Blog do Valdemar

política e teologia

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04 de julho de 2013, 22h54

A República dos Nerds

As recentes manifestações populares nas ruas brasileiras são importantes por diversos aspectos. Quero destacar um item: qual o fermento que fez crescer a massa?
Não podemos confundir o contexto com o motivo. A Copa das Confederações atraiu as lentes do mundo para o país do futebol. Daí achar que assim que a bola rolou os brasileiros cansados de assistir resolveram jogar o jogo da política, acho um exagero.
Não podemos alimentar teorias conspiratórias. Infelizmente tem gente que não suporta a realidade e prefere o mundo das sombras. Segundo os sensitivos togados, as forças que detonaram a “balburdia” hodierna são forças ocultas macabras acostumadas aos ritos que resultam na miséria humana. Ora, encontramos argumentos acadêmicos e religiosos que ficam buscando chifres na cabeça de cavalo.
O recorte da mídia impressa e eletrônica elegeu como ator principal do nosso junho/2013 os vândalos. Na cobertura jornalística se dez mil marcharam pacificamente fazendo as mais diferentes reivindicações e dez sujeitos desavisados resolveram mijar fora do penico, adivinha a fotografia que foi para a capa do jornal? O vandalismo da cobertura jornalística desses eventos nos faz pensar que talvez o grande problema da nossa jovem democracia seja o monopólio da fala. Além das edições no descompasso da multidão inquieta, posteriormente a versão criada na sala das redações se cristalizam como história. Algo do tipo: a multidão quis dizer… Chamam para entrevistas os esotéricos intelectuais fotogênicos que sentem as vibrações das massas, mesmo no andar de cima, nas salas de vidros espessos nas janelas. Os tais não precisam de perguntas. São os médiuns da mídia sempre afeitos para incorporar a entidade que for necessária.
República. A consciência de que a coisa pública é distinta da coisa privada é fundamental para a concepção de República. Falar que um ator político é republicano soa aos ouvidos ocidentais contemporâneos como um elogio. República, do latim res publica, “coisa pública”. A procura da República ideal é indissociável da ideia de bem comum. É claro que entre a Roma antiga e o Brasil de junho/2013 existem muitas diferenças no que diz respeito à percepção do que é bom para a coletividade. Mas fiquemos animados pelo fato que uma massa humana desorganizada venceu o cerco do individualismo resignado. Sem líderes e sem projetos claros, mas com um sentimento comum. Mas quem conseguiria perceber essa força estranha no ar?
Os Nerds
Tá de brincadeira? Como assim os nerds? Logo os mais distraídos conseguiriam perceber as forças difusas?
Nerds. Jovens desligados da vida social e entocados no mundo virtual. Ágeis quanto aos complexos programas computacionais, mas pouco habilidosos no que se refere à inteligência social. Nerds da antiga viviam no mundo da lua e os de hoje nas redes sociais. Seres esquisitos que não combinam o corte do cabelo com a mochila. Andam envergados, desengonçados, talvez porque sempre desprezaram as aulas de educação física usando o expediente de forjarem declaração médica de inaptos. Enfim, nessa caracterização grotesca do estereótipo dos nerds fiquemos com a ideia de que nessa tribo a bola não rola. Nos colégios não costumam descer para o pátio quando a sirene avisa que está na hora de relaxar um pouco. Dedos nervosos que deslizam rápido deixam o recado simbólico para os que estão por perto: não estou nem aí! Isso não é o mesmo que dizer que não estão em lugar nenhum.
Os nerds não estão nem aí para os Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs). Também pudera, enquanto eles estão nos cantos das salas tentando prestar atenção nas aulas, lá vêm os alunos mais populares para pedir um tempinho para os professores para uns recadinhos. Tentativas de mobilização social que geralmente convence a poucos. Com os nerds foi diferente. Ainda que fora da pauta dos DCEs e sem pedir a palavra em assembleias, os esquisitos partiram para suas marchas desengonçadas que atraíram multidões. As comunidades do Facebook ganharam corpo e cara nas ruas.
Os nerds não estão nem aí para os Partidos Políticos. É sem dúvida da natureza da democracia a organização de grupos a partir de convicções básicas. O problema é que os cidadãos estão elegendo representantes para não precisar se ocupar do dia a dia da política. Existe nas democracias contemporâneas o mal estar do desgaste dos partidos. Insulados, os líderes procuram gente para compor a “massa partidária”. Os nerds passaram por cima quando foram direto as pessoas sem perguntar quem as representava. Há quem diga que neste aspecto os nerds são anarquistas. Não é para tanto, são na verdade, conforme o estereótipo, desligados. Digamos que se esqueceram de pedir autorização as estruturas que se postam como tradutoras das vontades e defensoras dos direitos.
Uma juventude que precisa de 144 caracteres para falar com as multidões que temos que redefinir o tal do bem comum talvez não saiba o que está acontecendo direito. Não os vejo numa disputa pelo poder. A propósito, os nerds não reclamaram para si o protagonismo. Quem está falando o que é tudo isso são os jovens descolados dos movimentos sociais que roubaram a cena. É legítimo que os Partidos Políticos tenham ouvido o povo e jurem a partir de então representá-lo melhor, humildemente. Ou seja, os Partidos estão voltando à cena e as câmaras de vereadores e deputados estão voltando à vida normal. Abusando do estereótipo, quando as multidões foram para as ruas com variadas reivindicações, os nerds já estavam há algum tempo no lugar que mais gostam: no quarto, comendo pizza, jogando Minecraft , ouvindo música e interagindo nas redes sociais.
As manifestações de junho/2013 deixam muitos recados e devem ter algum efeito pedagógico para os brasileiros. O que mais me chamou atenção? Os nerds foram o fermento que fez crescer as massas pelas ruas. Foram eles que capturaram a insatisfação difusa, ainda que não saibam as respostas possíveis. Minha esperança: que os jovens pejorativamente tratados como desligados e alienados tomem gosto pelo projeto do bem comum e refundem a nossa República.


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