Tiozão do churrasco, Ciro Gomes briga com a picanha e a cerveja de Lula

Ao fazer esse contraponto burro à melhor metáfora popular do que foi o governo Lula, Ciro se afasta do povo. E não ao contrário. Seu discurso fica ranheta, Tipo tiozão do churrasco.

Ciro Gomes lançou mais um vídeo de campanha assinado por João Santana. O marqueteiro baiano é um dos sujeitos mais experientes e capazes na publicidade eleitoral. É craque. Por isso mesmo é de espantar que tenha feito um vídeo tão sem pé e nem cabeça quanto o “A Lenda da Picanha”, no qual Ciro Gomes anda por uma rua estreita de uma comunidade de periferia falando como o tiozão do churrasco.

Ciro tem uma linguagem pouco coloquial e muito professoral que o distancia do povão. E ele a usa neste vídeo no limite do exagero. Ao caminhar pela rua de terra, vai dando aula de como não significa muita coisa comer um churrasquinho “de gato” e tomar uma cerveja “nos finais de semana”. Que o que importa é ter saneamento básico, educação, saúde etc e tal.

O foco de Ciro é de desvalorizar a ação de Lula nos seus 8 anos de governo, que qualquer idiota sabe que não foi o de levar apenas “cerveja e picanha” para as festas nas lajes da galera mais pobre.

O impressionante é que não é só Ciro Gomes que sabe disso, João Santana talvez saiba ainda mais. Porque foi Santana quem mostrou ao país as conquistas do Luz para Todos, da construção de quase 1 milhão de cisternas para levar água ao semiárido, do Prouni, da ampliação das universidades públicas, do Programa de Saúde da Família, do Bolsa Família, da Transposição do São Francisco (obra da qual Ciro participou). Enfim, de algumas dezenas de programas que mudaram a cara do país. De um país que tinha menos de 5% de desemprego ao final do governo Lula e que cresceu 7,5% só em 2010.

Como Ciro e João Santana conseguem transformar tudo isso em “cerveja e picanha”. Como se “picanha e cerveja” ou mesmo qualquer outro tipo de carne na mesa do pobre não fosse consequência de tudo isso que foi feito no governo e não um programa em si.

O brasileiro quer poder tomar sua cervejinha no final de semana e comer que seja um churrasco de capa de filet ou acém. Quer ir para o trabalho na segunda-feira e contar com seu salário no final do mês para botar comida na mesa. É burro brigar com esses tempos que foram bons e podem voltar mesmo sem uma presidência Lula. Que poderiam, de repente, voltar com uma presidência Ciro.

Mas ao fazer esse contraponto burro à melhor metáfora popular do que foi o governo Lula, Ciro se afasta do povo. E não ao contrário. Seu discurso fica ranheta, como era de alguma maneira o discurso do petismo nos anos 80. Um discurso que queria “ensinar” ao povo o que ele deveria valorizar. E que não se abria ao diálogo com essas pessoas para que elas dissessem como queriam melhorar sua vida.

É uma pena que Ciro tenha se tornado isso junto com João Santana. Um tiozão do churrasco que acha que dar lição de moral sobre “a lenda da picanha” é cumprir um papel político importante no debate nacional.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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