. E é ele quem atende. O que significa que a versão do porteiro não era descabida. Ou seja, o fato de estar em Brasilia não o impedia de atender o telefone.
  3. Carlos Bolsonaro, o Carluxo, também recebe os recados pelo celular. Em geral, fica pouco no condomínio, pois prefere permanece em seu apartamento na zona sul. Mas porteiros ouvidos por moradores sustentam que, naquele dia, ele estava no condomínio.
  4. O porteiro do depoimento está de férias. Mas moradores do condomínio foram, por conta própria, conversar com os demais porteiros. E eles garantiram que a ligação foi feita para Bolsonaro mesmo.

A se confirmar essa revelação de Nassif, abre-se uma trilha de investigação completamente diferente. Por que até o momento isso não foi dito por ninguém, sequer pelas promotoras do MP (que são um capítulo à parte)? O que aquela lista de áudios postada por Carluxo significa?

3) Vamos ao Carluxo, agora. Ontem antes de postar a lista dos áudios e das chamadas por interfone, o filho do presidente disse que estava na Câmara Municipal no horário das visitas ao condomínio. Mas, curiosamente, ao apresentar os áudios para defender seu pai, havia ali uma chamada para a sua casa? Onde estava Carluxo então? Na Câmara ou na Barra? Por que se a internet explorou essa contradição durante todo o dia de ontem, a Globo a citou no JN?

4) Em relação ao Carluxo, outra coisa absolutamente surpreendente é que a Globo não questionou o fato de ele ter mexido nas provas antes de o MP ter acesso a elas. Na manhã de ontem ele já apresentava o vídeo com a relação das visitas do dia para defender o pai. Por que a Globo ignorou solenemente essa ação?

5) O presidente Bolsonaro afirmou (e a Globo destacou) que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, lhe confidenciara no dia 9 deste mês que ele estava envolvido no processo de Marielle e que por isso o processo teria ido para o Supremo. Bolsonaro teve de lá até anteontem 20 dias para articular sua defesa num processo que deveria correr em segredo de justiça. Witzel está sendo cobrado por essa revelação. E Bolsonaro? Quando uma autoridade tem acesso a uma informação de crime e não encaminha denúncia ela se torna cúmplice. Porque ao tratar do assunto a Globo não citou isso.

6) As promotoras envolvidas na investigação do processo de Marielle e o PGR Augusto Aras foram extremamente rápidos para negar qualquer envolvimento de Bolsonaro no caso. A entrevista das promotoras concedidas ontem foi radical. A coordenadora do grupo, Simone Sibilo,  disse com todas as letras que o porteiro mentiu. E também foi rápida em garantir a autenticidade do relatório recebido pelo condomínio. Ela, porém recebeu o relatório apenas no meio da manhã de ontem. Como checar a autenticidade de um relatório que já podia ser adulterado pela família Bolsonaro durante os 20 dias após o presidente ter sido informado pelo governador do seu envolvimento? Por que a Globo não perguntou isso às promotoras?

7) Hoje, a partir de uma thread do editor do The Intercept, Leandro Demori, que a Fórum usou como base para uma reportagem, ficamos sabendo que uma das promotoras é bolsonarista de carteirinha. Daquelas fanáticas que faz selfie com a camiseta do mito. E que tirou fotos com o deputado que quebrou a placa da Marielle. A Globo e suas centenas de repórteres não se interessaram por isso? Não deram nem um Google no nome das promotoras? Por que a Globo preferiu dar a versão das promotoras, mesmo frágil e absurdamente rápida, sem sequer demandar questões mais duras?

8) Para voltar nossa lista de perguntas para o começo da história. Lembram-se que ela começa com a polícia desconfiando de uma mensagem da mulher de Lessa para ele com a foto da planilha de entradas. Como ela teve acesso a este documento? A Globo não se interessou em ir atrás disso?

9) Desde o dia 17 de outubro o processo do MP do Rio está na mesa do presidente do STF, Dias Toffoli. Ele lhe foi encaminhado por procuradores do Rio, conforme lembra Noblat num texto onde também elenca questões a serem respondidas. Toffoli não decidiu sobre a federalização ou não do caso durante 12 dias e os procuradores até aquele momento não descartavam a palavra do porteiro como “mentirosa”. Por que o JN de ontem não questionou as promotoras sobre isso quando elas foram tão incisivas acerca das provas apresentadas.

10) Por fim, por que a Globo não foi atrás do porteiro antes de dar a matéria? Porque a Globo sequer diz que o procurou e ele não quis gravar entrevista?


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