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16 de janeiro de 2020, 16h39

Vender órgãos não é um tema complexo; é uma proposta bizarra e ultracapitalista

A venda de órgãos por necessidade econômica em qualquer hipótese é filha das catacumbas da anticivilização. do olho por olho, dente por dente, do salve-se quem puder.

O colunista da Folha e da revista Exame Joel Pinheiro fez uma thread em que explica por que já apoiou a venda de órgãos e por que ainda hoje não tem segurança se este não seria o melhor caminho para o sistema.

Ele começa sua explicação com o seguinte tweet: “A ideia básica de um mercado de órgãos (não-vitais) é que, podendo vender, a oferta de órgãos seria muito maior, e isso reduziria drasticamente a fila dos transplantes, evitando muitas mortes. Além disso, a pessoa que vendeu o órgão sai com um bom dinheiro em mãos”.

Seu post tem quatorze tweets como esse, mas o primeiro é, como diria Machado de Assis, o introito fundamental. Você pode ir até o final e aqui está o link, mas também não. Porque já é possível se entender tudo pelas primeiras linhas.

“A pessoa que vendeu o órgão pode sair com um bom dinheiro em mãos” é uma das frases mais ultracapitalistas que li nos últimos anos. É muito pior do que a defesa que Guedes fazia da reforma da Previdência, muito mais dura do que as justificativas comumente utilizadas por novos escravocratas quando são flagrados explorando mão de obra de maneira cruel, muito mais bizarra do que o voto de Bolsonaro no impeachment elogiando Ustra.

Ela também não é uma frase liberal, ao menos do liberalismo iluminista, que também, creiam, tem inspiração humanista.

Se Joel, que parece ser um cara legal, e que se diz liberal, imaginou que o corpo é um direito individual e que por isso pode ter partes vendidas para sustentar a lógica capitalista, não é a esses liberais que se opuseram à monarquia absolutista e às ortodoxias religiosas que ele se refere. Mas a bárbaros modernos do absolutismo do capital que o defendem como algo que se sobrepõe inclusive ao direito à vida e à dignidade humana. Os tais ultracapitalistas a que me refiro no título.

A venda de órgãos por necessidade econômica em qualquer hipótese é filha das catacumbas da anticivilização. Do olho por olho, dente por dente; do salve-se quem puder. Ela seria algo absurdamente cruel em qualquer canto, mais muito mais num país desigual como o Brasil.

Aqui seria utilizada como forma de massacrar e subjugar ainda mais milhões de pessoas em condição de miséria. Afinal de contas, por que ela não vende um rim para pagar as contas? Por que não vende o baço, já que tá desempregado? Por que  não entrega as córneas “por um bom dinheiro” para uma pessoa que faria uso melhor com a visão?

O mercado paralelo de órgãos é algo abjeto. E, sim, como diz Joel, existe. Mas é condenado por quase todas as legislações do mundo por ser abjeto e em boa parte dos casos se resume à compra por quem tem dinheiro dos órgãos de quem não tem.

Ou seja, basicamente o que se propõe com a legalização.

Espanta ler um texto naturalizando este tipo de argumento, mas espanta ainda mais que milhares de pessoas tratem com seriedade o assunto, como se fosse algo que deveria ser discutido num país em que a miséria avança de maneira absurda, com sinais claros nos faróis das grandes cidades por onde boa parte desses que ponderam sobre isso avançam sem olhar para o lado.

Eles estão preocupados com aqueles que precisam de órgãos e com os que precisam de dinheiro e poderiam melhorar de vida vendendo-os. Mas danam-se para as crianças dos faróis.

É a desumanidade sem limites. A falta de empatia pelo outro. A vida lida a partir de uma calculadora ou de uma planilha de Excel. Como se tudo pudesse ser explicado por: “a pessoa sai com um bom dinheiro em mãos.

Uma pena que tenhamos chegado a este ponto.

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